Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

terça-feira, 11 de março de 2014

Ator preso injustamente afirma que processará todos os envolvidos em sua prisão... Mnos sua acusadora

Tá legal, eu confesso: Vinícius Romão está me deixando confuso.

Vinícius Romão de Souza


Entenda o caso

Dalva Moreira da Costa, copeira de um hospital no subúrbio carioca, fora assaltada e, no choque, descreveu a um policial que seu suspeito era um negro de cabelo black. Mesmo a despeito de o assaltante ter sido descrito como vestindo bermuda, o policial prendeu Vinícius Romão, que usava calças e camisa polo. Já escrevi muito sobre o racismo inerente à ação, seja por achar que ‘todo preto é igual’, generalizar traços característicos ou a mais grave situação, achar que o negro pode ir para a cadeia à toa sem que haja o mínimo de respeito. Já falamos isso tudo e as condições arbitrárias em que ele foi preso, conduzido ao presídio em outro município e ficou mais de 15 dias preso sem ter cometido crime, apenas porque Dalva, a ‘vítima’ – pelo menos, de UM dos DOIS crimes cometidos naquela noite – não tinha dinheiro pra ir até a delegacia e explicar que não tinha certeza se tinha mandado o negro de black certo pro xadrez. Mas isso você já sabe, como também sabe que o vendedor e aspirante a ator já foi liberado da prisão. Agora, fique por aí, há desdobramentos.


 Soltura e Reação

 Após ser liberado da cadeia, Vinícius – que é formado em Psicologia - reparou que seus pertences não foram entregues à sua família, como manda o procedimento de praxe, aliás, ação essa que o próprio conhece, por ter feito estágio numa delegacia (irônico não?). Trata-se de 2 celulares, um fone de ouvidos e um par de tênis, que somados, devem passar fácil de 2 mil reais (só o pisante foi mais de R$400,00, segundo uma reportagem que li). Isso tudo ficou no ar, ninguém deu conta, o delegado responsável afirmou que vai abrir sindicância. Claro, né? Além de preso, o cara, até o momento, foi roubado também. Parece até os tempos da escravidão, quando o cara era subjugado, saqueado e não tinha direito a nada além de abaixar a cabeça. Mas calma, até aí, eu ainda não estava confuso. Agora vou ficar.

 

Consequências

 Vinícius não está saindo muito e quando o faz, nunca é sozinho, ainda tem medo, medo de represálias e tals. Afirmou anteriormente que estava pensando em processar o Estado, pelo modo como foi conduzida sua prisão, sem chance de defesa ou telefonema, mesmo que não estivesse em flagrante delito. Beleza, e eu escrevi o quanto torcia pra que ele não agisse feito a classe média remediada que encara o fato como um mero engano e não um crime hediondo. Torci e veio a resposta, ele decidiu processar a todos os envolvidos nessa trozoba toda que se tornou a questão.

“Quero processar todos os envolvidos. O Estado, o policial que me prendeu, o delegado que registrou. Todos que puderem ser processados”, afirmou o vendedor e aspirante a ator. Tá Vinícius, além de ser um direito seu, você teria a obrigação moral de ser exemplo para tantos outros que não têm o apoio que você recebeu em redes sociais, além, claro, de sua família e amigos. Não foi engano ou injustiça, você sofreu uma agressão, um crime. Mas... Sempre tem um mas... Vinícius quer processar todo mundo, o policial que o prendeu, o delegado que o manteve preso, o Estado... Só não vai processar Dalva, aquela que o acusou e não retirou a acusação por uns 15 dias, segundo Vinícius, pelo “peso que ela já carrega de ter colocado um inocente na prisão”.

Cuma?! Ele não vai envolver a mulher que iniciou todo o processo de acusação e prisão injustas?! Na boa, mandar um inocente para a cadeia não é como a lição da boa amizade de um filme de comédia romântica, estamos falando da vida real, não de uma novela, onde um personagem faz o que quer e sai impune, porque é pobre ou porque jura que se arrependeu de verdade. Por todos que são olhados, acusados e agredidos apenas por serem negros, acho que Vinícius perde uma grande oportunidade de buscar justiça por completo. Processar o Estado é o direito de qualquer um nessa situação, mas não responsabilizar também a pobre moça que o acusou no susto é deixar que tantos outros se sintam seguros em cometer uma bizarrice dessas e fazer cara de “mas foi só um mal entendido”.

Vinícius Romão posa sorridente para fotos em festa realizada na quadra do Salgueiro, no Rio 

Conclusão

Lembro de ter ouvido muita coisa desde a infância, desde o mais batido ‘macaco’ até questionamentos sobre 13 de maio ‘ué, não vai ficar em casa hoje? É dia dos pretos!’ e mais um monte de aberrações que qualquer pai desculpava como brincadeirinha de criança. Cresci e já passei a esperar das pessoas olhares, abraços em bolsas e perguntas de seguranças sobre motivos para eu estar parado em algum lugar movimentado. Eu só queria uma chance de olhar para cada uma dessas pessoas e dizer como nos sentimos diante dessa visão social a que somos relegados. Vinícius Romão tem essa chance e está apontando para o lado opressor, parabéns, mas o oprimido que acata a ideologia do opressor também merece mais lições do que ‘Ai, ai, ai, não faça mais isso, hein! O moço briga!’.

Quer um exemplo de como o Brasil ainda precisa muito evoluir a mentalidade acerca da conscientização social e racial? Olha os dois comentários mais recentes – até o momento que elaborei este texto – do jornal Extra:



O primeiro faz uma simplificação de ‘racismo = destacar a cor de pele’ que só não é mais perigosa do que estúpida, já o segundo nem se ateve a temas e reportagens, já foi direto para saciar sua sede de falar asneiras, assim, sem contexto ou ligação mesmo. Só porque podia. Viu como é perigoso desperdiçar chances de falar com a sociedade? É como a pessoa do terceiro comentário falou, o direito à justiça é um dever moral do “réu”, e não mais uma chance de mostrar que nem ele deu tanta importância assim ao que passou. O último comentário até se esforçou, mas utiliza uma argumentação que consegue ser parente bem próximo do primeiro, porque acha que faria diferença a acusadora ser branca (ainda insinuando que isso pesaria mais na sociedade, como se os negacionistas não estariam de plantão pra falar besteira). O foco é a prisão de um inocente porque foi confundido com um cara que nem se parece com ele, além, é claro, dos traços ‘folclorizados’ do negro: Cabelo black e pele preta.   

Enfim, torcendo pra ele mudar de ideia, mas já com a pulga atrás da orelha. Ele quis processar todos os envolvidos, menos quem iniciou o processo? Tá legal, eu confesso: Vinícius Romão está me deixando confuso. Espero sinceramente que ele reconsidere. Não é sempre que temos essa chance de representatividade.

sábado, 8 de março de 2014

8 de março: A mulher, a sociedade e o feminismo

Se um homem está numa posição de liderança e comanda sua tchurminha tchubiruba com mãos de ferro, ele vai ser criticado - entredentes - como aquele que não tem uma mulher capaz de satisfazê-lo. "Aposto que a mulher dormiu de calça jeans".

Agora, se uma mulher está numa posição de liderança e comanda sua tchurminha tchubiruba com mãos de ferro, ela vai ser criticada - entredentes - como aquela que não sabe satisfazer seu homem e que traz sua condição de mulher como desvantagem para a vida profissional e social. "Tá na TPM, mal comida, não sabe segurar um macho".

A mulher sempre é desvantagem. Ou melhor, isso já ganhou esferas maiores, já está no subconsciente da sociedade, num nível que muitos acham que nem existe, que o normal é esse. Eu conheço um grupo de mulheres cujo sonho é ser esposa de alguém, usando argumentos como "faço por que eles (homens) gostam", num sentido submisso.

Se uma homem é educado e resolve seus problemas como um cidadão civilizado, ele 'é uma moça', mas se uma mulher age de forma truculenta, 'ela parece um homem'. Ouvi, há pouco tempo, uma mulher - criada nos "preceitos" machistas PELA PRÓPRIA MÃE, algo como '(...) aquela psicóloga ficava nos analisando para o emprego, desse jeito, aposto que nem tem marido'.

Ou seja, se uma mulher não se casa, ou arruma pelo menos um namorado, ela falhou na
sociedade? É isso que toda mulher busca na sociedade? Um homem? Nada mais? Aliás, a mulher é tão desvantagem que o machismo conseguiu gerar um filho: A homofobia/lesbofobia. Antes, só quero frisar que respeito os termos estabelecidos, mas pra mim, homo é todo e toda homossexual, mas quero destacar a 'diversidade' aqui. Enquanto uma lésbica é criticada por ser uma 'mulher querendo fazer papel de homem', um homem gay é criticado por 'querer ser mulher'. Ou seja, o homem hétero é que é o soberano. Homofobia e machismo caminham juntos.

Agora, vejamos o ato da mulher em sua natureza. No sexo, homens e mulheres estão sujeitos a posições, digamos, acrobáticas e flexíveis, mas 'abrir as pernas' é atribuído apenas à mulher. E, por ser 'coisa de mulher', abrir as pernas serve de explicação para um fracasso masculino. "Fulano? Tinha tudo pra ganhar a competição, mas abriu as
pernas". Pense no efeito disso numa mulher, sobretudo numa jovem que esteja em vias de ou início de vida sexual? Opressão, opressão, opressão à condição feminina folclorizada.

Também falo de um primo próximo do machismo, o machismo racista, aquele que traz o ranço da mulher negra enquanto objeto, a novela com a empregada negra que se não é um alívio cômico sem núcleo e sem história - como se brotasse do chão pra servir - acaba sendo aquela que satisfaz o patrãozinho ou inicia sexualmente o filho deste. Da senzala para a cozinha e para a cama. Aquela mulher negra que ainda tem que ouvir, da mulher branca (para seu 'macho'): 'Eu não sou tuas negas pra você vacilar assim'. Por quê? Porque a mulher negra é culpada por ser tão sensual, por ter a cor do pecado e ficar atraindo o marido alheio para o sexo clandestino, sem assumir, mas muito fogoso. Ou ela é culpada por ser tão gostosa - o que justifica o estupro de muitas, independente da etnia - ou ela é a involuntária culpada por atrair a rapaziada, doida pra sentir seu sabor exótico.

E não esqueçamos que isso tudo passa de pai, mas, principalmente, de MÃE pra filha. E filho também. Costumo brincar (sempre com fundo de verdade) que você critica um menino por pegar numa panela hoje e o chama de 'viado' (machismo e homofobia, lembra?), mas quando ele cresce, a mulherada sente falta de um homem que cuide de casa (por igual e não só auxilie, como um favor), e se cozinhar, caras, vai encantar muitas!



No mais, mulheres ainda são muito criadas pra serem princesas Disney na infância e rainhas do lar no resto da vida (a menos que estejam em posição (UIA!) de sensualidade, aí, pensar em família com uma mulher que não é 'pra casar' pode estragar tudo. Pelas vítimas do estupro, pelas vítimas de violência doméstica, pelas vítimas do preconceito, pelas vítimas do racismo, pelas vítimas da gordofobia e tantas outras formas específicas de se oprimir as mulheres é que eu digo. Sou um homem feminista! Não tenho medo que isso afete minha personalidade, minha masculinidade e muito menos meu caráter. Lugar de mulher é onde ela quiser. Não somos donos delas e
feminismo não é a conspiração feminina pra destronar o machismo, é apenas a busca pelo respeito que o homem não precisa se esforçar pra ter.

Ah, e machismo é uma armadilha, ok? Toda vez que um machista se afasta de sua tchurminha, ele vai ser contestado, ou seja, torna-se orgulhoso, conservador e não pode ser quem é. A espontaneidade se torna uma necessidade de ficar se auto-afirmando machão que eu já disse 'passo' há muito tempo. Não se afirma aquilo que se é, apenas continua sendo e a sociedade vai ver.  

sexta-feira, 7 de março de 2014

Prefeitura de Macaé: Campanha em homenagem às mulheres traz símbolo em formato de pênis



Isso só pode ser o pior ato falho do mundo! Ou seria ato fálico?

Jane Estanislau Roriz, subsecretária de Políticas para as Mulheres de Macaé, levou um susto quando sinalizada pela equipe do jornal O Dia, quanto à figura essencialmente masculina justamente na homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

Ligada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, ela prometeu levar a questão à Prefeitura de Macaé e à equipe que criou a campanha.

Isso é uma picx, gente! Tem que mudar isso aí muito rápido, caras! Como fazer campanha para as mulheres com um 8 de março nessa... er... posição?

Tem que ver isso aí, porque ou foi uma enorme (UIA!) falta de atenção, ou foi uma trollagem só igualada ao mestre jedi Sifo-Dyas, citado por Obiwan Kenobi, em Star Wars II - Ataque dos Clones.

Antes que pensem que é uma coincidência linguística, os produtores já foram sinalizados, mas deixaram rolar, pelo bom humor. Dizem. Rá!

Você tem cara de suspeito, jovem negro


Certa feita, eu tinha por volta de 11 ou 12 anos, era um projeto de Sagatiba (que não bebia, friso, Saga é um estilo de vida, rá!) e voltava de um animado almoço de dia dos pais com... meu pai. Bem, preciso informar-lhes, antes, que meus pais são separados desde que eu era muito pequeno, então a rotina sempre foi a de revezar feriados, finais de semana e férias escolares na companhia de um dos dois (a guarda em geral, com mamãe Garcia). Aí, não antes ou depois de aí, meu pai e eu fizemos uma baldeação num ponto de ônibus em Coelho Neto, subúrbio aqui do Rio, para que eu fosse levado de volta à minha casa, na Pavuna (também no subúrbio, coisa de uns três bairros de distância).

 
A certa altura da espera por uma condução naquela noite de domingo, um ônibus com dezenas de jovens funkeiros parou por ali e a rapeize desceu em peso. No meio daquela mini multidão, me desgarrei de meu pai e não vi que ele se concentrava num possível coletivo para nós. Nisso, senti meus braços puxados, como se faz com crianças arteiras, e reparei que dois policiais me escoltavam - será? - para sei lá onde. Também, não quero nem pensar, pois meu pai percebeu minha ausência e voltou para argumentar com os caras. Com alguma desconfiança dos oficiais da lei, fui 'liberado' e voltamos para minha casa, onde meu pai - e herói, perdão pelo clichê - se despediu e retornou para sua casa.

Devo, também, acrescentar que sempre fui muito fã de Gabriel, O Pensador, sobretudo naquela fase de busca e desenvolvimento de personalidade, eu já admirava sua verborragia pertinente, coesa e inteligente. Por isso, eu costumava andar vestido naquele estilo, com destaque para casacos com capuz - que gosto até hoje. A encarnação geral, depois do susto e do aborrecimento, era o detalhe do casaco, 'suspeito' que teria justificado a 'confusão' dos 'polícia' a meu respeito, logo eu, que nunca tinha ido a UM baile funk à época. Mesmo assim, mesmo sendo um infanto nerd juvenil, eu despertei alguma espécie de 'ar suspeito' neles. A pergunta seria: Por quê?

Momento de sarcasmo da série, quando Will se apavora,
pois 'quando um branco vai pra cadeia, é porque ele aprontou
pra valer!'.
É quando me lembro daquela passagem da série Fresh Prince of Bel Air/Um Maluco no Pedaço, quando Will e Carlton ficam incumbidos de levar o carrão luxuoso do patrão do eterno e saudoso Tio Phil para uma casa de veraneio onde o pessoal do escritório de Phil passava um fim de semana de er... veraneio. A certa altura, os dois são abordados por policiais, Will, que era do subúrbio, já sabia todo o 'procedimento' adotado pelo policial, enquanto Carlton, criado num bairro nobre e milionário, acreditava estar diante de uma autoridade que lhe passava segurança. Resumo, chegaram a ser presos e, com tudo resolvido, Will se aborrece com Carlton pela inocência em achar que foram parados por dirigirem em baixa velocidade.

Ao perguntar a seu pai se qualquer um deles também pararia qualquer um dirigindo em baixa velocidade (e não por serem negros dirigindo um carro caro), Phil responde ao filho: "Filho, eu me pergunto isso desde a primeira vez em que fui parado". Ou seja, Phil, que antes de ser um bem sucedido advogado havia sido criado numa fazenda no sul dos EUAses, região que manteve a escravidão e o apartheid institucionalizado de forma mais radical, também já sabia, como diz a canção d'O Rappa: '(...) de geração em geração, todos no bairro já conhecem essa lição'. Carlton ficou pensativo e aquele foi um dos episódios que não terminava em risadas, abraços e uma música alegre. Ao contrário, terminava em silêncio, apenas com Carlton pensando alto 'eu pararia?'.

À esquerda, Dione, encontrado e preso por ser o verdadeiro suspeito do
crime pelo qual Vinícius Romão começou pagando.
Não é que todos os negros se pareçam por que são negros, o negro é visto como um tipo suspeito, o mais potencial bandido num grupo diverso. Não é confusão, é uma estrutura da sociedade desde a época da escravidão, quando um negro resistindo ao sistema era taxado de rebelde, bandido, fujão e encrenqueiro. Ainda hoje, lá no meu outro blog Raiz do Samba em Foco, me chamam de ativista, de racista inverso e outras baboseiras. Sentir na pele, poucos, eu duvido que tenham sentido o racismo, nas piadas, nos olhares, no modo como se afastam ou se agarram a seus pertences. Claro, sei que isso é só um subterfúgio pra negar o privilégio da branquitude, preferem igualar e simplificar a situação pra não admitir que sua meritocracia é baseada em nossos ombros.

Rolezinhos, revistas em ônibus que saem de regiões de comunidades suburbanas para a Zona Sul e Centro (do Rio), justiçamentos, tudo isso tem o racismo entranhado. Já disse, não é por que é negro, mas a cultura do senso comum te faz achar o preto o suspeito. Isso leva muito racista inoperante a achar que não o é, mas defende a 'causa' sem contestar. Mesmo com o Google aí, pessoas falam qualquer coisa sem o menor embasamento, ignoram que muitos de nós, negros, pra chegarmos a fazer esse tipo de denúncia, já passamos horas lendo, debatendo e assistindo a uma enorme gama de conteúdo artístico, cultural e acadêmico. Bem, agora só vou dizer uma coisinha a mais, pra arrematar e não te aborrecer com esse papo chato de racismo/fada (que só existe se você acreditar, Lua de Cristal que me faz sonhar...).


Após o ocorrido dos meus 11 ou 12 anos, ainda fui abordado várias vezes por policiais em ônibus, principalmente. O que acontece, é que numa dessas, eu já tava tão cansado de discutir com eles, fazer cara feia e dar respostas secas quando perguntado 'de onde vem', 'pra onde vai', 'qual a cor da sua cueca' e outras delongas, que questionei a um policial o porquê de só eu e mais dois ou três (os negros mais ‘evidentes’) sermos revistados, ali nas proximidades de Benfica, Mangueira e São Cristóvão. Pois o educado (sem aspas) policial me revelou que tinham ordens para chegarem em negros, homens e por volta de 17 a 25 anos. Estava esclarecido - ou enegrecido? - o motivo. Ou melhor, confirmado.

Por isso que eu ando dizendo, Vinícius Romão deu sorte, teve apoio em redes sociais. Onde vão parar todos os outros que a família dá entrevista dizendo que era trabalhador e a mídia só evidencia o histórico criminal inventado do jovem negro pobre? Onde eu estaria agora, se meu pai não demonstrasse em sua atitude que aqueles policiais NÃO eram meus donos? Claro que há muitos negros criminosos, mas não o são por serem negros, apenas porque são parte da maioria da população, daí a evidência de a maioria ser negra na criminalidade. É uma questão de razão e proporção.




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Negro, com quem você se parece?

Quando eu era criança, era comparado a Michael Jackson menino e Cirillo, de Carrossel (versão original).


Quando eu raspava a cabeça, era chamado de Cesar Sampaio e Juan, entre outros.


Quando estive com meu poderoso black, fui chamado de Thalles Roberto e Dante.



Agora, estou de nagô e sou Snoopy Dog, Xande de Pilares e Stevie Wonder (sem contar o clichê sem imaginação "predador").



Já fui comparado a muitos outros artistas, esportistas e personagens. A ironia é que um colega, com quem conversei sobre o assunto, também já ouviu algumas dessas mesmas associações, sendo que não somos parecidos entre nós, muito menos todas as personalidades entre si. Aí, teve o lance da nova mulata  dançarina negra Globeleza, Nayara Justino, associada ao personagem Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) e estou respondendo até hoje nos comentários de lá a pessoas que acham natural a comparação.


Não é, é racismo naturalizado, é o que faz com que o descaso pelo ser humano preto permita a um entrevistador a "mera falta de atenção" de confundir Samuel L. Jackson com Laurence Fishburne, já sendo prevenido, pelo próprio Jackson, de que nem adianta comparar também a Morgan Freeman, pois são negros e famosos atores, mas não são iguais. Não foi distração, é o racismo que escorre nojento por essas brechas morais. Eles poderiam ter resolvido tudo com um monte de gargalhadas, mas pra nós, isso não é tão simples.


Não que vejamos racismo em tudo, como o mais sonso pode tentar meter (UIA!) na conversa pra desestabilizar a pauta, é porque não somos personagens, não somos estereótipos exóticos. Não é porque somos negros que somos parecidos, não é porque uma pessoa é branca que se vai chegar e comparar a todos daquele tipo. Quantas vezes você já viu uma pessoa branca de cabelos longos e lisos loiros ou pretos ser comparada a outra que não tem nada a ver, mas também possui esses traços? Nunca, não é? Quem diz que Xuxa e Adriane Galisteu são a cara de Carolina Dieckmann e quase gêmeas de Fernanda Lima e Eliana? Repare bem as comparações acima, são apenas um ou dois traços semelhantes, geralmente, cabelos e a cor da pele, mas você não vê isso fora dos grupos estigmatizados.

O negro precisa aturar isso e ficar quieto? Cabelos crespos, pele preta e - ZAZ! - todos iguais? Vai rolar aquela piada batida de 'caminhão de japonês', como se fossem também todos iguais por características próprias da etnia? Não, caras, não que não seja possível um negro se parecer com outro, lógico, mas é preciso analisar também esse lado, de que essas comparações quase sempre são baseadas apenas na cor da pele, formato de narizes e textura de cabelos. Não somos bonecos.

Recentemente, um rapaz, trabalhador, negro e de cabelo black foi preso sem chance de defesa, sem flagrante ou mandado. Apenas porque a vítima dizia ter sido assaltada por um homem negro, de cabelo black, bermuda e camiseta. Ele é filho de um militar reformado, o que já mata aquela lenda mentirosa de que o racismo acaba quando a condição socioeconômica é alta, está sem visitas ou defesa e nem estava vestido como a vítima descreveu. É isso que faz Nayara Justino ser a 'feia' que se parece com Zé Pequeno, é isso que faz qualquer babaca cantarolar o tema do carnaval global ao se deparar com uma mulher negra, é o que faz todo homem negro ser um bandido sujo e a mulher uma iguaria sexual da sociedade.

Vinícius Romão, ator que esteve em Lado a Lado e está sendo vítima de uma prisão ilegal, apenas porque os
policiais que o abordaram acharam que ele era suspeito, por ser negro e usar cabelo black, como a tal vítima
descrevera. Agora, me diga, quantos brancos vão presos no lugar dos verdadeiros criminosos assim?
Somos tratados como estrangeiros e só somos lembrados enquanto brasileiros quando denunciamos isso, pois, vem aquela outra lenda de que ninguém pode se dizer negro se não nasceu na África (é, tem gente que acha mesmo que negro não é uma situação ideológica também, além da genética não precisar ser pura, como dificilmente tem no mundo todo).    

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.
De geração em geração, todos no bairro já conhecem essa lição.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mês da História Negra dos EUA



Nos EUAses, há um grupo abertamente racista, outro, abertamente neonazista e essas coisas. O país é sempre citado quando se quer falar no racismo aberto que lá ocorre, normalmente querendo negar que aqui a situação seja grave, mas lá, com tudo isso, uma família inteira - diversas vezes - pode ser retratada em seu cotidiano, sendo negra, e isso não é ofensivo. Aliás, porque tanta gente adora as séries das imagens acima, e outras, mas quando se fala em ausência negra na TV brasileira, estamos vendo chifres em cabeças de cavalo? Lá que o negro é minoria é natural estarem presentes na TV e qaui não?

No Brasil, nada é declarado e o que é apontado como racista, tentam maquiar de opinião, liberdade de expressão ou piada. Aqui, por um ou dois dias que se tira pra falar sobre a situação do negro, somos chamados de racistas... porque denunciamos o racismo (?!). Claro, isso é uma tentativa boçal de deslegitimar o reconhecimento do racismo dessa mesma gente que quer ser, mas não quer se assumir (lembrando que eu não acredito mais em desinformação, dado o advento da internet e as pesquisas sobre o assunto estarem disponíveis por toda a rede a um clique ou dedada – UIA! – no celular).

Morgan Freeman

Pois bem, falemos sobre Morgan Freeman. O talentoso ator negro estadunidense, todo ano, desde 2009, vem sendo sistematicamente usado tanto pra um racista dizer que ele é um “negro consciente”, quanto para que o próprio negro seja convencido “por um dos seus” comprando aquele discurso “vamos parar de falar em racismo, que ele some”. Primeiro, devo explicar que ele falou sobre o MÊS DA HISTÓRIA NEGRA estadunidense e não do nosso 20 de novembro, DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA do Brasil , ok? A entrevista que editaram tendenciosamente é sobre o fato de ele não querer que a história do negro seja destacada da história do país de um modo geral. Como eu já escrevi ao site Mundo Negro, é compreensível, visto que o negro ergueu o país lá, como fez aqui, logo, não faz sentido celebrar em um único mês a participação da parte afro da população, mas é um pouco mais complexo.

Entendo que Freeman (interessantemente, ‘homem livre’, em tradução livre) não queira ser relegado a um mês, o menor do ano, para falar de uma história que é a própria história de seu país, mas datas assim precisam ser estabelecidas, enquanto existirem pessoas capazes de discriminar alguém tão cinicamente a ponto de achar que é engraçado ou natural. Não é apenas constatação histórica, é conscientização. E é aí que nossa luta se assemelha à deles, mas aqui, existe um só dia para a conscientização e não celebração, aliás, confusão particular nossa, quando tentam fazer tudo parecer uma festa, sobretudo a mídia. Seria um tremendo barato ter o ano inteiro pra se discutir abertamente as origens do racismo e a aplicação naturalizada dele na sociedade, chegaríamos muito mais facilmente a soluções, só que infelizmente, isso não está sendo possível. Então, um dia, um mês já é um começo.

Mas de onde veio essa história de mês da história negra estadunidense?


A data – também celebrada no Canadá – tem dois pontos de partida: Abraham Lincoln (sim, o 16º presidente estadunidense e caçador de vampiros) e Frederick Douglass, um ex-escravo que se tornou estadista e escritor.

Abraham Lincoln
Lincoln(12/02/1809 – 15/04/1865) – que tinha ascendência indígena, mas uma preocupação maior em uma União fortalecida entre os estados - foi o presidente dos EUAses durante a Guerra da Secessão, resumidamente, o conflito entre os estados do norte (abolicionistas) e os do sul (escravocratas). Quando os sulistas resolveram romper com o norte e fundar uma espécie de país dentro do país, o norte entrou em guerra com eles pela preservação da União e desenvolvimento industrial, econômico e tudo mais. Pra isso, teriam que banir a escravidão, coisa que os sulistas não queriam. Deu-se a guerra, o norte ganhou e Lincoln promoveu a passagem da escravidão à ilegalidade até ser banida. Brilhou.

Frederick Douglass
Já, Douglass (14/02/1818 – 20/02/1895) nasceu, vítima do regime de escravidão e, depois de diversas situações de enfrentamento de senhores, alfabetização clandestina e trabalhos forçados, conseguiu fugir, constituiu família, escreveu livros autobiográficos até ser reconhecido como um grande abolicionista. Cristão, chegando a romper com algumas igrejas por excluírem-no de sacramentos por ser negro, ele alegava que só poderia haver plena justiça com todos libertos na fé em Cristo e não com diversos religiosos endossando argumentos bíblicos que justificariam a escravidão. Também foi tabelião e fiel conselheiro de Abraham Lincoln.

Carter G. Woodson

O principal nome da referida data é Carter Godwin Woodson (19/12/1875 – 03/04/1950), primeiro a levantar a necessidade de haver um evento que conscientizasse e reconhecesse o negro como parte integrante e fundamental da história dos EUAses.

Carter Woodson
Filho de africanos escravizados, seu pai lutou na Guerra Civil (Secessão) e mudou-se com a família para onde havia uma escola para negros. Mesmo não podendo frequentar, por ser muito pobre, Carter estudou por conta própria e foi evoluindo até se tornar professor e diretor do Douglass High School. Já como professor universitário, ele publicou livros sobre a história do afroestadunidense enquanto alertava à sociedade sobre a ausência e/ou pouca representação nas escolas. É tido, aliás, como o primeiro acadêmico a, de fato, estudar e propor a – inicialmente – semana da história negra de lá.

Essa semana seria a segunda de fevereiro, pois, como você deve ter reparado, tanto Lincoln quanto Douglass nasceram em dias muito próximos do mês. Isso começou em 1926, tendo se tornado o mês inteiro a partir de 1976. No Reino Unido – onde Douglass esteve fugindo de possíveis ataques de seu antigo senhor (exposto como tal em um de seus livros) – o mês é outubro.

É isso, essa é a história daquele vídeo editado e maldosamente transcrito como se Morgan Freeman falasse de lá e aqui fosse a mesma coisa. Racismo não é fada ou gnomo, não existe apenas se você acreditar. É como uma fratura exposta, nem que você vire a cara, só colocando um band-aid não vai curar, nem limpar sua consciência em relação ao que você pensa, mas sabe que pega mal, por isso, prefere se mascarar de opinião ou piada. No mais, o mês da história negra estadunidense, a marcha pelos direitos civis e os Panteras Negras, isso tudo, além de Mandela, por exemplo, são grandes exemplos de como confrontar o racismo ao invés de ‘mudar esse assunto chato’. O país tão criticado por seu patriotismo exacerbado, desejo bélico e ganância econômica, além da necessidade imperialista de se impor seu modo de vida idealizado aos outros é, justamente, onde há uma das histórias mais aguerridas contra o racismo fora da África.


Já aqui no Brasil, onde todos somos humanos e tenta-se tirar a identidade do negro dizendo não haver negros, um bando de medíocre fica achando que a piada, a opinião, o discurso, a proibição de acesso, são apenas coincidências do espaço-tempo, que cada um já nasceu ocupando seus devidos lugares de privilégios e desvantagens. 

O cinismo está se arregaçando, cada vez que falamos no assunto, vemos que ele não é inexistente, apenas estava escondido e confortável. 

A gente aponta e o racista dá triplos carpados pra trás soltando fumaça como vampiros borrifados por água benta.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sheherazade, porque não adota um pitboy pra você?

Raquel-Sherazade-4Depois de ser o nome de referência na campanha imbecil tá com pena leva um bandido pra casa’, agora, Rachel S. pode experimentar seu próprio conselho, pois, defendeu que 20 ou 30 rapazes de índole perfeita saíssem por aí aplicando voz de prisão, um julgamento duro, porém justo e uma condenação de fazer inveja a qualquer código penal... medieval. Mas Shehe foi enganada.

Mas, como era de se desconfiar, esses heroizinhos não eram tão Bátemas assim, estavam mais para aqueles episódios clichezentos em que um babaca qualquer se vestia como um herói pra sujar-lhe o nome. Foi bom, me libertei de uma meia dúzia de fascistas no meu Facebook, agora com o plus de saber que também eram – que descansem em ignorância – boçais direitistas como eu mesmo xinguei alguns.

O certo mesmo é que Rachel S defendeu que 20 ou 30 rapazes – demonstrando coragem e muita honra – juntaram-se pra pegar de porrada e armas dois ou três pivetes (deixando apenas um pra pagar pelos outros). Muito digno, porá não dizer grandioso. Só que descobriram que dois deles possuem fichas extensas na polícia.

justiceiros-rachelCrimes como estupro, lesão corporal, furto em condomínio, ameaça, uso de drogas e recusa ao serviço eleitoral, estão associados ao histórico de apenas dois dos anjinhos de Sheherazade. Nota-se, já de saída, que os valentes justiceiros, anjos da penitência da nata da criminalidade carioca possuem um arsenal mais variado que o bat-cinto.

É, Rachel S, seus heróis defensores da moral e dos bons costumes, justos e carismáticos são mesmo um achado... ou melhor, dois, até agora. Quem sabe, você não leve um troféu Bieber 2014, pela sequência tão alucinada de impropérios em pouco tempo, não é? Deve ser alguma fase que você está passando, naturalmente.

Sheherazade, aquela que vale a pena ouvir.
Conta a lenda que ela enfrentou a tirania do rei
e o converteu num homem apaixonado, apenas
contando-lhe histórias por mil e uma noites.
Nem em mil e uma noites essa Sheherazade vai conseguir encontrar argumentos pra negar que defendeu bandidos ainda mais covardes do que o que ela achou que fosse um lixo descartável. E agora, S? Quem é a sociedade limpa que seus bibelôs defendiam ao espancar um adolescente infrator?

Eu, particularmente, torço pelo processo penal justo, mas, no ruim de tudo, ainda entendo mais um jovem que cresceu sem um pai, traficante morto, e expulso de casa pela mãe ao cometer um pequeno delito na comunidade onde morava, do que os jovens de classe média que se armam pra bater nele. Mas, veja só, eles devem responder ao processo de forma justa, não é? Alguém torce pelo espancamento e acorrentamento deles?






Vamos todos cantar, ao som de Baby, baby, baby, aquele refrão: Direitos humanos pra humanos direitos de direita!

Mas, péra, embase o argumento de Rachal S. por mais um segundo:

Untitled 114 QUEM NUNK

Ou seja, Sheherazade - a do Senor, não a do sultão - é uma BELIEBER!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Considerações de um internauta social sobre justiceiros

Leia abaixo texto publicado pelo internauta João Pedro em sua página do Facebook, sobre o jovem infrator atacado por um grupo fascista pseudo-paramilitar:

(texto transcrito do site Pragmatismo Político)



"Dia primeiro de fevereiro, véspera do dia de Iemanjá. Na noite seguinte, a região da Pedra do Sal, onde, não muito mais que um século atrás, havia um mercado de escravos e troncos para punição, seria tomada pela alegria fraterna de uma roda de samba tradicional. Mas antes disso, a poucos quilômetros dali, no bairro do Flamengo, os antigos horrores da Pedra da Prainha seriam revividos. Puseram um negro nu preso pelo pescoço com uma trava de metal num pelourinho improvisado. Segundo o comentário satisfeito de quem publicou a foto (sem qualquer tarja no rosto, perpetuando a humilhação pública), ele estava assaltando pessoas. Pra servir de exemplo aos pretos ladrões. Ao que tudo indica, obra de um grupo local organizado com esse intuito. Recentemente, um caso semelhante aconteceu numa praia na Zona Sul.



Se esse jovem não estava na Pedra do Sal de hoje ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre seu trabalho de mestrado não é porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.
É preciso saber que, oficial e oficialescamente, o Estado, seu judiciário e sua polícia fazem isso e pior todos os dias. Mas a resistência cotidiana, as lutas cotidianas e valores elevados presentes na consciência das massas exercem contrapressão. No entanto, a prova real do caráter humanamente falido do Estado burguês e de sua justiça degenerada é que na medida em que um setor cada vez mais amplo de civis se radicalizarem à direita e aderirem a seus valores e métodos, estaremos mais e mais próximos da barbárie do fascismo, sem subterfúgios. Não existe vacina política histórica, nada está garantido e nada está assegurado; a humanidade se reinventa todos os dias.



Repúdio absoluto e urgência de responder isso à altura. Não pode deixar naturalizar de jeito nenhum. Peço a todos que façam chegar a todas as organizações políticas, mandatos, movimentos e entidades democráticas de que tenham conhecimento."



Eu só te pergunto uma coisa: Camila Pitanga preterida por Fernanda Lima, a Globeleza "feia", a estátua do menino negro acorrentado, o autor de novela que quer cortar o black do jovem ator para ser aceito... Estamos mesmo paranoicos vendo racismo em tudo, ou o racismo está na cara, mas muita gente não quer admitir, porque sabe que pega muito mal perante a sociedade?

Tudo coincidência de cor?

Justiceiros, Fascismo brazuca e a inocência de justiça social humilhando um pivete


Menor com histórico de infrator é espancado e preso nu, pelo pescoço a um poste no Flamengo. Artista plástica que o encontrou – assim como todos nós que prezamos pelas vias judiciais definidas em código legislativo soberano – resistência por parte daquele tipo de conservador que lambe as botas da ditadura, aquele que segue alinha Bolsonaro “bandido bom é bandido morto”.

Bem, Yvonne Bezerra de Melo, que fundou e coordena o Projeto Uerê – escola modelo para crianças e adolescentes com problemas de aprendizados originários de traumas – encontrou o jovem – que aparenta 16 a 18 anos – e chamou os bombeiros. Ao fazer as fotos do rapaz e publicá-las denunciando os maus tratos a um ser humano – que pode ou não ser inocente neste caso, mas quem decide isso não é você ou eu, é a justiça – ela recebeu desaforos e até ameaças.


Isso demonstra como os tais ‘justiceiros do Flamengo’ têm apoio na própria classe social, a elite e sua puxa-saco (ou seria puxassaco?) direta, a classe média, que já usavam a voz do fascismo e do ódio ao pobre em diversos meios de comunicação (com total credibilidade desde o boimate e outros), agora também têm um braço armado com soco inglês, os tais justiceiros. Como eu disse no Facebook, amarrar “bandido” juvenil pé-de-chinelo na marimba e jogar por cima do fio do poste é mole, atacar pitboy em área nobre, quadrilha de estelionatário de condomínio de luxo ou traficante fortemente armado, eles não vão, então, são mais uma extensão do velho hábito de queimar mendigo numa certeza elitista de que ninguém vai se importar. Ninguém comprovou se o garoto estava mesmo praticando NAQUELA HORA algum crime, mas foi alguém se levantar pra defender e a vontade de exterminar o pobre explodiu.

Veja bem, a questão aqui não é defender direitos humanos pra humanos direitos (tenho visto muito conservador fazendo seu papel de replicar o pensamento de seus meios de comunicação engessados), é uma questão de prática. Comprovaram que o jovem tem passagens pela polícia? Ok, mas passagem pela polícia não fez de ninguém um eterno suspeito, do contrário atletas e artistas soltos aí estariam levando dura e cadeado de bicicleta no quengo a cada aparição na TV. Agora, me diz: O que esse ato “simbólico” fez pela segurança pública, além de destilar o ódio ao pobre, ao miserável? Os justiceiros poderiam ir lá até o governador e cobrar um trabalho efetivo da polícia na região do Flamengo? Não, preferem alimentar o ódio cego que faz os imbecis acharem que querer um pouco de justiça é tratar os outros como coitadinho, como se seu ódio é que fosse o natural. Aberrações.

Tenho certeza de que essa tchurminha esnobe estilo “rolezinho é o caralhx, adolescente pobre é vagabundo”, que adora ver a morte de um marginal não pensou nisso. Já veio com o discurso pronto de que tem que matar o meliante, mas não tem cérebro pra pensar na aplicação prática disso sobre a segurança pública. Se isso fosse algum tipo de solução, eu apoiaria, se fosse em confronto com a polícia, eu nunca iria contra a autodefesa, mas foi um ‘arrocha’ pra cima de um garoto, nada que as gangues de valentões de filmes adolescentes estadunidenses não façam. “(...) Eu só ando com a galera e nela eu me garanto / só que quando estou sozinho, eu só ando pelos cantos (...)”. Essa é uma ilustração feita por Gabriel, O Pensador em Retrato de um Playboy, de 1992, acho. Confira mais:

“(...) Não tenho cérebro, apenas me enquadro no sistema
Ser tapado é minha sina, ser playboy é meu problema
Faço só o que os outros fazem e acho isso legal
Arrumo brigas com a galera e acho sensacional
Me olho no espelho e me acho o tal
Mas não percebo que no fundo, eu sou um débil mental”.

Agora me diz, isso vindo de um cara que nasceu em berço de ouro, mas andava com a rapaziada da favela, não foi certeiro? Essa canção me faz pensar naquela minha teoria particular de que politicamente correto é justamente o conservador, que faz e fala tudo que seu mestre mandar. Mestre, entenda por sistema dominante. Se ele fosse contra o sistema, como nós, aí, ele seria INcorreto, pois estaria propondo modificações nos velhos paradigmas.

Bem, a questão é que as pessoas conservadoras, como era de se esperar, reduzem a discussão a algum ponto genérico e acéfalo, a ponto de não chegar a lugar algum. Pra trollar mesmo a conversa, por falta de quórum intelectual de sua parte. Talvez, por saber disso, no fundo do coração, elas se contorçam feito vampiros, diante de uma gorda cabeça de alho, quando alguém tenta explicar que a questão social tem mais camadas. Se tentar contestá-las, prepare-se para uma enxurrada de impropérios do tipo “tá com pena, leva pra casa”, “bota ele pra namorar sua filha” ou “militante de esquerda nojenta” (sobre essa última, eu nem sou filiado a partido político, apesar de saber que o que eu faço também é política... social e não aquele jogo de interesses).

Então, as pessoas vão se tornar a menina do Exorcista quando você tentar levar a conversa para um debate sobre como resolver a criminalidade na Zona Sul carioca ou em qualquer outra região do Brasil, mas eles não têm profundidade intelectual pra isso, lembra? Então gritam, esperneiam e conseguem confundir a defesa pelos trâmites legais e a cobrança da Administração Pública para isso com “peninha de bandido”. Eu não tenho pena de bandido, mas também sei que aquele tipo agredido é bem o que o sistema faz, não é o frio e calculista corrupto, nem é o matreiro golpista, ou a galera organizada que pratica fraudes em você. Pena de morte resolveria? Não, se resolvesse, não haveria criminalidade em diversos países. E matar bandido faria exemplo para  os outros, mas não faz, então não é falta de porrada, nem de tiro, percebe?

Vai adiantar mais a gente cobrar efetivamente policiamento e orientação educacional ou cortar pescoços por aí? Muita gente que se diz pobre – mas é de classe média – é teleguiada inconscientemente a odiar o pobre, só esperando ele fazer uma besteira pra dizer “olha lá, tem que morrer mesmo”. Agora não se fala em “SOMOS TODOS HUMANOS”, começa uma cagação de regra sobre o que é humano direito, vindo de gente que, com certeza, já praticou alguma merdx por aí. Seja um adultério, um uso de algo ilegal (drogas, produtos piratas), já desejou o mal a alguém, já deixou de ajudar um necessitado, enfim... Quem decide quem é direito? O critério é apenas a independente opinião da grande mídia? Quem vigia os próprios vigilantes? Quem julga os justiceiros?

Continuamos a acender uma vela pra deus e outra pro diabo, quando se critica o governo por não atender ao pobre, mas deseja-se a morte desse pobre, quando não anda na linha. Nenhum morto em favela tem ficha limpa, já repararam? Até que se comprova depois a inocência de alguns, mas aí, a tática Veja de “melhor pedir desculpas do que pedir permissão” já faturou uns trocados sobre o sangue do pobre. A quem interessa que o pobre vá para o presídio ou para a cova cada vez mais jovem? Redução de idade penal? Resolve a criminalidade também? Cadê o Amarildo? O genocídio pelo gene social da pobreza está acontecendo, então eu te pergunto: O fascismo naturalizado do brasileiro está surgindo, ou só ficando visível?


Aí, eles vêm com o papo de que ninguém chora a morte de policiais, ou outros trabalhadores. Caras, que babaquice! Claro que se mobiliza também, mas também não se vê esse povo fascista lá. Isso porque só falei no âmbito do fascismo, se eu falasse a palavra R, ia ter mais gente vindo só pra desqualificar isso, como se eu não percebesse as tentativas de se desviar da visão ampla da coisa. E o pior, é que tem um monte aí que adora O Rappa, por exemplo, Bob Marley, Plebe Rude e mais inúmeros artistas que cantam a necessidade de justiça social, mas estão cuspindo fogo nesse momento pra que se extermine, pegue, mate e esfole a pivetada. Analistas do nosso sistemas, huh?

Nota de última hora: Raquel Shaerazzade falou mesmo que o acontecido foi um símbolo de autodefesa coletivo? Caras, essa moça é o Gentilli do jornalismo... Agora que o SBT tem os dois em seu cast, bem que poderiam combinar de um deles usar voz de homem pra destilar seus preconceitos. 


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