Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Machismo: Quadro do Aeroporto (Zorra Total)
Um dia, não muito tempo atrás, relativamente (em torno dos anos 2000), achou-se engraçado criarem um quadro no Zorra Total onde seguranças de um aeroporto simulavam o som de um detector de metais pra forçar alguma modelo a tirar suas roupas para se "certificarem de que não havia risco de armas".
Não bastasse o chefe da segurança levar a modelo para uma área de nítida conotação sexual do lugar, a modelo, além de passar a gostar da proposta (porque é assim que funciona, na cabeça deles, né?), o esquete ainda é seguido de uma mulher gorda, mal maquiada e de aparência de mais idade (ou seja, tudo o que eles acham menos atraente) se oferecendo pra uma revista. Preciso dizer que isso é um passo pro "pensamento" de que mulher feia tem que agradecer assédio/estupro?
Nem cabe dizer que "naquele tempo era assim", porque em termos gerais isso não tem nem duas décadas. E tempo é algo fluído, não tem um ano específico em que algo era aceito ou que era questionado. E mesmo que não fosse questionado, é ruim mesmo.
Se não houvesse o mal gosto de tornar mulheres meros objetos sexuais (ou tentando ser), era sem graça mesmo. Isso que dá basear um conceito deturpado de humor em programas de décadas antes com mentalidades de séculos anteriores.
E nem mencionei ainda o pai que pergunta inconformado onde foi que errou na criação do filho por este ser gay. Mas eu volto nesse assunto outra hora.
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sexta-feira, 19 de abril de 2019
De Repente 30 e reflexão sobre a vida
O filme De Repente 30 (2004) é uma obra que me deixa um grande ponto de exclamação na minha cabeça: 'aff, desperdiçaram uma grande chance de explorar um tema tão interessante que é o amadurecer do ser humano'. Bom, é a história de uma menina de 13 anos, Jenna Rink, que se ressente por não ser popular na escola e nutre um desejo intenso em ter 30 anos e ser bem sucedida no trabalho e na vida social. Eu disse intenso? Diria até doentio! Medo dessa menina quando fica se balançando repetindo o que quer ser. Psicopata resume. Mas, enfim, Este texto é minha reflexão sobre o filme em si e o modo como a mensagem é passada (lembrando que um filme, enquanto peça de comunicação, não TEM uma mensagem, ele É a mensagem).
Impossível não olhar pra película e não lembrar do Big - Quero Ser Grande (sobre o qual eu já escrevi aqui mesmo neste blog, há alguns anos). Big é de 1988, ou seja, ele é totalmente ambientado naquela década, visto que só o menino dá um salto no próprio crescimento. Já menina de De Repente..., ao que parece, avança no tempo, fato que percebemos porque o mundo todo "envelheceu" com ela, porém, sendo a única que não viu o tempo passar. Em Quero Ser Grande, há um fundo filosófico (lembra quando Tom Hanks confessa que é um menino no corpo de um adulto e a namorada adulta leva pro lado filosófico?). A questão é sobre aprender a viver enquanto se vive e não saltar pra um objetivo ou uma data específica. Sempre vamos querer e precisar mudar. Evoluir.
Em De Repente..., a necessidade de dar um final feliz convencional torna o roteiro bem fraco, a meu ver. Nenhuma criatividade, ou mesmo, boa vontade. Se esquecermos, por um segundo (ou melhor, a duração do filme) a pulga atrás da orelha que fica sobre plágio, por causa das piadas requentadas de Quero Ser Grande, De Repente 30 poderia ser bem original na sua abordagem. Mas o final feliz e água com açúcar confirma que a intenção era só contar uma 'história de menininha'. Aquele produto que já sai envelopado pra agradar a um grupo específico pop e descolado (ou querendo se sentir como tal). Ou, de repente, tentaram se distanciar tanto de Big, que erraram feio a mão.
Veja bem, o fato de Jenna crescer de uma hora pra outra poderia ser a metáfora para o tanto de gente que cresce, mas não amadurece. Vemos como ela fica histérica quando é rejeitada pelos populares de sua escola, sua atitude babaca com seu melhor (e o único verdadeiro) amigo e a ansiedade por pular toda essa dificuldade e chegar lá, onde ela brilha muito na vida. Ok, imaturidade e qualquer um está passível, correto? Então, vemos pela narrativa, que ela não cresceu muito diferente do que tanto desejou, mas descobre que também não se tornou lá uma pessoa tão legal quanto ela achava que os populares - dos quais se tornou "amiga" - pareciam ser.
Jenna descobre que seu estilo de vida tão invejado e almejado não levava em conta caráter nem respeito. Ela se vê rápido numa crise de consciência. Isso, pra mim, é o que acontece realmente na vida. 30 anos é uma idade em que (com sorte) sacamos que não somos mais os garotos de 20, mas ainda não somos tão maduros quanto os ainda distantes 40 sugeririam. É uma boa idade pra se refletir sobre os caminhos da vida. Eu lembro de quando chegou minha vez, há quase 10 anos (eita, entregando a idade, Rá!) eu revi conceitos, fiquei mais seguro, assumi erros e me entendi melhor comigo mesmo. Até laços foram estreitados ou cortados pela sabedoria que me alcançava.
Mas o filme para por aí. Ele mostra Jenna tendo a chance de se reconciliar com seu passado e seguir em frente, mais segura de si, mais madura, sábia... Mas não, fazem ela agir feito uma adolescente inocente que só quer fazer o que é certo (e ela já tava evoluindo a partir dali). Sério, a proposta de mudar completamente a abordagem da revista sendo aplaudida é bonitinha pra um conto de fadas moderno urbano, mas nenhum editor ia aceitar isso. E o público fútil que a elevou ao topo por todos aqueles anos? Ia simplesmente comprar que agora a revista ia falar de gente normal e as pequenas delícias do cotidiano? Imagina, o Mc Donald's fica boladinho porque o Burger King arrasou no sanduíche mais recente e resolvem fazer hambúrguer de soja por um mundo melhor e o patrão aplaude emocionado porque isso é bonito? Bom, como o foco não era a revista, deixei passar.
Mas o que estraga mesmo é que quando parece que Jenna está vivendo uma crise de consciência e aprendendo a sair dela como uma pessoa melhor, fazem o tal do melhor amigo e ela se apaixonarem aos poucos e ela acaba usando ele como a tábua de salvação. De repente, num (outro) passe de mágica, ela pode viver o amor verdadeiro com Matt (Mark Ruffalo se esforçando pra não morder o próprio braço com um personagem tão 'nhé'), com direito a casinha recém-pintada de rosa e branco no subúrbio e sofá no quintal pra terminar a mudança. Ou seja, ela passou a vida sendo babaca e quando tudo parecia perdido, ela faz outro pedido ao pozinho mágico e se salva de novo. Lição? Não acho. Pra mim, isso é 'deus ex-machina', ou seja, aquele recurso que o roteirista guarda pro final pra resolver tudo, literalmente, como que por milagre.
Na moral? Eu ia achar muito mais interessante se ela reconquistasse a amizade de Matt. Até porque o cara estava noivo de outra pessoa. Mesmo que guardasse o amor platônico por Jenna por quase 20 anos, não faz sentido que o cara apareça adulto no filme, tendo vivido uma vida mais 'pé no chão' e de repente faz tudo que a, aparentemente maluca, da ex-amiga quer. E a noiva? Bem, ela aparece umas 3 vezes no filme pra ser apenas uma interrupção na conversa dos dois (previsível como o roteiro é, me espantei por ela não ser uma megera que faria a audiência torcer contra só de raiva).
Em suma, a vida é assim: Tomamos decisões erradas e isso dói, mas se tornam lições por si só no futuro. Nada pode ser mudado, arrependidos ou não, mas a gente cresce e vai aprendendo a viver no cotidiano. Não tem passe de mágica e é por isso que vamos sempre tentando. Tentativa e erro e, às vezes, acerto e recompensa ou erro e consequência. O importante é que não adianta pular etapas porque lá na frente vai faltar bagagem, experiência de vida pra sabermos resolver os desafios que aparecerão (e continuarão aparecendo). De Repente 30 teria meu respeito se ousasse em criar uma protagonista que faz sua jornada rumo ao amadurecimento de quem percebe que dos 13 anos pra cá a vida passou num pulo e aprende a aproveitar melhor o que tem pra ser alguém melhor. Esse final de comercial de margarina da família branca, apenas vemos como uma garotinha mimada faz o que quer e sempre se dá bem com dois passes de mágica. Ficou raso.
Sem contar a constrangedora performance de Thriller (Michael Jackson) no salão. Mas o momento 'garotinha' reproduzindo Love is a Battlefield (Pat Benatar) eu acho legal. Soou mais natural e anos 80 do que uma marmanja correr pro meio de um salão recheado de yuppies em plenos anos 2000 e começar a dançar uma das músicas mais famosas, porém batidas do cancioneiro mundial (e ninguém avisou a ela que Michael Jackson estava praticamente no ostracismo e acusado de pedofilia). Sem contar na coreografia complexa. Qualé, ninguém corre pro meio da festa pra dançar Michel Jackson e se corre, geralmente é usando Billie Jean, ou mais especificamente, o passinho de botar a mão na virilha e o Moonwalker, né? Soaria mais natural dançar o É o Tchan. Rá!
Tentaram emplacar um momento "Twist and Shout", mas Jenna não é Ferris. Poderia ser similar, se lembrarmos que em Curtindo a Vida Adoidado, Ferris Beuller sabe o tempo todo que o tempo vai passar e que é preciso aproveitar o momento pra fugir da rotina e imposições que a vida social adulta vai trazer. Jenna cresce, o mundo avança (lembrando que ela vive com 13 anos na década de 80, mas quando cresce, já vive a era atual do filme - 2004), mas ela fica presa no passado. Isso por si só, deveria ser a grande lição - e trampolim - pra seguir em frente, mas ela volta atrás e arranja um milagre que a torna tudo que realmente importa na vida.
Pô, se aos 40 ela separasse de Matt, ia dar outra cabeçada na casinha de boneca mágica pra resolver suas dificuldades? Pô, até o Click (também de 2004) do forçado Adam Sandler faz a vida seguir e, quando volta, deixa claro que não foi só um sonho, mas uma redenção com a lição aprendida.
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segunda-feira, 15 de abril de 2019
O Rei Leão e a sociedade
Vem aí um remake digital do clássico da Disney, O Rei Leão (1994). Bem, particularmente, até tenho alguma curiosidade em assistir, mas não vou procurar. Verei depois, dublado e com cortes na sessão da tarde (ou alguma outra sessão cinematográfica da TV aberta que não sei qual, já que a piada é que não assisto TV aberta). Enfim, acho desnecessário porque o original já disse tudo que precisava dizer e de forma linda e intensa. Aliás, original... (que nem é tããão original assim, já que foi drasticamente chupinhado da animação japonesa Jungle Taitei/Kimba, o Leão Branco), neam?
Mas a questão aqui não é nem isso, é que lá nos tempos da versão clássica, eu não tinha o poder nem a bagagem de observação da sociedade pra elaborar certas ironias que rodeiam minha periclitante psiquê. Lembro de quando a animação estava pra sair e várias fitas VHS que alugávamos ou comprávamos traziam o trailer com aquela belezura de imagem. Mais tarde eu soube que o estudo de paisagens e comportamento dos animais foi minucioso ao ponto de levarem animais para os estúdios a fim de serem retratados nos mínimos detalhes. Um preciosismo que só!
Mas uma imagem que nunca saiu da minha cabeça, mesmo quando eu, infantonerd juvenil em 1994, ainda não contestava os valores da tradicional família brasileira, foi a cena inicial dos animais da savana africana correndo pra reverenciar o filho do rei que acabara de nascer. Claro, pra ser democrático e representativo, era preciso criar laços e funções para diferentes espécie, se não ia ficar chato um montão de leões se engalfinhando e filosofando sobre a natureza e suas responsabilidades... Mas... caras...
Um passarinho é o conselheiro real, um babuíno é o curandeiro e padrinho do príncipe, zebras e girafas comemorando que nasceu mais uma boca pra morder seus lindos pescocinhos. Sim, O Rei Leão é uma bela mensagem sobre a vida continuar e nós seguirmos o fluxo de nossas vidas e responsabilidades, nosso lugar no mundo e quais, quais, quais... Mas, basicamente, a coisa é retratada como uma grande família, coisa que não é. Aliás, alguém mais reparou que no início, as zebras estão prestando homenagens e algum tempo depois, o tio do guri lança uma perna de zebra para as hienas? Disso que eu to falando.
O normal seria correr pra longe, já que tem mais um predador por perto. O que me fez pensar na sociedade em que vivemos. Quantos pobres defensores de ricos você conhece? Quantas personalidades você não vê por aí sendo adoradas quando demonstram total desprezo pelo público, só aparecendo pra ganhar holofotes e grana? Quantos políticos não são endeusados e até chamados de mitos por gente que faz parte do grupo que eles querem ver pelas costas, na vala ou apenas bancando seu sustento parlamentar? E por aí vai, né? Bolsominion defendendo miliciano, preto adorando celebridade racista, mulher elogiando machista... A presa babando ovo do predador. Síndrome de Estocolmo? (aquela que o sequestrado cria laços emocionais com o sequestrador). Caça e caçador se amando.
É isso. Nas novelas, é frequente alguém rico namorar o pobre com amor verdadeiro e sofreguidão e o mais incrível é que o pobre não tem interesse na grana e o rico não liga para a própria grana. Claro, é muita catarse e vontade de viver nesse mundo idealizado, mas, como diz meu pai, "o dia que o rico convidar o pobre pra sua festa, vai ser pra trabalhar". Assim, finalizo parafraseando a ideia de que uma zebra comemorar o nascimento de um leão, é porque tem pouco amor à própria vida. Mas esse é o ciclo da vida, né? Tem uns que nascem pra morder e outros que nascem pra correr. Se você vai contra sua natureza, não vai ter hakuna matata que te salve.
PS: Ainda acho graça em ver Rafiki erguer Simba em seus braços e eu gritando "NÃO JOGA O LEÃOZINHO LÁ EMBAIXO, CARA!"
PS: Não assistirei. Não vou suportar perder Mufasa em alta definição digital graficamente computadorizada. Nem Animal Planet e Discovery eu aguento ver bicho sofrer.
Danilo Gentili é condenado à prisão... Bem feito!
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| Além de ser chamado de comediante sem ser engraçado, é enganador até no sobrenome, que nada tem de gentil. |
Bem, uma notícia que gerou burburinho nas internetas recentemente foi a condenação do “comediante” Danilo Gentili a 6 meses de prisão em regime semiaberto por ato de injúria à deputada federal Maria do Rosário. A mais recente dele foi remeter de volta à deputada Maria do Rosário os papéis de uma intimação extra-judicial, em vídeo, onde usava palavras agressivas e de baixo calão para ofender a parlamentar (e de quebra fazer a alegria de seus seguidores mentalmente questionáveis, que acham que crimes como injúria e difamação são apenas desaforos de ‘quem fala o que pensa doa a quem doer’).
A defesa do rebelde sem causa alegou que ele não teve o
intuito de ofender. Vamos analisar algumas das atitudes dele só neste caso:
1) Manda
alguém enfiar algo em seu próprio corpo;
2) Alega
que tem o direito de humilhar e mandar na pessoa por ela exercer um cargo
público;
3) Sendo
que, anos antes, já tinha convocado seu público na internet a cuspir e bater
nessa pessoa na rua, além de ter feito apologia a estupro;
Isso não quer dizer necessariamente que você quer ofender?
Esse rapaz é um predador com traços que me lembram, leigamente falando,
sociopatia. É perigoso o modo como ele usa de agressões verbais e absurdo o
fato de chamar isso de humor. Não é engraçado, não é irônico, é apenas ódio e
dão microfone pra ele. O cara abusa da misoginia e praticamente sugere que seus
fãs pratiquem um feminicídio como forma de diversão. Perigoso.
A coisa é séria. Se ele é uma pessoa ruim, eu não sei, de
repente é só um artistinha chinfrim que achou seu meio de aparecer e no apagar
das câmeras não diz nada que a internet viralizasse. O famoso valentão de
internet que não tem disposição de encarar um confronto ideológico, muito menos
físico, pessoalmente com seus interlocutores. Conseguiu chamar atenção. Ele,
tal qual o Maníaco do Parque, que queria aparecer, seja pelos truques de patins
ou assassinatos. No caso de Gentili, ele não mata, apenas instiga o ódio (que
pode vir a matar, mas – ainda – não é o caso dele).
O que acontece é que Fábio Porchat (entre outros
artistas, para minha decepção) expôs uma opinião curiosa, a meu ver, sobre a
condenação. Ele achou que a atitude de Gentili foi grosseira e desnecessária,
mas que a condenação teria sido um exagero. Bem, já vi Porchat defender
diversas vezes que o humor não é uma entidade acima do bem e do mal, como
muitos de seus colegas alegam como desculpa pra ofender sem medo de punições
legais (como acontece – mais uma vez, devo frisar – com Danilão, o humorista da
razão).
Só que existe um pano quente aí e não acho que seja pra
se resguardar de uma possível situação similar no futuro. Na verdade, nem vou
fazer juízo do motivo que o levou a isso, até porque, o próprio gentalha
gentili já o interpelou. Ou seja, o ‘defendido’ não concordou de todo com a
defesa. Lembremos que essa não é nem a única vez que o gentleman convoca o ódio
através de pseuso-piadas. Quem não lembra da oferta de bananas a um internauta negro
que contestou uma postagem racista dele? Ou da doadora de leite materno
comparada a uma vaca e referências pornográficas? O menino-problema sempre lança
suas asneiras no grande ventilador da internet e não é de hoje.
No mais, gentili faz deboche, diz que prefere mesmo ser
preso a ter que ceder à “patrulha” (do chamado politicamente correto) e toda
aquela atitude rebeldão, líder da turminha do fundo da sala... Mas é isso
mesmo. Certo tá ele, porque liberdade de expressão, que ele e seus similares no
mercado tanto alegam, têm todo o direito de falar... Mas, na lei, palavras
também podem ser usadas em crimes. Estão aí previstos os crimes de calúnia, difamação,
ameaça, etc, ou seja, sem levantar um dedo, pessoas podem ser presas por
ofensas. Imagina, levantar de onde você tá e dar um tapa em quem você quiser e
achar que não pode ser punido porque não foi pra matar. Sed lex, dura lex. A
lei é dura, mas é a lei. Ele quer se fazer de mártir, herói sofridão e
guerreiro, mas é pura pose. Deve estar se borrando injuriado da vida por não
poder falar qualquer coisa sem ter que se responsabilizar por isso.
Para concluir, não acho que essa punição dê em nada. É
muito pequena, o que, por lógica histórica, deve ser convertida em alguma
bobagem tipo pagar cesta básica, assistir palestra ou serviço comunitário.
Enfim, mesmo que fosse cana dura em regime fechado, acho que ele não ia admitir
que tá pistola da vida por não poder falar o que quer sem punições. Acho que
com o tempo e a recorrência, ele deve ir mudando seus conceitos, ou nos
proporcionar sempre a alegria de ver o abuso do uso da liberdade de expressão
andar com sua amiga de longa data, a punição proporcional ao agravo. Ele que
lamba sua caceta ou aprenda a ser engraçado de verdade. Porque por enquanto, tá
só ridículo.
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quinta-feira, 14 de março de 2019
Um ano sem Marielle Franco
Era 14 de março de 2018 e eu me preparava para retomar
uma importante parte da minha vida, após alguns meses de licença do trabalho por um
braço quebrado à base de porrada por tipos suspeitos de linguajar diferenciado
da bandidagem “comum”, mas com os procedimentos bem característicos.
Era um mundo de emoções por inseguranças, anseios,
projeções, enfim, muita coisa rolando na mente esperando ansiosamente chegar o
dia seguinte, quando retomaria minha rotina (e valeu a pena aprender a não ter
mais pânico de sequer sair de casa). O braço ainda não esticava, na posição que
ficara pouco mais de um mês dentro do gesso, mas a vontade de voltar a tocar
meu cavaco era maior, então, mesmo sem força ou muita coordenação, arrisquei (veja abaixo, o vídeo que eu gravava no momento em que tudo ocorreu e a notícia se espalhou).
Toquei uma música minha referente à afirmação do cabelo
crespo natural e no mesmo momento passava o filme Ó Pai, Ó, que todos sabem, eu
amo! Então posicionei o celular me filmando com a TV ao fundo, porque achava
representativo demais falar de um traço da minha negritude enquanto passava um
filme situado em Salvador – BA e com negros protagonistas... Pois bem, gravei e
assim que passei para o PC, vi as notificações pipocando em vários grupos e a
notícia chocante era que tinham assassinado a vereadora Marielle Franco.
A minha mente, que ainda buscava entendimento para minhas
próprias vivências pessoais depois de um forte trauma, se viu em turbilhões
eternos por tentar concatenar que a tal vereadora era, não só uma política, era
amiga de amigos meus, uma pessoa com quem estive pouco tempo antes numa roda de
debates em tom de informalidade para falar sobre projetos e necessidades da
população carioca e negra, em geral. Era demais para mim.
Lembro que naquela noite, mais tarde, desabou um temporal
violento, ao que só me ocorria ser uma reação (sobre)natural a um evento tão
drástico quanto a execução brutal de uma mulher preta lésbica, de origem pobre
que finalmente desfrutava de alguma projeção para poder lutar pelos seus, pelos
nossos. Esse foi o erro dela e em momento algum me ocorreu a mínima chance de
não ter sido um crime encomendado.
Lembrei, na hora, dos versos do ilustríssimo compositor imperiano
Beto Sem Braço:
“ São Pedro abriu a porta e fez chover
Uma tromba d’água caiu
Pingos grossos
foram pêsames
Por um dos nossos que partiu
Derramaram tantas lágrimas
Foram tantas lágrimas
Muitas lágrimas
Daquela covardia que se viu “
(Música: Precipício, gravada originalmente por Jovelina
Pérola Negra)
Parecia inacreditável ter uma digna e valorosa
representante do povo socialmente mais vulnerável simplesmente retirada de nós dessa maneira estúpida,
mas o que vimos depois foi que sua voz foi amplificada por todos aqueles que
ela representava e inspirava admiração. Estamos aí, Marielle Presente e vamos levando.
Então, perguntamos de lá até sempre: ‘Quem matou Marielle Franco?’
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Vídeo anunciando tempestade pelo Whatsapp é fake
Ou melhor, nem é fake, é o que se chama de hoax, mas com alguma base distorcida ao extremo. Esse vídeo 'prevendo' uma verdadeira catástrofe climática não é verdadeiro, ele usa termos e jargões pra soar com propriedade, mas o tal especialista comete erros básicos pra quem entende de meteorologia.
Eu?! Não mesmo, eu não entendo lhufas de meteorologia, apenas sei olhar o céu e falar 'vai chover' ou, no máximo, sentir o calor extremo do Rio de Janeiro e falar 'esse calor todo, traz chuva logo depois'. Afora o vento mudando eu não sei dizer muito mal se a nuvem é de chuva ou se é aquela tipo algodão que a gente fica tentando ver figuras, mas estou divagando...
Bem, acesse aqui e veja a matéria do G1 explicando que não é possível fazer uma previsão climática com os dados que ele passa. Desde a imagem ser de um aplicativo de auxílio e não de satélite, passando por dizer que são imagens em tempo real, quando isso não é possível, até especificar a hora que vai começar, coisa que definitivamente não dá pra fazer.
De resto, insisto naquelas dicas clássicas pra se identificar uma fake news, ou, no máximo, fazer questionamentos pra desconfiar de estar sendo usado como instrumento da mentira alheia pra causar estardalhaço, chamar atenção e morrer achando que contribuiu com alguma coisa pra humanidade:
1- O 'locutor' não se identifica. Tão especialista que não pode dizer quem é e o que o fez entendido no assunto? Próximo!
2- Distorções como a da data em que a 'previsão' foi feita pra parecer que é atual.
3- Não tem uma fonte verídica de informação, tudo é jogado em tom de alarme pra gerar aquela urgência dos mais influenciáveis e assim, alcançar a viralização da mensagem.
4- Procure outra fonte de informação antes de repassar, porque nesse mundo, PESSOAS MENTEM!!! Desconfie, a internet não tem como ponto forte a garantia de honestidade em seus conteúdos compartilhados.
No mais, existe sim um alerta para uma virada de tempo e é óbvio que requer atenção, mas não é esse tsunami com queda de meteoro todo. É uma época do ano que está normalmente propícia a isso.
No geral, só assim pra ver o tornado se formando aqui:
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
Paula do BBB19 é o retrato do Brasil racista velado

A BBB Paula já falou que se surpreendeu por um cara que matou a namorada ser branco e não 'faveladão', já se surpreendeu por um colega de edição, morador de comunidade, não ser usuário de drogas (o que ela já admitiu ser, sendo branca e patricinha).
Já disse que 'deus é maior' ao afirmar ter medo de participantes dançando e falando em cultura afro e já disse que sofre racismo reverso sendo "denegrida" por ser loira. E sua irmã, aqui fora do programa, questionou as críticas 'racista ou realista?'. Pois bem... é racista mesmo, amore.
Mas do ponto de vista de como a sociedade é, onde gente próxima defende tanta coisa errada por qualquer pretexto sócio-político... Ela é uma fiel representante da sociedade bolsominion, onde se defende um deus e uma tradicional família brasileira que nunca existiu fora dos seriados estadunidenses antigos e a hipocrisia reina.
Não me surpreenderá se a referida patricinha ganhar o grande prêmio. Aqui nesse país, quem discrimina e segue o que o portuga ensinou por 500 anos leva a bolada.
Essa é uma legítima integrante da 'elite intelectual' que o ministro da educação falou que deve ter exclusividade no acesso ao ensino superior... Bem, um idiota desmiolado e amigo de miliciano pregou algo bem parecido ano passado e hoje é presidente, né? Tudo dá certo pra esses imbecis. Com caixa 2, fake news, mamadeira de piroca e lavagem de dinheiro no pacote.
E depois o babaca sou eu.
Fontes: https://extra.globo.com/tv-e-lazer/bbb/bbb-19-delegacia-de-crimes-raciais-delitos-de-intolerancia-abriu-inquerito-para-apurar-racismo-no-reality-23444024.html
https://capricho.abril.com.br/vida-real/paula-sperling-do-bbb19-e-o-triste-retrato-do-brasil-racista-e-enrustido/
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Nego tem que respeitar
Ultimamente, me vi numa situação complicada. Primeiro, há
meses, foi lançado o clipe de Me Solta, de Nego do Borel e, como tento fazer
sempre, deixei o barulho inicial passar pra assistir e tirar minhas próprias
conclusões sem ruídos de opiniões no calor do momento. Só que em 2018 aconteceu
de tudo e nunca me sentia no momento pra poder dar (UIA!) um parecer sem ter
palavra ofuscada por algum acontecimento mais urgente. É só ver que teve virada
de mesa no carnaval, copa de futebol, eleições e suas respectivas campanhas
tomando tempo e abalando relacionamentos e por aí foi...
Virando o ano, continuo assistindo eventualmente o tal
clipe pra chegar num momento como este, onde finalmente vou poder falar alguma
coisa sobre Nego do Borel e a polêmica ‘gay’ que ele se meteu... na verdade,
ele acaba de se meter em outra roubada e foi isso que me fez ver o momento mais
oportuno pra opinar publicamente.
Vejamos, quando Me Solta saiu, a galera caiu de pau em
cima dele porque ele estaria se apropriando do lugar de fala de gays e trans
pra ganhar o chamado ‘pink money’ (lucrar e se tornar mais popular às custas da
comunidade lgbt). Confesso que sobre isso não posso falar muito, não sou dono
desse lugar de fala. Apenas achei mais um personagem visando a.... er...
visibilidade que essas situações acarretam. Enfim, por ideologia ou puro oportunismo,
achei que ele só queria chamar atenção e ganhar likes, views e se manter na
boca do povo, nessa sociedade de assuntos cada vez mais velozes e efêmeros.
Ok, Pink Money, pegou mal com a galera arco-íris e eu
saquei cada lado que falou sobre. Mas também gerou muita homofobia, afinal, é
nesse clipe que ele dá o famigerado beijo (é, só beijo, porque beijo gay não
existe, existe beijo e quem tá beijando. Idoso beijando é beijo idoso? Então...).
Admito que quando finalmente assisti, não entendi porque de tanta falação, ódio
e piadinhas preconceituosas. Se ele é gay, se era uma brincadeira que ele levou
a sério ou se ele apenas foi um ator, problema dele. Um beijo que não dura 5
segundos, num contexto musical em que ele se (tra)veste de uma personagem que
se afirma querendo dançar sem intervenções e deixando claro que pode sim parar
pra ‘pegar’ alguém e voltar pra curtição. Se a tal ‘Nega da Borelli’ é um
personagem clichê, estereótipo, se já existia antes ou o escambau a quatro, não
me interessa. Tá acompanhando até aqui? Personagem gay, provável oportunismo
midiático, preconceito, homofobia, beijo entre homens e ele conseguindo ser
notícia. Ok? Ok.
Eu já tinha preparado uma defesa há tempos,
principalmente pelos artistas que participam do clipe. Numa sociedade hipócrita
que não se queixa da falta de negros na TV do país com mais negros fora da
África, ninguém fez notícia em cima do fato de que os figurantes e dançarinos
do clipe são maioria negra. Aliás, tem negros, gordos, sei lá, possivelmente
gays, enfim, vários tipo, estando meio que na cara que ou são moradores da
própria comunidade onde se passa o clipe, ou pelo menos, são artistas de
companhias e grupos de classes sociais menos abastadas, ou seja, gerou emprego
pra preto e pobre e isso conta ponto a favor do cara...
Como Seu Sandoval Quaresma (do saudoso Brandão Filho, em
A Escolinha do Professor Raimundo), entre erros e acertos, tudo indicava que
pelo menos midiaticamente, Nego do Borel ia ganhar um 10, por saber chamar
atenção nos tempos em que a internet dispersa pensamentos e por empregar preto
pobre na mesma mídia que enxerta brancos em todo canto de funk, hip hop e
samba/pagode. Popularesco, representativo e empreendedor. Parabéns, certo?
Errado! O Sandoval pretim acertou antes, com alguma polêmica, certo, mas no
último sábado deu um vacilo que jogou bem contra a questão com lgbts.
A travesti Luisa Marilac - a dos 'bons drink', famosa na internet pelo
meme/bordão ‘se isso é tá na pior, porran!’, foi lá no instagram de Nego do
Borel elogia-lo por uma foto. Com emotis, carinhas e elogios, ela demonstrava
seu carinho e admiração de fã do funkeiro. E o que ele faz? Responde com ironia
transfóbica, se referindo à Luísa como homem, numa óbvia reação ‘machinho da
mamãe’, que não aceita ser elogiado por um gay/trans. Ele acjhou o quê? Que se
só respondesse ‘obrigado pelo carinho’ estaria se queimando? Logo ele, a Nega
da Borelli daquele clipe que comecei falando lá no alto do texto? Pô, Nego!
Vacilo, hein!
Já li recentemente que Luísa perdeu trabalho por causa
da ‘treta’, pois o anunciante não gosta de ‘barraco’, Nego já veio a público se
desculpar (como de praxe, pra apagar incêndios com a opinião pública, fãs,
patrocinadores e contratantes) e a coisa deve ficar por isso mesmo. Luísa,
aliás, mandou um papo reto, sugeriu que o artista (o qual ela deixou de seguir
nas redes sociais) amadureça e aprenda a respeitar o próximo. E não tá errada
não, hein! A pessoa conseguiu deixar de se prostituir pra viver como digital
influencer (é assim quem chama hoje?) e isso tudo sendo quem é e vem um meninão
fazer piada com uma parte da personalidade que compõe aquele ser humano?
Faça-me o favor, né?
Como eu disse, Sandoval Quaresma era aquele personagem que ia respondendo tudo bem até a hora que oe professor lançava a pergunta final 'pra ganhar o 10' e ele inventava um monte de baboseira (que, no caso dele, era a graça do personagem) e acabava, com muito custo, ganhando um 4, ou um 6... Mas no caso do nosso querido Nego Quaresma, essa última dele foi 0, tão grande quanto o tamanco que ele usou no clipe de Me Solta. Enquanto isso, que Luísa não deixe esse mal-estar lhe derrubar o psicológico, que disseram que ela estava na pior, mas se isso é tá na pior...
Tem que fazer igual menina Maísa Silva. Silvio Santos perguntou à jovem atriz se ela sabia o que é uma 'bicha' e a resposta da moça foi simplesmente: "É uma designação muito antiga e inadequada para homossexuais masculinos". Aprendeu, Nego, como é que se faz?
Porran, Nego tem que se desconstruir!
Fontes:
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Sobre representatividade: "Ma, Saga, naquele tempo era assim..."
Há quase 10 anos que eu assisto TV fechada e tenho várias análises a respeito desse universo. Desde as mudanças socioculturais que influenciaram em seu conteúdo (como o tipo de programas, aumento na dublagem, visando o público 'Classe C emergente', o crescimento de campanhas publicitárias onde era praticamente sobre a própria programação (trava-língua essa, hein) e se tornou quase o mesmo merchan da TV aberta, etc...). E a observação/divagação da vez é sobre representatividade, ou melhor, a representatividade ao longo dos tempos.
Porque é uma situação recorrente: A gente critica alguma produção e vem alguém de lá pra dizer "ain, mas não dá pra fazer a análise de hoje com algo do passado". Olha, já adianto que dá sim, porque questões socioculturais e políticas não são acontecimentos isolados. São parte de um processo que envolve a própria sociedade.
"Saga, você tá sendo muito técnico, fala em português".
Ok, falando em português, tem aquela que o português olha uma casca de banana e... BRINQS!
Vamos lá, trocando em miúdos: O que muitos acham que é apenas lembrança, como um capítulo de um livro, no frigir dos ovos, é uma parte desse imenso filme que se chama a história do mundo. E vou provar isso com um rápido estudo de casos informal (e diria tão mal organizado quanto bem intencionado - Rá!).
A primeira e principal série citada nesses casos é Friends. Vemos meia dúzia de jovens neuróticos e bonitos, brancos toda vida, vivendo o cotidiano agitado e sexy da Nova York de meados dos anos de 1990. De vez em quando, brotava um negro como segurança, figurante, recepcionista, etc. Às vezes. Até que em duas temporadas distintas, há participações de negros com algo mais do que papel de escada/figuração dos protagonistas brancos classe média. Estou falando de Gabrielle Union e Aisha Tyler.
O curioso é que ambas as atrizes foram escaladas para papéis de interesses amorosos de Ross e Joey simultaneamente. Union é uma nova vizinha objeto de uma aposta na disputa por sair com ela e Tyler, é uma doutora renomada que inicialmente sai com Joey, mas acaba se interessando por Ross, por terem os mesmos interesses intelectuais. Mas a pegadinha é que ela se torna tão volúvel quando assumem o relacionamento, que ela volta com um ex antigo na frente de Ross. Representou, né? (leia este último trecho com muita ironia).
Enfim, aí, a galera vem com aquele papo tão ou mais chapa-branca que a própria série, de que naqueles tempos era diferente, não se via a representatividade como hoje... É? Friends foi de 1994 a 2004. Eu imagino que a audiência jovem de hoje, na casa dos 20 anos, possa até achar que Friends é muito antiga, do tempo dos seus pais, mas pra quem tá beirando os 40, que nem eu, ela soa datada, mas não tão antiga. E durou 10 anos. DEZ ANOS com participações mínimas de negros. Além das duas moças que chegaram perto do elenco principal com alguma relação, foram espalhados negros pelas cozinhas, portarias, recepções ou naqueles papéis condescendentes, tipo o chefe durão, a diretora mandona e só. Muitos nem nomes tinham, apenas 'segurança 2', 'motorista de taxi 1'.
"Ain, Saga, ainda não me convenci. Friends é de outra época.". Ok, você ainda pode lembrar do nacional Sai de Baixo, que durou de 1996 a 2002. Sem negros no elenco principal e nas muitas participações, foram escassos. Lembro muito nitidamente, assim de primeira, do Tony Tornado, como um rei africano (pegou a visão?).
Vamos pra outro exemplo de grande sucesso estadunidense e internacional: How I Met Your Mother (HIMYM). Cinco protagonistas, ou melhor, um protagonista e seus amigos por 10 anos buscando a tal mãe dos filhos dele (que mal aparece e a gente descobre que morreu - spoiller!?). Essa é conhecida por alguns como uma versão mais descolada de Friends (modelos bem sucedidos na mídia fazem escola, isso é inegável, até porque, 'um bar é melhor do que uma cafeteria').
Mas o curioso dessa série não é a falta de representatividade, mas a representatividade um tanto forçada que lançaram. Novamente, toda sorte de brancos no elenco principal, recorrente, participações especiais e figurações, até que você chega a uma participação negra com alguma relevância na série: O meio-irmão de Barney, James. Ele é gay e negro e isso, por si só, já seria um sinal dos novos tempos, já que a série nasceu depois (ela nasceu em 2005, um ano após Friends encerrar e terminou em 2014).
Tipo, não tinham onde enfiar um personagem com importância moderada pra ser representativo e lançaram, num personagem só, duas 'minorias' da população de lá. Estranho ele não ter alguma ascendência asiática, ser vegano, hipster e nerd. Não é que não possa haver negros gays no meio da série, mas neste caso, ficou bem forçado, visto que nenhum outro personagem próximo do elenco principal é negro ou gay. Lembra que Chandler, de Friends, em tese, seria gay numa revisão de roteiro antes da definitiva (o que soa esquisito, já que foram 10 anos de piadas homofóbicas de Ross sobre sua ex com a companheira dela e com o próprio Chandler). Mas estamos falando de HIMYM.
Aliás, falei sobre a representatividade forçada no irmão de Barney e lembrei de outras duas séries. A primeira é Young and Hungry (Jovem e Gourmet, no Brasil). A série foi de 2014 a 2018, bem mais atual que todas aqui e a representatividade nela era um gay asiático afetado (vou citar já já outro exemplo do estereótipo), a empregada do mocinho branco rico, Yolanda, uma mulher preta de gênio explosivo e a melhor amiga da protagonista branca, que era de ascendência latina. Representou? Não. É só olhar meia hora da série que além de ser um amontoado de clichês de comédias românticas/sitcoms, o roteiro é pífio e os serviçais estereotipados só aparecem pra fazerem suas piadas preconceituosas (naquela ideia de que o alvo fazendo piada consigo mesmo não soaria tão agressivo). Piada pra branco rir.
Falei que ia citar outro asiático com trejeitos afeminados e com ares de estilo alternativo, mas citarei dois. Two Broke Girls (2011-2017), tinha lá o gerente da lanchonete onde as protagonistas trabalhavam, Han. E em Superstore, temos Mateo. A série começou em 2015 e ainda está sendo produzida. Bem atual, né? E aí, ainda acha que de Friends pra cá tem tanto tempo assim, quando se considera o passar dos anos em sequência e não empacotado num box de dvd empoeirado apoiando o celular passando Netflix?
Não é que não possa ter esse tipo de personagem, mas quero mostrar aqui que a representatividade, muitas vezes, é só uma muleta pra série passar por inclusiva e agregadora, mas estabelece apenas um enxerto e não uma situação que parecesse de fato natural naquele contexto. Mas não acabou, ainda, deixei a mais chamativa do momento por último, apesar de que tem muita coisa que já foi fala aqui, mas você já vai entender o porquê - que foi anunciada lá no começo.
The Big Bang Theory, finalmente, vai acabar. Graças! A série até tem lá seus momentos de risos, boas sacadas do universo nerd, mas é uma porcaria de um bullying visto pelo lado de dentro da janela, né? Convenhamos, a protagonista mesmo é a Penny, que olha de fora e faz o deboche com aquele mundo recluso da cultura pop/nerd. E com o tempo, a série foi perdendo o pouco apelo original, da pegada científica e tals pra ser só um monte de piadas pejorativas contadas pelos próprios alvos delas (Stuart, argh!).
Mas a situação da comédia (trocadilho bom, hein!) é que seguiu o modelo Friends de ser. Deixe tudo de lado e dê foco nas relações. E é aquilo, virou uma grande terapia de casais brancos, piadas preconceituosas, pais desajustados, mother issues, um montão de contradições de roteiro, estereótipos de pessoas socialmente arredias e a única mulher do elenco original que não tem um sobrenome até que se casa com o protagonista josé mayer dos nerds e adota seu sobrenome.
Bem, a série é do Chuck Lorre e você já deve ter reparado que suas obras sempre começam com meia dúzia de episódios com uma ideia minimamente original e tudo descamba para as piadas de sexo, bebidas, drogas, amarguras familiares e o fatal momento da lição de amizade ao fim do episódio. Sério, assista a qualquer coisa de Two and a Half Men, Mom, Mike & Molly, além da própria TBBT. Que, aliás, voltando, ao tema, conseguiu seguir tanto a fórmula de Friends que ou você admite que esse papo de outra época não cola ou estamos ainda em 1994, quando tudo era, supostamente, diferente.
Veja, os negros da série são tipo Raj (ou o paquistanês Timmy, de Rules of Engagement - 2007 - 2013). Só aparecem pra servirem de piada racista naquela fórmula de tentar soar menos escroto se o alvo é seu amigo. É aquele bullying que tenta te convencer que as risadas são COM você e não DE você. E porque mais a chefe dos protagonistas, negra, aparece? Sheldon, por exemplo, que já deixou de ser o antissocial pra ser apenas um cara arrogante, faz comentários racistas o tempo todo perto dela.
Olha que 'legal', numa série que conseguiu repetir a mesma atriz negra em três personagens recepcionistas/enfermeira diferentes ao longo da série, dá a outra um personagem fixo em um cargo de chefia apenas para ela ser alvo de chacota. Ou seja, o protagonista está fazendo uma piada babaca, a plateia gravada está rindo pra te induzir a rir dela. Repare, que o nerd é alvo de preconceito, a série reforça esse preconceito e outros.
Enfim, é isso, e olha que não citei muitas outras séries com pouca ou nenhuma representatividade (lembrando que negros estarem presentes não significa representatividade, muitas vezes estamos representando o racismo reforçado). Muitas dessas série internacionais são feitas pelo branco, visto que nos EUAses as etnias são bem definidas, diferente da miscigenação que aconteceu aqui no brasil. Isso explica que lá tenha o público alvo branco e o público alvo preto, latino, asiático, etc. Agora não explica aqui no Brasil, onde a maioria da população é preta/parda e não se vê na tela. Assista Toma Lá Dá Cá, Pé na Cova, o já citado Sai de Baixo, novelas em geral, programas de TV, etc...
Por lá, veja também Mad About You, Blossom, Seinfeld (que inclusive tem um episódio onde George resolve provar que não é racista e tenta fazer amizade com todos os negros que já participaram da série e leva um detetizador para almoçar com seu chefe também negro), Supernatural, etc... E repare que citei séries de 1994 até hoje. Séries duraram 10 anos ou mais, que atravessaram épocas e nunca tiveram a sacada de falar 'ei, vamos fazer algo novo e incluir tipos diferentes do branco médio'. Até acontece no modelo minoria, tipo Donald Glover em Community ou Iris West em Flash, bem inseridos no universo branco, mas se falarem que é de uma época quando praticamente não soava errado, Um Maluco no Pedaço (Will Smith) é de 1992 e The Cosby Show é de uma década anterior. Enquanto aqui o negro só aparece em alguma quantidade se a novela tratar de escravidão, porque até favela é branca na telinha.
Então, quando vemos o negro de forma periférica em obras que representam uma sociedade que ele ergueu à força pro branco viver, sim, isso incomoda. Já cansamos desse lugar sem background, sem vida, sem família, sem romance, enfim, sem ser visto como um cidadão completo e não o empregado pra transar e abrir portas e servir café.
Porque é uma situação recorrente: A gente critica alguma produção e vem alguém de lá pra dizer "ain, mas não dá pra fazer a análise de hoje com algo do passado". Olha, já adianto que dá sim, porque questões socioculturais e políticas não são acontecimentos isolados. São parte de um processo que envolve a própria sociedade.
"Saga, você tá sendo muito técnico, fala em português".
Ok, falando em português, tem aquela que o português olha uma casca de banana e... BRINQS!
Vamos lá, trocando em miúdos: O que muitos acham que é apenas lembrança, como um capítulo de um livro, no frigir dos ovos, é uma parte desse imenso filme que se chama a história do mundo. E vou provar isso com um rápido estudo de casos informal (e diria tão mal organizado quanto bem intencionado - Rá!).
A primeira e principal série citada nesses casos é Friends. Vemos meia dúzia de jovens neuróticos e bonitos, brancos toda vida, vivendo o cotidiano agitado e sexy da Nova York de meados dos anos de 1990. De vez em quando, brotava um negro como segurança, figurante, recepcionista, etc. Às vezes. Até que em duas temporadas distintas, há participações de negros com algo mais do que papel de escada/figuração dos protagonistas brancos classe média. Estou falando de Gabrielle Union e Aisha Tyler.O curioso é que ambas as atrizes foram escaladas para papéis de interesses amorosos de Ross e Joey simultaneamente. Union é uma nova vizinha objeto de uma aposta na disputa por sair com ela e Tyler, é uma doutora renomada que inicialmente sai com Joey, mas acaba se interessando por Ross, por terem os mesmos interesses intelectuais. Mas a pegadinha é que ela se torna tão volúvel quando assumem o relacionamento, que ela volta com um ex antigo na frente de Ross. Representou, né? (leia este último trecho com muita ironia).
Enfim, aí, a galera vem com aquele papo tão ou mais chapa-branca que a própria série, de que naqueles tempos era diferente, não se via a representatividade como hoje... É? Friends foi de 1994 a 2004. Eu imagino que a audiência jovem de hoje, na casa dos 20 anos, possa até achar que Friends é muito antiga, do tempo dos seus pais, mas pra quem tá beirando os 40, que nem eu, ela soa datada, mas não tão antiga. E durou 10 anos. DEZ ANOS com participações mínimas de negros. Além das duas moças que chegaram perto do elenco principal com alguma relação, foram espalhados negros pelas cozinhas, portarias, recepções ou naqueles papéis condescendentes, tipo o chefe durão, a diretora mandona e só. Muitos nem nomes tinham, apenas 'segurança 2', 'motorista de taxi 1'.
"Ain, Saga, ainda não me convenci. Friends é de outra época.". Ok, você ainda pode lembrar do nacional Sai de Baixo, que durou de 1996 a 2002. Sem negros no elenco principal e nas muitas participações, foram escassos. Lembro muito nitidamente, assim de primeira, do Tony Tornado, como um rei africano (pegou a visão?).
Vamos pra outro exemplo de grande sucesso estadunidense e internacional: How I Met Your Mother (HIMYM). Cinco protagonistas, ou melhor, um protagonista e seus amigos por 10 anos buscando a tal mãe dos filhos dele (que mal aparece e a gente descobre que morreu - spoiller!?). Essa é conhecida por alguns como uma versão mais descolada de Friends (modelos bem sucedidos na mídia fazem escola, isso é inegável, até porque, 'um bar é melhor do que uma cafeteria').Mas o curioso dessa série não é a falta de representatividade, mas a representatividade um tanto forçada que lançaram. Novamente, toda sorte de brancos no elenco principal, recorrente, participações especiais e figurações, até que você chega a uma participação negra com alguma relevância na série: O meio-irmão de Barney, James. Ele é gay e negro e isso, por si só, já seria um sinal dos novos tempos, já que a série nasceu depois (ela nasceu em 2005, um ano após Friends encerrar e terminou em 2014).
Tipo, não tinham onde enfiar um personagem com importância moderada pra ser representativo e lançaram, num personagem só, duas 'minorias' da população de lá. Estranho ele não ter alguma ascendência asiática, ser vegano, hipster e nerd. Não é que não possa haver negros gays no meio da série, mas neste caso, ficou bem forçado, visto que nenhum outro personagem próximo do elenco principal é negro ou gay. Lembra que Chandler, de Friends, em tese, seria gay numa revisão de roteiro antes da definitiva (o que soa esquisito, já que foram 10 anos de piadas homofóbicas de Ross sobre sua ex com a companheira dela e com o próprio Chandler). Mas estamos falando de HIMYM.
Aliás, falei sobre a representatividade forçada no irmão de Barney e lembrei de outras duas séries. A primeira é Young and Hungry (Jovem e Gourmet, no Brasil). A série foi de 2014 a 2018, bem mais atual que todas aqui e a representatividade nela era um gay asiático afetado (vou citar já já outro exemplo do estereótipo), a empregada do mocinho branco rico, Yolanda, uma mulher preta de gênio explosivo e a melhor amiga da protagonista branca, que era de ascendência latina. Representou? Não. É só olhar meia hora da série que além de ser um amontoado de clichês de comédias românticas/sitcoms, o roteiro é pífio e os serviçais estereotipados só aparecem pra fazerem suas piadas preconceituosas (naquela ideia de que o alvo fazendo piada consigo mesmo não soaria tão agressivo). Piada pra branco rir.
Falei que ia citar outro asiático com trejeitos afeminados e com ares de estilo alternativo, mas citarei dois. Two Broke Girls (2011-2017), tinha lá o gerente da lanchonete onde as protagonistas trabalhavam, Han. E em Superstore, temos Mateo. A série começou em 2015 e ainda está sendo produzida. Bem atual, né? E aí, ainda acha que de Friends pra cá tem tanto tempo assim, quando se considera o passar dos anos em sequência e não empacotado num box de dvd empoeirado apoiando o celular passando Netflix?Não é que não possa ter esse tipo de personagem, mas quero mostrar aqui que a representatividade, muitas vezes, é só uma muleta pra série passar por inclusiva e agregadora, mas estabelece apenas um enxerto e não uma situação que parecesse de fato natural naquele contexto. Mas não acabou, ainda, deixei a mais chamativa do momento por último, apesar de que tem muita coisa que já foi fala aqui, mas você já vai entender o porquê - que foi anunciada lá no começo.
The Big Bang Theory, finalmente, vai acabar. Graças! A série até tem lá seus momentos de risos, boas sacadas do universo nerd, mas é uma porcaria de um bullying visto pelo lado de dentro da janela, né? Convenhamos, a protagonista mesmo é a Penny, que olha de fora e faz o deboche com aquele mundo recluso da cultura pop/nerd. E com o tempo, a série foi perdendo o pouco apelo original, da pegada científica e tals pra ser só um monte de piadas pejorativas contadas pelos próprios alvos delas (Stuart, argh!).
Mas a situação da comédia (trocadilho bom, hein!) é que seguiu o modelo Friends de ser. Deixe tudo de lado e dê foco nas relações. E é aquilo, virou uma grande terapia de casais brancos, piadas preconceituosas, pais desajustados, mother issues, um montão de contradições de roteiro, estereótipos de pessoas socialmente arredias e a única mulher do elenco original que não tem um sobrenome até que se casa com o protagonista josé mayer dos nerds e adota seu sobrenome.Bem, a série é do Chuck Lorre e você já deve ter reparado que suas obras sempre começam com meia dúzia de episódios com uma ideia minimamente original e tudo descamba para as piadas de sexo, bebidas, drogas, amarguras familiares e o fatal momento da lição de amizade ao fim do episódio. Sério, assista a qualquer coisa de Two and a Half Men, Mom, Mike & Molly, além da própria TBBT. Que, aliás, voltando, ao tema, conseguiu seguir tanto a fórmula de Friends que ou você admite que esse papo de outra época não cola ou estamos ainda em 1994, quando tudo era, supostamente, diferente.
Veja, os negros da série são tipo Raj (ou o paquistanês Timmy, de Rules of Engagement - 2007 - 2013). Só aparecem pra servirem de piada racista naquela fórmula de tentar soar menos escroto se o alvo é seu amigo. É aquele bullying que tenta te convencer que as risadas são COM você e não DE você. E porque mais a chefe dos protagonistas, negra, aparece? Sheldon, por exemplo, que já deixou de ser o antissocial pra ser apenas um cara arrogante, faz comentários racistas o tempo todo perto dela.
Olha que 'legal', numa série que conseguiu repetir a mesma atriz negra em três personagens recepcionistas/enfermeira diferentes ao longo da série, dá a outra um personagem fixo em um cargo de chefia apenas para ela ser alvo de chacota. Ou seja, o protagonista está fazendo uma piada babaca, a plateia gravada está rindo pra te induzir a rir dela. Repare, que o nerd é alvo de preconceito, a série reforça esse preconceito e outros.
Enfim, é isso, e olha que não citei muitas outras séries com pouca ou nenhuma representatividade (lembrando que negros estarem presentes não significa representatividade, muitas vezes estamos representando o racismo reforçado). Muitas dessas série internacionais são feitas pelo branco, visto que nos EUAses as etnias são bem definidas, diferente da miscigenação que aconteceu aqui no brasil. Isso explica que lá tenha o público alvo branco e o público alvo preto, latino, asiático, etc. Agora não explica aqui no Brasil, onde a maioria da população é preta/parda e não se vê na tela. Assista Toma Lá Dá Cá, Pé na Cova, o já citado Sai de Baixo, novelas em geral, programas de TV, etc...
Por lá, veja também Mad About You, Blossom, Seinfeld (que inclusive tem um episódio onde George resolve provar que não é racista e tenta fazer amizade com todos os negros que já participaram da série e leva um detetizador para almoçar com seu chefe também negro), Supernatural, etc... E repare que citei séries de 1994 até hoje. Séries duraram 10 anos ou mais, que atravessaram épocas e nunca tiveram a sacada de falar 'ei, vamos fazer algo novo e incluir tipos diferentes do branco médio'. Até acontece no modelo minoria, tipo Donald Glover em Community ou Iris West em Flash, bem inseridos no universo branco, mas se falarem que é de uma época quando praticamente não soava errado, Um Maluco no Pedaço (Will Smith) é de 1992 e The Cosby Show é de uma década anterior. Enquanto aqui o negro só aparece em alguma quantidade se a novela tratar de escravidão, porque até favela é branca na telinha.
Então, quando vemos o negro de forma periférica em obras que representam uma sociedade que ele ergueu à força pro branco viver, sim, isso incomoda. Já cansamos desse lugar sem background, sem vida, sem família, sem romance, enfim, sem ser visto como um cidadão completo e não o empregado pra transar e abrir portas e servir café.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
The Big Bang Theory envelhece mal e passou muito da hora de acabar
The Big Bang Theory é um marco na TV mundial. Ponto. Mas está muito longe de ser algo perfeito, nem mesmo irrepreensível.
O primeiro choque que tive, foi quando a série, ainda em suas primeiras temporadas, me foi apresentada como 'a sua cara', nerd que sou, desde os tempos em que isso era uma droga, um mundo paralelo dos anti-sociais e adoradores de culturas fora do padrão pop da sociedade.
Pois bem, fui assistir e gostei de muita coisa ali. Ok, teve muito clichê de tevê estadunidense, como as idas e vindas irritantes do casal principal, o integrante da galera que não é branco e vira alvo de piadas racistas, os exageros das características mais marcantes de cada personagem...
Sério, a falta de sentido no casal Penny-Leonard me fez pegar implicância e torcer pra que ficassem separados, era muito mais interessante pra mim que fossem um ex-casal mal resolvido, porém que se ama do que aquela rotina Ted-Robin, de How I Met Your Mother, ou ainda o primordial 'Ross-Rachel', de Friends. Detesto do fundo do coração essa 'muleta' de roteiro que é o casal que fica se desencontrando.
A caricaturização dos personagens também não me apetece. A partir do momento que se viu o sucesso da falta de traquejo social do Sheldon, ele passou a falar 'bazinga' até pra dar bom dia. As batidas na porta deixaram de ser um TOC pra ser uma mania. E nem vou falar em como ele perde toda a coerência quando o roteiro manda que seja um retardado mental diante de piadas dos amigos ou faz as vezes de um 'vilão' arrogante, sendo desprezado pelos amigos. Hoje, confortável e meio de saco cheio, Jim Parsons apenas interpreta ele mesmo.
Note como Sheldon deixou de ser o frio, calculista, porém irritantemente brilhante amigo da ponta do sofá para um afetado vizinho chato e cheio de manias. Há quanto tempo você notou que os próprios atores já estão com cara de 'velhinhos', do tipo, cansados dos papéis, mas ainda querendo manter o contracheque. Parsons que foi o responsável pelo anúncio do fim da série. Imagine se ele não se cansa da coisa, quanto tempo mais iam explorar o público cativo em nome de uma série que foi inovadora e fez seu nome há 10 anos, e hoje é apenas rentável.
Por fim, não posso deixar de dizer que tudo passa (até Jim Parsons - Rá - horrível essa) e toda série tem lá seu momento de pouca inspiração (menos Seinfeld, a única comédia que não apelou para romances e caricaturas que desviassem do foco), mas o que me incomoda mesmo em TBBT é justamente o que muitos acham que é seu charme e até seu mote.
Explico: Não é uma série nerd. Juntaram um monte de clichês do senso comum e forçaram a amizade. É um Friends composto por uma dúzia de 'Ross' e algumas 'Rachel'. Não bastava eles serem cientistas, ainda são aficcionados por cultura pop, amam Star Trek, Star Wars e todas as séries de ficção científica e metade do tempo não sabiam como se portar em público. Ou seja, é como assistir um filme dos anos 80/90 composto apenas pelo núcleo de humor. Mas não é nerd. Ou melhor, é nerd, mas não é um elogio, é condescendente.
Basicamente, a série trabalha com o mundo nerd mas pelo prisma de que não é nerd. Vivemos num momento da sociedade que não existe mais o nerd. Porque, por exemplo, aquele tipo ligado em tecnologia, filmes e séries, quadrinhos e ciências, que era o nerd, hoje é qualquer um. Todo mundo fica ligado no novo celular/TV/PC, etc... todo mundo tem e não tem traquejo social, devido aos facebooks, instagrams e whatsapps da vida... tendeu? todo mundo hoje tem as características que apontavam facilmente para os nerds de 20, 30 anos atrás.
Então, a série mostra um mundo pouco conhecido e injustiçado, certo? ERRADO! A série faz piadas frequentemente com a falta de vida social e mostra os protagonistas como pobres coitados fora do mundo real, vivendo como se acreditassem nas histórias que assistem e leem. Toda hora sobram piadas ridicularizando o nerd, como se fosse o máximo viver da cultura padrão pop. Community era muito mais nerd na essência (lembra do episódio feito em CGI ou aquele que a história se passa como um jogo de 32 bits?). TBBT é apenas mais um Friends, aquela série que rende, dura muito, poderia ter acabado como uma pérola há mais de 5 anos, mas o dinheiro que dá é maior que a dignidade artística e o mundo é de quem paga boletos em dia.
Não foi de todo ruim, mas não acho essa pressão toda de boa. É uma série ok, que foi se modificando conforme o mercado respondia, como qualquer produto, deu pra deixar seu nome na história televisiva gringa, mas não se mostrou o que tentou vender. Mas como fazer série ainda não mata, então o mundo permite essas coisas do marketing. O desgaste depois que apelou-se pra fórmula mais rentável é natural. Quem não lembra de Smal(hação)lville e suas intermináveis temporadas que iam a lugar algum? Ou a atual Supernatural que é mais velha que parte de sua audiência? Mais do mesmo. Só quem lucra com isso que tá amando (o dinheiro, não a produção).
Enfim, é coisa do Chuck Lorre também, né? Ele é mestre em fazer produções de gosto duvidoso que não mantém a coerência nem na primeira temporada. Vamos aos exemplos? Além de TBBT, são dele Mike & Molly, Mom e a supervalorizada Two and a Half Men. O que têm em comum? São produções com um mote original e criativo, mas que parece já planejado pra virar um amontoado de piadas repetitivas e recicladas assim que cham a atenção do público.
Se você, como eu, já assistiu regularmente a todas as séries citadas, já percebeu a repetição de piadas sobre sexo, problemas de relacionamento com os pais (e entre os pais), bebedeiras e momentos sincerão seguidos de vômito, ressaca, gordofobia, exclusão e estereótipos de negros e gays tarados, além de, porque não, peidos. Até alguns atores circulam nos mais diversos papéis, mostrando que nem os roteiros e nem os testes de atores variam muito. É como assistir à obra de Adam Sandler. Mais do mesmo, que às vezes nos pega desprevenidos e acabamos dando uma risada ou outra.
Vá em paz, The Big Bang Theory! Os atores já estão murchando pela idade, não tá convencendo mais como um grupo de amigos que não se desgruda. Ainda agem como os originais de 12 anos atrás, quando Jim Parsons já tinha uns 40 anos no papel de um cientista de 27. Sheldon casando e ainda usando camisas sobrepostas de super heróis é estranho como Roberto Bolaños fazendo o Chaves com mais de 60. Chega! Tem uma hora que tem que parar e partir pra outra.
Os roteiros ficam dando voltas, toda hora as situações são recicladas com atores diferentes (as já citadas idas e vindas, as situações de relacionamentos, empregos, trewta com os pais, etc), além das incongruências, como Sheldon viver falando que seu pai era um bronco bêbado e mal educado, ao passo que na série Young Sheldon ele é apenas um pai dedicado que está aprendendo a lidar com o filho gênio. Mas sobre isso eu falo mais em um outro texto.
Ps: Gosto muito do modo como Raj evoluiu no momento em que percebeu que vivia numa relação tóxica com Howard. E o próprio Howard, evoluindo e deixando de ser o filhinho da mamãe, apesar de isso ter tirado um pouco de sua graça, mas é mais coisa da série do que do personagem especificamente. E Leonard, você não sabia nem falar com a Penny e depois passou a ser disputado por Penny, Pryia e ainda pegando outras no processo... Sai dessa, você não é o Zé Mayer. Rá!
Ps²: Chuck Lorre não deve conhecer muitos negros para fazerem pontas em seus dramas de gente branca. E o Raj, então, coitado...
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