Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Comedy Central não admite negros em seu elenco fixo?

 


Vamos falar de comédia. A comédia, assim como o rock, quando chega no Brasil, vira consumo e execução do branco classe média. Talvez por isso tanto comediante se sinta ofendido ao ser criticado por piadas com negros, gays, mulheres, nordestinos, mendigos e pobres de uma maneira geral, afinal, o que eles não podem fazer, né? Não estão acima da lei, do bem e do mal?

 

Aí, observo o canal Comedy Central e lembro que parei de assistir há uns 10 anos por só ver muito branco fazendo piada com pobre, claramente um universo que não conheciam, apenas reforçavam estereótipos e ponto. Mais crianção da turma do fundão do que engraçado. Me afastei. Sem contar a limitação criativa a story telling de sexo, drogas e uma pobreza que não viveram, mas como muitos estão com grana hoje, aí, é aquela forçada de superação pessoal que só a Marimar pra dar um tento. Falam do que podem, né, gente?

 

Aí, voltei a assistir, zapeando, por que reprisam séries negras (Will Smith, Michael Kyle e Chris) e até um especial de stand up de temática Black Power... e só. Se não for como visita, ou reprise gringa, não tem representatividade no canal. Veja os programas de elenco fixo as culpas do Cabral e da Carlota. Parece pré-requisito: Olha, tem que ser branco, hétero e cis. E não é por falta de comediantes negros não, hein. Como confirma o próprio especial Black (embora uns e outros ali e na pista nem se lembrem que são pretos).

 

Ah, eles estrearam, há pouco tempo, uma espécie de mesa redonda, onde tem um negro: O ex-jogador Vampeta. Mas essa participação não conta bem como representatividade, porque além de nunca ter abordado o assunto, o dito cujo está ali por ser ex-jogador e não um comediante, né?

 

Deveriam mudar o nome pra So White Comedy Central, ou Comedy So White.

Depois não vai estranhar quando um fizer piada racista e outros defenderem dizendo que ele não foi, porque em seu convívio, isso é super normal.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Scarlett Johansson e a polêmica da representatividade


Scarlett Johansson teria dito, recentemente, que a arte deveria ser livre e que limitar papéis em nome da diversidade seria privar o artista da liberdade de interpretar quem ou o que quer que fosse. Ou algo que o valha...

Já digo, de antemão, que ela não tá errada não. A arte, realmente, é algo subjetivo e sensorial que não deveria ter um filtro ou um manual pra ser exercida ou recebida. Mas, aí, temos um grande filtro – ou canal, como prefiro me referir – chamado humanidade. E não to falando bonito do conceito filosófico de humanidade, embora esbarre nisso também. Estou falando do ser humano em si, do fato de que ideias, sentimentos e tudo mais no campo do pensamento, passe pela cabeça humana.

Veja bem, sou fã da jovem Johansson desde sua entrada no Universo Cinematográfico Marvel (e de sua praticamente desconhecida carreira musical, sim, ela canta e bem) pois achei que ela foi uma importante adição enquanto atriz e mulher de grande valor num mundo e numa indústria essencialmente machista. Só por isso, vou acreditar – salvo se houver confirmação contrária depois – que suas palavras foram distorcidas pela edição da revista à qual concedeu entrevista sobre o assunto.

“E qual é o assunto, Saga?”, calma que eu vou falar. Acontece que há exemplo da oportunidade recente em que Scarlett aceitou – não sem grande polêmica – viver uma personagem japonesa (Ghost in the Shell), ela se viu, de novo, em meio a um burburinho pesado ao ser cogitada para viver um homem trans em outro filme. E foi aí que ativistas e internautas curiosos foram pra cima da bela branca, magra, mulher cis que é a formosa atriz.

Ao que tudo indica, ela pode sim, ter sido manipulada para que a tal revista gerasse audiência em cima do histórico de ‘não representatividade’ da moça. Oras, parece lógico que nesse mundo capitalista onde se apela pra qualquer estratégia pra se levar mais e mais dinheiro em tudo, eles tenham maliciosamente falado “chama aquela menina que já deu o que falar interpretando um robô deprê japonês com questões existenciais e pergunta o que ela acha de não poder fazer um transgênero também”.

Ela aceitou, eles – provavelmente – escolheram a forma mais ácida de citar as falas da gatinha e – ZAZ – temos a matéria e uma enxurrada de cliques e views na nossa página. Até porque, seja por exame de consciência, apagamento de incêndio ou só pra limpar a barra mesmo, a própria atriz falou que seu mundo ideal é feito de arte livre a todos, seja pessoa ou árvore que você interpreta. Mas que ela está ciente que uma mulher cisgênero branca – que é o caso dela – tem muito mais oportunidades do que uma japonesa – em Hollywood – ou uma pessoa trans.

Em tempo, não é o caso de se comparar com mudanças de gênero ou etnia de personagens antigos. Falo isso porque sempre tem aquele idiota desinformado que questiona sem pesquisar: “Ain, mas e se o Pantera Negra fosse branco?”. Já falei aqui diversas vezes sobre isso. Existem inúmeros personagens que só foram criados brancos porque era o público de maior poder de compra lá nas décadas passadas (1960, para a maioria das criações Marvel, por exemplo). Outros, como o próprio Pantera, já foram criados para representar justamente o grupo do qual faz parte.

Tipo, Ariel, a Pequena Sereia não precisa ser branca, até porque, existe sereia em várias culturas, desde a apropriadora da Grécia até as africanas, ou você nunca estudou sobre Iemanjá, Oxum, ou mesmo as indígenas brasileiras Iara e Janaína? Então, se você for questionar que uma negra não pode ser uma sereia, acho que você precisa saber que sereias não existem. Elas podem ser imaginadas até com a pele cinza, já que são basicamente, peixes.

Ninguém questiona que o australiano Chris Hemsworth interprete um deus nórdico, mas todos estão ok em criticar a negra Tessa Thompson como Valquíria. Nenhum deles é nórdico e, em último caso, nenhum deles é uma divindade! Então... é diferente. Scarlett se tocou que aceitar um papel de um grupo de ‘minoria’ do qual não pertence seria uma bola fora por tirar a oportunidade de alguém brilhar em seu espaço comum.

Então, conclusão minha, Scarlett Johansson está certíssima em defender que arte é algo do imaginário, que deveria ser aberta a tudo... mas também concordo que a arte aberta nesse mundo atual, só contemplaria os brancos, como fez antigamente. Veja pela história a quantidade de brancos que interpretaram outras etnias só porque a indústria branca não suportaria ver negros, índios, japoneses e outras etnias brilharem no seu mundinho de panela fechada de privilégios e corporativismo.

Não é que uma mulher branca cis não possa interpretar um homem trans, é que cada vez que ela aceita um papel desses, deixa pra trás pessoas que poderiam interpretar igual ou mais lindamente ainda por conhecer esse mundo por dentro. E servir de espelho para outros iguais. Lembram de Whoopi Goldberg quando viu Nichelle Nichols como Tenente Uhura em Star Trek e pensou que poderia estar ali, ou seja, ser uma negra na TV e não ser só sempre a empregada/escrava? Então...

De um branco – e racista - John Wayne interpretando um asiático ao brasileiro caucasiano Sérgio Cardoso fazendo um negro (com algodão por dentro da boca e do nariz pra imitar a fala e feições negras num elenco que tinha Milton Gonçalves ali do lado), toda a indústria do entretenimento só está aprendendo que outras etnias já são numerosas o bastante pra vender tanto quanto seus colegas brancos recentemente. Agora eu faço uma pergunta cretina reducionista pra simplificar ao extremo: Já pensou se a Viúva Negra fosse um cara vestido de mulher porque mulheres protagonistas ‘não vendem tão bem’?

Pense nisso!   


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Sobre representatividade: "Ma, Saga, naquele tempo era assim..."

Há quase 10 anos que eu assisto TV fechada e tenho várias análises a respeito desse universo. Desde as mudanças socioculturais que influenciaram em seu conteúdo (como o tipo de programas, aumento na dublagem, visando o público 'Classe C emergente', o crescimento de campanhas publicitárias onde era praticamente sobre a própria programação (trava-língua essa, hein) e se tornou quase o mesmo merchan da TV aberta, etc...). E a observação/divagação da vez é sobre representatividade, ou melhor, a representatividade ao longo dos tempos.

Porque é uma situação recorrente: A gente critica alguma produção e vem alguém de lá pra dizer "ain, mas não dá pra fazer a análise de hoje com algo do passado". Olha, já adianto que dá sim, porque questões socioculturais e políticas não são acontecimentos isolados. São parte de um processo que envolve a própria sociedade.

"Saga, você tá sendo muito técnico, fala em português".

Ok, falando em português, tem aquela que o português olha uma casca de banana e... BRINQS!

Vamos lá, trocando em miúdos: O que muitos acham que é apenas lembrança, como um capítulo de um livro, no frigir dos ovos, é uma parte desse imenso filme que se chama a história do mundo. E vou provar isso com um rápido estudo de casos informal (e diria tão mal organizado quanto bem intencionado - Rá!).

Resultado de imagem para friendsA primeira e principal série citada nesses casos é Friends. Vemos meia dúzia de jovens neuróticos e bonitos, brancos toda vida, vivendo o cotidiano agitado e sexy da Nova York de meados dos anos de 1990. De vez em quando, brotava um negro como segurança, figurante, recepcionista, etc. Às vezes. Até que em duas temporadas distintas, há participações de negros com algo mais do que papel de escada/figuração dos protagonistas brancos classe média. Estou falando de Gabrielle Union e Aisha Tyler.



O curioso é que ambas as atrizes foram escaladas para papéis de interesses amorosos de Ross e Joey simultaneamente. Union é uma nova vizinha objeto de uma aposta na disputa por sair com ela e Tyler, é uma doutora renomada que inicialmente sai com Joey, mas acaba se interessando por Ross, por terem os mesmos interesses intelectuais. Mas a pegadinha é que ela se torna tão volúvel quando assumem o relacionamento, que ela volta com um ex antigo na frente de Ross. Representou, né? (leia este último trecho com muita ironia).

Enfim, aí, a galera vem com aquele papo tão ou mais chapa-branca que a própria série, de que naqueles tempos era diferente, não se via a representatividade como hoje... É? Friends foi de 1994 a 2004. Eu imagino que a audiência jovem de hoje, na casa dos 20 anos, possa até achar que Friends é muito antiga, do tempo dos seus pais, mas pra quem tá beirando os 40, que nem eu, ela soa datada, mas não tão antiga. E durou 10 anos. DEZ ANOS com participações mínimas de negros. Além das duas moças que chegaram perto do elenco principal com alguma relação, foram espalhados negros pelas cozinhas, portarias, recepções ou naqueles papéis condescendentes, tipo o chefe durão, a diretora mandona e só. Muitos nem nomes tinham, apenas 'segurança 2', 'motorista de taxi 1'.

"Ain, Saga, ainda não me convenci. Friends é de outra época.". Ok, você ainda pode lembrar do nacional Sai de Baixo, que durou de 1996 a 2002. Sem negros no elenco principal e nas muitas participações, foram escassos. Lembro muito nitidamente, assim de primeira, do Tony Tornado, como um rei africano (pegou a visão?).

Resultado de imagem para how i met your motherVamos pra outro exemplo de grande sucesso estadunidense e internacional: How I Met Your Mother (HIMYM). Cinco protagonistas, ou melhor, um protagonista e seus amigos por 10 anos buscando a tal mãe dos filhos dele (que mal aparece e a gente descobre que morreu - spoiller!?). Essa é conhecida por alguns como uma versão mais descolada de Friends (modelos bem sucedidos na mídia fazem escola, isso é inegável, até porque, 'um bar é melhor do que uma cafeteria').

Mas o curioso dessa série não é a falta de representatividade, mas a representatividade um tanto forçada que lançaram. Novamente, toda sorte de brancos no elenco principal, recorrente, participações especiais e figurações, até que você chega a uma participação negra com alguma relevância na série: O meio-irmão de Barney, James. Ele é gay e negro e isso, por si só, já seria um sinal dos novos tempos, já que a série nasceu depois (ela nasceu em 2005, um ano após Friends encerrar e terminou em 2014).

Tipo, não tinham onde enfiar um personagem com importância moderada pra ser representativo e lançaram, num personagem só, duas 'minorias' da população de lá. Estranho ele não ter alguma ascendência asiática, ser vegano, hipster e nerd. Não é que não possa haver negros gays no meio da série, mas neste caso, ficou bem forçado, visto que nenhum outro personagem próximo do elenco principal é negro ou gay. Lembra que Chandler, de Friends, em tese, seria gay numa revisão de roteiro antes da definitiva (o que soa esquisito, já que foram 10 anos de piadas homofóbicas de Ross sobre sua ex com a companheira dela e com o próprio Chandler). Mas estamos falando de HIMYM.

Imagem relacionadaAliás, falei sobre a representatividade forçada no irmão de Barney e lembrei de outras duas séries. A primeira é Young and Hungry (Jovem e Gourmet, no Brasil). A série foi de 2014 a 2018, bem mais atual que todas aqui e a representatividade nela era um gay asiático afetado (vou citar já já outro exemplo do estereótipo), a empregada do mocinho branco rico, Yolanda, uma mulher preta de gênio explosivo e a melhor amiga da protagonista branca, que era de ascendência latina. Representou? Não. É só olhar meia hora da série que além de ser um amontoado de clichês de comédias românticas/sitcoms, o roteiro é pífio e os serviçais estereotipados só aparecem pra fazerem suas piadas preconceituosas (naquela ideia de que o alvo fazendo piada consigo mesmo não soaria tão agressivo). Piada pra branco rir.

Resultado de imagem para superstoreFalei que ia citar outro asiático com trejeitos afeminados e com ares de estilo alternativo, mas citarei dois. Two Broke Girls (2011-2017), tinha lá o gerente da lanchonete onde as protagonistas trabalhavam, Han. E em Superstore, temos Mateo. A série começou em 2015 e ainda está sendo produzida. Bem atual, né? E aí, ainda acha que de Friends pra cá tem tanto tempo assim, quando se considera o passar dos anos em sequência e não empacotado num box de dvd empoeirado apoiando o celular passando Netflix?

Não é que não possa ter esse tipo de personagem, mas quero mostrar aqui que a representatividade, muitas vezes, é só uma muleta pra série passar por inclusiva e agregadora, mas estabelece apenas um enxerto e não uma situação que parecesse de fato natural naquele contexto. Mas não acabou, ainda, deixei a mais chamativa do momento por último, apesar de que tem muita coisa que já foi fala aqui, mas você já vai entender o porquê - que foi anunciada lá no começo.

The Big Bang Theory, finalmente, vai acabar. Graças! A série até tem lá seus momentos de risos, boas sacadas do universo nerd, mas é uma porcaria de um bullying visto pelo lado de dentro da janela, né? Convenhamos, a protagonista mesmo é a Penny, que olha de fora e faz o deboche com aquele mundo recluso da cultura pop/nerd. E com o tempo, a série foi perdendo o pouco apelo original, da pegada científica e tals pra ser só um monte de piadas pejorativas contadas pelos próprios alvos delas (Stuart, argh!).

Resultado de imagem para the big bang theoryMas a situação da comédia (trocadilho bom, hein!) é que seguiu o modelo Friends de ser. Deixe tudo de lado e dê foco nas relações. E é aquilo, virou uma grande terapia de casais brancos, piadas preconceituosas, pais desajustados, mother issues, um montão de contradições de roteiro, estereótipos de pessoas socialmente arredias e a única mulher do elenco original que não tem um sobrenome até que se casa com o protagonista josé mayer dos nerds e adota seu sobrenome.

Bem, a série é do Chuck Lorre e você já deve ter reparado que suas obras sempre começam com meia dúzia de episódios com uma ideia minimamente original e tudo descamba para as piadas de sexo, bebidas, drogas, amarguras familiares e o fatal momento da lição de amizade ao fim do episódio. Sério, assista a qualquer coisa de Two and a Half Men, Mom, Mike & Molly, além da própria TBBT. Que, aliás, voltando, ao tema, conseguiu seguir tanto a fórmula de Friends que ou você admite que esse papo de outra época não cola ou estamos ainda em 1994, quando tudo era, supostamente, diferente.

Veja, os negros da série são tipo Raj (ou o paquistanês Timmy, de Rules of Engagement - 2007 - 2013). Só aparecem pra servirem de piada racista naquela fórmula de tentar soar menos escroto se o alvo é seu amigo. É aquele bullying que tenta te convencer que as risadas são COM você e não DE você. E porque mais a chefe dos protagonistas, negra, aparece? Sheldon, por exemplo, que já deixou de ser o antissocial pra ser apenas um cara arrogante, faz comentários racistas o tempo todo perto dela.

Olha que 'legal', numa série que conseguiu repetir a mesma atriz negra em três personagens recepcionistas/enfermeira diferentes ao longo da série, dá a outra um personagem fixo em um cargo de chefia apenas para ela ser alvo de chacota. Ou seja, o protagonista está fazendo uma piada babaca, a plateia gravada está rindo pra te induzir a rir dela. Repare, que o nerd é alvo de preconceito, a série reforça esse preconceito e outros.

Enfim, é isso, e olha que não citei muitas outras séries com pouca ou nenhuma representatividade (lembrando que negros estarem presentes não significa representatividade, muitas vezes estamos representando o racismo reforçado). Muitas dessas série internacionais são feitas pelo branco, visto que nos EUAses as etnias são bem definidas, diferente da miscigenação que aconteceu aqui no brasil. Isso explica que lá tenha o público alvo branco e o público alvo preto, latino, asiático, etc. Agora não explica aqui no Brasil, onde a maioria da população é preta/parda e não se vê na tela. Assista Toma Lá Dá Cá, Pé na Cova, o já citado Sai de Baixo, novelas em geral, programas de TV, etc...

Por lá, veja também Mad About You, Blossom, Seinfeld (que inclusive tem um episódio onde George resolve provar que não é racista e tenta fazer amizade com todos os negros que já participaram da série e leva um detetizador para almoçar com seu chefe também negro), Supernatural, etc... E repare que citei séries de 1994 até hoje. Séries duraram 10 anos ou mais, que atravessaram épocas e nunca tiveram a sacada de falar 'ei, vamos fazer algo novo e incluir tipos diferentes do branco médio'. Até acontece no modelo minoria, tipo Donald Glover em Community ou Iris West em Flash, bem inseridos no universo branco, mas se falarem que é de uma época quando praticamente não soava errado, Um Maluco no Pedaço (Will Smith) é de 1992 e The Cosby Show é de uma década anterior. Enquanto aqui o negro só aparece em alguma quantidade se a novela tratar de escravidão, porque até favela é branca na telinha.

Então, quando vemos o negro de forma periférica em obras que representam uma sociedade que ele ergueu à força pro branco viver, sim, isso incomoda. Já cansamos desse lugar sem background, sem vida, sem família, sem romance, enfim, sem ser visto como um cidadão completo e não o empregado pra transar e abrir portas e servir café.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Por que ‘X-Men’ falhou terrivelmente com a humanidade?



Bem, pro título não ficar muito comprido, explico que estou me referindo ao universo cinematográfico e não à equipe de mutantes em geral, muito menos especificamente no material-fonte, ou seja, HQs. E, sim, sei que ficou um titulozinho safado, dando a entender que eu falaria até, quem sabe, do aspecto fictício de alguma aventura específica. Ou não, sei lá.

Aliás, se quiserem saber mais sobre o que eu acho dos mutantes dos quadrinhos, já falei do fantástico arco Deus Ama, O Homem Mata (Conflitode Uma Raça), onde William Stryker quer provar que mutantes não são humanos e sim, aberrações ameaçadoras enquanto ele mesmo defende essa monstruosidade de preconceito, já citei as linhas gerais da criação do núcleo mutante diante das causas sociais de grupos discriminados, e até num texto antigão, de 2009, quando eu ainda assinava Fernando Garcia (de onde vem o nome desse infame, porém honesto blog - Rá!), sobre o que se perdeu com o tempo na série (e suas milhares de revistas banalizadoras de causas). Mas, vamos à questÃ.



No cinema a questão mutante fica muito restrita apenas ao fato de os personagens serem mutantes, não dando muita profundidade às analogias que a série faz nos quadrinhos, como homossexualidade, antissemitismo, racismo, etc. Um lampejo de profundidade, vemos algo que se aproxima dos quadrinhos quando Wolverine, Vampira, Homem de Gelo e Pyro (UIA!) conversam com os pais de Bobby e sua mãe reage como se o filho estivesse saindo do armário (“Filho, já tentou não ser isso?”). Até que a cena é maneira, nada pesada, mas um tanto intensa, o que compensa – quase – o primeiro filme, onde Magneto tem um verdadeiro plano Power Rangers de transformar todos em mutantes pra que não discriminem mais uns aos outros... Sério? É algum vilãozinho das Três Espiãs Demais?

Além de a humanidade acabar inventando outro motivo pra discriminar, onde esse plano retrata a luta diária contra discriminações? Se Magneto fosse real, ele ia transformar todo mundo em judeu? Em gay? Enfim, to me fazendo entender? Não se luta pra tornar o outro em semelhantes, se luta pra que haja respeito ao diferente, catzo! Nisso, os filmes falham, já que focam demais no Wolverine e aquele passado escroto – que já desvendaram, mas eu gostava quando era só um mistério de um cara esquisitão. Aliás, se o primeiro bota Magneto como o vilão da semana e o segundo é um revezamento de explosões, com outra vez, Xavier sendo posto fora de combate e, outra vez, Wolverine lutando pra descobrir seu passado. E no 3º filme então, são só cenas de ação, diálogos estranhos e outra vez Xavier fora de combate e outra vez, Wolvie sendo o Charles Bronson com garras.



Nada muito representativo se lembrarmos que X-Men foram criados na década de 1960 e Magneto com Xavier representam Malcolm X e Martin Luther King Jr, na luta pelos direitos civis dos negros nos EUAses daquele tempo. Enquanto Magnus/Malcolm tem a visão radical de que estamos em guerra e precisamos defender os nossos como for, Xavier/Luther King prega a harmonia entre as raças diferentes num mundo de paz. Ok, num primeiro momento, os quadrinhos vacilaram trazendo apenas jovens brancos estadunidenses entre os protagonistas, ou seja, mutante pode, mas nada muito ‘étnico’ (o que foi melhorado na segunda formação com integrantes de vários países do mundo, mas não é sobre gibi aqui).

Nos primeiros filmes, apenas Tempestade é preta, e é a Hale Berry, então, seria como ver uma novela com uma negra só sendo a Taís Araújo, saca? Não é desafio à diversidade quando o nome já vem brilhando. Aliás, muito pouco se diversificou. Aí, veio o reboot, que na verdade, virou prequel – e que teve seu próprio prequel na continuação (hein?!) – Primeira Classe. Tinha um negro no elenco principal. E adivinha só? Não só foi o primeiro a morrer, como foi o único! Parabéns, jovens diversificadores! Vocês criam uma franquia cinematográfica para uma série que representa lutas sociais de aceitação contra a discriminação e o único preto morre antes que a verdadeira aventura comece.

X-Men - Dias de um futuro esquecido


Tá, tenho dois adendos, você, se assistiu atentamente feito eu, notou que tem outra pessoa negra ali, mas além de se encaixar no exemplo ‘Taís Araújo’ (pois é filha de Lenny Kravtz com Lisa Bonet), ainda se bandeia pro lado do vilão. A outra questão é que o personagem morto tem o codinome de Darwin, porque seu poder é se adaptar para sobreviver. Tipo, cria guelras se estiver embaixo d’água, tem a pele de pedra ou metal para suportar temperaturas muito altas, etc... Aí, o que acontece... Ele explode com uma ‘bomba’ implantada pelo vilão na sua boca... Tipo... Cara, nenhum poder dele poderia cuspir a energia fora ou ficar altamente resistente a uma explosão?


Enfim, X-Men, do diretor Bryan Singer falha terrivelmente no que diz respeito a grupos excluídos socialmente. Na verdade, pelo fato de o diretor ser gay assumido, pesa ainda mais, já que seria o primeiro a saber como é isso bem na pele. Juro que até gosto da franquia, mas essa deturpação de valores me incomoda. Nem a troca de trajes individuais e coloridos (o que reforça, nos quadrinhos, as identidades próprias e características de cada um) por genéricos casacos de motoqueiro me importariam tanto se o roteiro tivesse uma linha mais simples de ‘temidos e odiados pelo mundo que juraram proteger’. E ainda dava pra colocar ótimas sequências de ação e humor, afinal, foi isso que tornou os personagens queridos nas HQs: Um novelão com aventura, romance e humor, no melhor estilo ‘essas feras vão aprontar as maiores confusões no maior clima de azaração’, da Sessão da Tarde. Rá!

X-Men - Apocalipse


Ps.: Tentaram esboçar um arrobo de diversidade no Dias de Um Futuro Esquecido com Tempestade e Bishop negros, a Blink chinesa, além do Apache (nativo estadunidense) e Mancha Solar (que é brasileiro e preto, ou deveria, tendo sido criado assim no gibi)... Mas a grande verdade é uma só: Tem mais personagens azuis do que negros. Tipo Maurício de Souza que tem mais personagens animais antropomórficos do que negros.



Ps²,: Sim, eu notei que Alexandra Shipp (sempre linda) é negra e apareceu nesse mais recente Apocalipse, mas aí, no máximo, voltaram ao status quo 'Taís Araújo', tipo, tem uma negra de novo, ela é a Tempestade.  

Bryan Singer, o diretor.


O X-man Darwin virou até piada na web, como o que tem o grandioso poder de se adaptar pra sobreviver e é o único que morre. Na dúvida, morre o preto. Repare em outros tantos filmes que quando não é o preto é o latino, é o japonês... enfim, o recado deles é nítido, né?


"Se adapta para sobreviver a qualquer coisa... único x-man que morre"



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Representatividade na ficção importa também!


"I just saw a black woman on television; and she ain’t no maid!" - Whoopi Goldberg, sobre sua reação quando, na infância, se deparou com Nichelle Nichols interpretando a Tenente Uhura em Star Trek. 

(Acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é uma empregada!)



Ainda na carona do assunto 'Tocha Humana negro', muita gente diz que não pode mudar e blá blá blzzzZZZZZZZZ. Sono. Muito sono com esse povo e esse papo. Não vou entrar nos mesmos argumentos de antes, apenas estamos cientes de que do quadrinho para o cinema ou para a TV, a mídia muda, os tempos são outros, são outras cabeças pensantes (?!) então, o resultado final é um produto diferente, obviamente. Por exemplo, eu adoro o personagem Flash e o que mais acompanhei foi Wally West. Muitos preferiam Barry Allen, que, por sinal, é o personagem por trás da máscara do ligeirinho na recente série de TV. Eu, particularmente, não vi nada de mais, gostei dos efeitos especiais, mas o background da CW (produtora da série) é muito novelão, lembre-se de Smallhaçãoville, por exemplo. Não gosto de novelão com poderes, não gosto dessa versão 'Peter Parkerizada' do Flash. Ele é só um Homem-Aranha que corre muito rápido. Mas eu vou achar que tinha que ser do jeito que eu especialmente gosto? Não, sabe porque? Porque o personagem tem décadas de existência, já passaram, como eu disse, inúmeros desenhistas e roteiristas pela revista e não dá pra cagar regra de que a minha especial é que é a certa.

"Ain, mas ele é negro!"



Não só mudanças no personagem, mas mudanças na etnia também incomodam muita gente. Geralmente, gente branca ou gente que se faz de bicho de estimação, reproduzindo o discurso de racista irracional (perdão pela redundância). Mudou o personagem e ele agora é negro. O que fazer? Simples, veja se a etnia faz diferença na construção do personagem. Faz? Então, Houston, temos um problema. Não faz diferença? Deixa pra lá e aprecie. Vários personagens coadjuvantes já mudaram de etnia e ninguém fez estardalhaço. Mas o que me trouxe à caneta (teclado!) dessa vez foi a questão da representatividade. O nerd reacionário vai achar que simplesmente tudo fica como sempre foi na cabeça dele e ele acha que continua dominando um campo inteiro da sociedade, mas pra quem [é negro e não tem referencial pra uma festa à fantasia, pra uma brincadeira de criança ou mesmo pra ler ou assistir algo e falar 'olha lá, tem alguém igual a mim ali, eu posso me identificar'. É muito fácil fazer parte de um grupo que se vê na TV, no cinema e na capa de revista a toda hora e em todos os cantos, situações, cargos, roupas... Preto só se vê na TV, na cozinha, no canto da sala abrindo porta, no elenco de apoio da favela (porque até se for protagonista, a favelada vai ser uma atriz branca) e essas coisas.

"Você já falou isso tudo antes, seu chato!"



Agora vem a cereja do bolo. Nichelle Nichols e sua importância na cultura pop (cof nerd cof). Nichelle participou do elenco principal de Star Trek, a original, entre 1966 e 1969 e foi quem gerou interesse em, por exemplo, Whoopi Goldberg em estar naquele mundo que presenciava, segundo ela mesma, indo correr para a mãe em casa falando 'Mãe, tem uma negra na TV e ela não é uma empregada'. Na verdade, era o contrário, Uhura era tenente, tendo sido reconhecida até por Martin Luther King Jr como um divisor de águas e uma importante personalidade para a identificação de do negro. Por isso que eu falo, representatividade conta e muito. Não estamos falando de um capricho infantil e superficial de 'mudou a cor'. Estamos mais preocupados com coisas que realmente importam. Não é pra afrontar um cabeça oca, é pra olharmos e falarmos 'tá aí, eu compro essa ideia, ela me faz sentir incluído e não um estrangeiro do mundo'. É pelas crianças que hoje estão tendo a chance de ver muito mais representatividade do que tivemos e já vão ser figuras para repassar essa importância com muito mais bagagem. Eu ainda acho que seria mais legal o já citado Tocha ter uma irmã negra também. Já que mudou, ue mudasse logo os dois irmãos, em vez de colocar a Sue como adotada, mas enfim...

Só lembrando que o episódio piloto de Star Trek tinha sido rejeitado porque trazia uma mulher numa posição de destaque... depois, sua posição não veio tão destacada como um protagonista, mas ainda assim, na ponte de comando, uma tenente. E negra, quando mesmo se fosse branca, já teria dificuldades. É bem verdade que geralmente, negros servem muito como elemento 'exótico', mas a representação está ali, imagina só, em tempos de conflitos por direitos civis para os negros, o elenco principal de uma série estadunidense traz uma mulher negra, sendo que lá, ao contrário do Brasil, a população negra é minoria. Uhura é representatividade. Isso serve de mais um exemplo de especulações de mudança. Por exemplo se pusessem uma mulher branca nesse universo paralelo dos novos filmes, faria toda a diferença, já que é parte da construção da Uhura ser mulher e negra. Não daria pra mudar um desses elementos sem descaracterizar. Ao contrário do Tocha onde não faz a menor diferença ele ser branco, índio ou japonês. Calhou de ser negro nessa nova. Numa próxima ele pode ser a Paris Hilton... Rá!





quarta-feira, 27 de maio de 2015

E se o Super Choque fosse branco seria "racismo invertido"?



Não ia ter Super Choque, assim como não existe racismo invertido. Racismo é sistema social de dominação, onde um grupo domina o outro. Estude história de verdade e perceba qual grupo invadiu qual país e qual grupo até hoje é minoria rica e qual é maioria pobre. Acabou a conversa.

Brinks!!!

Na verdade, vou falar sobre essa futilidade de colorismos mil. O que constrói um personagem não é um traço só. Até na famigerada Turma da Mônica, os personagens demonstram características a mais do que aquelas que são mais conhecidas. Logo, um super herói não é feito apenas por seus poderes. Eles possuem camadas. Então, voltamos ao assunto 'Tocha Humana negro'. Seu amiguinho vem lá do caixa-prego (de onde ninguém o chamou) e diz:

"Ain, se o Super Choque fosse feito por um ator branco, vocês iam dizer que é racismo".

Vamos nós de novo: Super Choque é um garoto negro de uma vizinhança predominantemente negra/latina nos EUAses, o que, no geral, representa uns 20% da população daquele país. Ele começou como um herói de gueto nos quadrinhos e virou uma versão do Homem-Aranha, no desenho famoso (pra amenizar o contexto de violência urbana que ele vivia nas HQs).

Virgil Hawkins, o Super Choque (Static Shock), foi criado pelo finado produtor Dwayne MacDuff JUSTAMENTE pra representar essa parcela que sempre foi excluída da mídia. Ele foi um pioneiro em perceber - e se mexer - a respeito de representatividade, uma tal que hoje em dia é possível, diferente da década de 1960, quando a maioria dos heróis populares de hoje foi criada (Homem-Aranha, Thor, Homem de Ferro, X-Men, Quarteto Fantástico, etc...).

Super Choque já se encontrou com Anansi, o Homem-Aranha (escancarada alusão ao personagem mitológico de mesmo nome da cultura ashanti - África) enquanto esteve numa viagem ao continente-mãe, já se deparou com heróis de sua comunidade de décadas passadas como Soul Power tanto nessas quanto em outras ocasiões, o fato de ser negro foi fundamental, diferente do Tocha Humana que é e sempre foi apenas um garotão gente boa curtidor da vida, em nada sendo preponderante sua etnia.

No referido episódio da viagem à África, Virgil liga para seu melhor amigo, Richie, e eles têm um diálogo tipo isso:

- Eu tô adorando isso aqui, porque aqui eu não sou "o garoto negro", eu sou só mais um. Todo mundo aqui é como eu. Acho que é assim que você se sente aí, né?

- Er... que bom que você tá gostando, cara.

Nitidamente, seu melhor amigo branco não compreende a necessidade do jovem negro marginalizado de seu subúrbio em se sentir realmente um cidadão normal e não um estigmatizado. Tem até outro episódio em que descobrimos que o pai de Richie é racista, há um embate dos pais dos dois garotos, mas isso é papo pra outro texto. Por hora, fica o exemplo de o quanto ser negro é importante pro Super Choque, assim como pro Pantera Negra, assim como é pro Luke Cage, Tempestade e tantos outros, mas repare. Assim como em nossa cultura midiática aberta em geral, um personagem só sai das características 'básicas' (dos brancos) na hora de mostrar seu contexto próprio.

Exemplo: O próprio Tocha não tem contexto social algum, foi só um personagem criado pra ter poderes. Super Choque não, esse já foi criado pra mostrar um universo que a maioria estadunidense não conhece, mas é real e tem gente lá que adoraria se ver representado. O Homem-Aranha original é só um garoto classe média vivendo com a tia, já Miles Morales, o Homem-Aranha do universo ultimate é inserido no mesmo contexto que Super Choque. Tempestade nasceu no Quênia e vivia como trombadinha até mudar de vida, Luke Cage foi criado pra ser um herói de aluguel dos guetos, etc...



Poucos personagens negros. criados como tal, fariam sentido apenas mudando sua etnia. Justamente por não ser o estereótipo primordial, esses personagens são criados pra serem de outras etnias e condições sociais. Apenas achar que é uma birra dos grandes estúdios de cinema por mudança de cor de pele é superficial e infantil. É aquela conversa que eu mandei no outro texto sobre o Tocha, mania de acomodado que não quer ver seu mundinho mudar, achava que dominava um conhecimento e se vê "obrigado" a sair da zona de conforto.



Obrigado entre aspas porque seu personagem vai continuar lá, na mídia original dele, sem sofrer qualquer abuso e se mudar lá, faça como eu, pare de ler. Muita coisa hoje em dia já não é feita pra nerds velhões como nós. Um exemplo, a última saga que comprei foi chamada Crise Infinita (DC Comics) e tem uns 10 anos isso. Uma decisão editorial bizarra, na minha opinião, foram vários personagens da famosa fase cômica da Liga da Justiça serem exterminados. Besouro Azul (Ted Kord), Sue Dibny, Maxuell Lord e outros, todos mortos de formas brutais durante aquela fase. Eu ignoro isso, prefiro reler as histórias que tenho da reunião do grupo numa série de ação e comédia do jeito que eu gostava.



Os tempos são outros e pensar tá sendo necessidade. Imagina quantas crianças negras - e até adultos - não podiam se fantasiar de quase nada ou se fantasiassem, tinham que ouvir 'mas esse personagem não é preto' ou o pior - ouvi muito - 'é o personagem tal depois do incêndio' e outras alusões à minha cor de pele como se fosse um defeito, queimadura, sujeira, tintura, etc. Já falei isso no meu teto sobre a reatividade em relação ao Capitão América negro, falei de novo sobre o Tocha Humana negro, agora respondi (sei lá a quem) sobre Super Choque ter necessidade de ser negro pra fazer sentido.



Cansa um pouco, mas é uma missão, sempre deixar um registro de resposta porque "eles" sempre vêm com os mesmos clichês, então é bom termos as mesmas respostas, mas de diferentes pontos de vista, porque ou a gente enfia algum conhecimento na cabeça deles, ou eles se mandam por cansaço.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Malhação 20 anos: Bróduei e representatividade



Uma coisa me impressionou na primeira temporada de Malhação, aliás, várias. O formato, até então, novidade na TV brasileira, um núcleo jovem numeroso como se via apenas em algumas produções como Vamp e Top Model, mas numa abordagem voltada exclusivamente para o público daquela idade e não um núcleo de alívio cômico. Tinha a coisa de explicar gírias da moda com explicações entrecortando cenas e diálogos, estilo dicionário, tipo, o famoso Mocotó insinuava uma possível atitude homo de 'frutinha' para homens e 'sandalinha' para mulheres, ao que diante da dúvida de outro personagem, surgia no lugar da novelinha um texto com narração explicando o sentido daquelas palavras. Enfim, tinha muita coisa nova que nem a própria novelinha conseguiu manter com frescor, se viciando nas mesmas situações altamente fake, mas esse não é o ponto a se olhar aqui.

Fabiano dividia a cena com Bruno de Luca (Foto: CEDOC / TV Globo)

A questão é que eu lia muito suplementos de TV de um jornal de grande circulação e numa seção de cartas, fui alertado, ali, entre meus 12 e 13 anos, sobre uma questão que muitos não se atentam até hoje, 20 anos ou mais que isso: Não há negros na TV. Ou melhor, existe uma meia dúzia com nome de peso na grande mídia e a outra meia dúzia fica espalhada entre cozinhas e senzalas sem um contexto para seus personagens que não seja apanhar, ser ofendido, abrir portas e servir café. Então, logo lembrei do Bróduei Washington, citado numa das cartas da referida seção do jornal. A pessoa alertava que os únicos negros na novela toda eram a servente da cantina e seu filho.

Fabiano em Malhação e em registro atual (Foto: CEDOC / TV Globo e Arquivo Pessoal)

Isso me fez lembrar ainda outro agravante. Bróduei era um menino inteligente, vivia cantando rap e se divertindo com Fabinho (Bruno de Luca), no melhor estilo, filho do sinhô aprontando com o negrinho da casa grande (lembrando que o personagem de Luca era filho da dona da academia). Aí, aparece o irmão mais velho de Bróduei, Franklin Jefferson, fugitivo da polícia. Depois, apareceu outro negro, um nadador que tinha uma proposta de patrocínio polpuda negada por "não ter o perfil" da rede de sucos, que só não quis admitir, nitidamente, que era o fato de o promissor esportista ser negro (naquela época as tramas duravam apenas uma semana, mudando o foco na semana seguinte).



E foi isso. Parei de assistir Malhação ali e só voltei algumas vezes esporadicamente, enquanto me arrumava em frente á tv pra sair ou ir pra facul, nas vezes que o horário permitia. Ah, e teve o período que trabalhei na central de atendimento CAT, tendo a programação da Globo passando de ponta a ponta do expediente pra estarmos inteirados.

Dill Costa era Candelária, mãe do ator na ficção (Foto: CEDOC / TV Globo)
Dill Costa e Fabiano Miranda: Todo o elenco fixo de Malhação no início da novelinha. Pouca coisa mudou de lá pra cá.

Como curiosidade, quer saber por onde anda o Bróduei? Já vi umas reportagens desse tipo, mas a mais recente é essa qui no GShow.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Valeu, Cleidison! Desculpa, Dioclécio! Porra, Maurício!

Dioclécio Luz


Em fevereiro de 2010, o jornalista Dioclécio Luz fez uma análise um tanto radical sobre a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. Na época, lembro que fiquei um tanto chocado e vi exageros típicos de quem tenta criminalizar a violência pastelão de Chaves ou Pica-Pau. Fiquei com um pé atrás, pois de exageros assim, nascem aberrações como A Sedução do Inocente, o livro de 1954 que associava quadrinhos à delinquência juvenil (e principal força propulsora da associação Batman e Robin como um casal homossexual e pedófilo (essa segunda parte pelo lado do Bátema). É a mesma coisa que dizer que jogos de vídeo game violentos formam psicopatas e não o contrário (psicopatas se identificam com coisas violentas), então, na época o achei um belo de um paranóico. O negócio é que as coisas mudam. Eu não via o todo, não era militante de causas sociais e deixei de observar o que Dioclécio viu, em vez disso, preferi aderir ao deboche do blog que me inspirou o titulo desse texto. Mas Dioclécio tem mais razão do que percebi há 4 anos, a meu ver. E meu argumento pra justificar minha opinião de hoje em dia é justamente o início de seu texto: “Existe uma certa condescendência por parte da imprensa – e mais ainda da crítica – em relação à Turma da Mônica. Muito provavelmente por razões nacionalistas (...)”. Eu acrescentaria aí as razões comerciais e a programação desde a infância. Quem tem coragem de contestar um ícone infantil? Eu!

Porra, Maurício!


O Porra, Maurício foi uma iniciativa das mais criativas e oportunas. Simplesmente pegaram o texto do Dioclécio como uma visão deturpada e deturpadora da obra de Maurício de Souza e entenderam-no como um observador que tira as coisas de contexto para validar seus argumentos. Agora, gente, na boa, Dioclécio poderia deixar tudo no lugar (como eu acho que deixou) e não ia dar pra sair de algumas questões que eu já, já falo. E o Porra, Maurício vai, ironicamente, me ajudar a justificar o Dioclécio e questionar Maurício de Souza quanto à verdadeira representatividade do povo brasileiro em sua obra tão longeva.

Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Cleidison


Bem, esse subtítulo destacou todos TODOS os personagens negros de Maurício de Souza, com exceção de Cleidison, que, graças a Deus, é real. NENHUM mais. E o Cleidison nisso tudo? Porque, por esses dias, um menino da quinta série, o Cleidison, de uma escola em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), pintou com lápis de cor marrom a capa de uma prova, que trazia os principais personagens da Turma da Mônica. “Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim”, disse o aluno para a professora Joice Oliveira Nunes, que já teve sua postagem sobre o ocorrido compartilhada mais de mil e duzentas vezes no Facebook. Como disse a professora: Recado dado.


Fala, Maurício

Aí, não antes e nem depois de aí, surge o autor da turminha da infância de tantas gerações há 50 anos: Maurício de Sousa, o próprio, ou pelo menos,através de sua assessoria se pronuncia por nota à imprensa:

"O menino Cleidison tem razão a partir de sua visão do mundo e do meio.
Por que os personagens das historinhas que ele lê não têm a mesma cor de sua pele?

E corajosamente ele os traz mais para perto de si e dos seus colegas afrodescendentes simplesmente usando lápis de cor.

Saída criativa e carinhosa.

Ele não excluiu os personagens. Ele os trouxe para seu meio.

Sou um dos poucos cartunistas que criou personagens de cor desde o inicio de minha carreira. O Jeremias, que inclusive faz parte de nosso atual show 'Mônica Mundi', junto com Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, foi criado nos anos 60. No show ele mostra as raízes africanas que compõem nossa nação. Depois vieram protagonistas como Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.

Assim como temos a Samira (árabe), Hiro e Neuzinha (japoneses) e tantos outros dos quase 400 que criei nesse universo.

Impossível contar histórias brasileiras sem essa mistura linda de cores e valores.
(Pra mim não há raça branca, negra, amarela... Pra mim existe a raça humana)"

Conclusão: Tem mais dinossauro do que preto nessa foto abaixo.

Não há representatividade para negros ou qualquer outro grupo que não seja o caucasiano médio. Mas negros são mais de 50% da população. Eles não podem ser tão distraídos.

Então, crianças, o que aprendemos? Que um menino na escola, por ser negro e buscar representatividade, foi muito mais afirmativo do que o maior quadrinista brasileiro. Vamos analisar a nota gostosinha de Maurício?

Sim, o menino cleidison tem razão, mas não foi a partir de sua visão do mundo e do meio, negro no Brasil não é um nicho perifericamente localizado, é maioria da população. Na verdade, foi o pai da Mônica que criou seus personagens a partir de sua visão do mundo que o cercava, tanto que seus personagens mais famosos são caricaturas de suas filhas e alguns traços de pessoas próximas ou dele mesmo.

Sim, ele é um dos poucos cartunistas brasileiros a criar personagens ‘de cor’ (e assim mesmo, com a expressão que estigmatiza), pois é o único personagem negro. Os outros três são homenagens a jogadores de futebol, sendo que dois deles, NEM NA VIDA REAL se assumem negros. Neymar come banana quando o chamam de macaco, na campanha do pessoal do marketing e Pelé fala pra apenas sorrirmos e sairmos de cena diante de uma agressão racista. Ou seja, caricaturas, caricaturas. E ele mesmo já dá o tom da pouca representatividade, pois, no país mais negro fora da África, ele tem UM personagem autoral negro e o compara a UMA personagem árabe e DOIS japoneses, pra dizer que preza pela diversidade cultural num universo de 400 personagens.



Pra ele isso é uma linda mistura de cores e pra ele não há raças/etnias e sim uma única raça, a humana. Simplesmente, o pior e mais cara-de-pau dos argumentos-clichê de quem tenta esconder o pouco caso com um assunto tão sério quanto o racismo. Nenhum debate social ou filosófico, como diz Dioclécio, comparando Mônica a Calvin ou Mafalda, que são reflexivos sobre a humanidade e não tanto com seu próprio mundinho, como alguns personagens de Maurício. Com essa nota, ele praticamente fez a Patricia e disse: '''Não sou racista, tenho personagens negros'''. Sim, Dioclécio não estava tão errado. Não é fora de contexto que se deturpa a obra de Maurício, é olhando tanto o todo quanto com uma lupa que a gente nota fácil como ele faz pra manter o negro em seu lugar de exclusão social nas mídias. Claro, o fato de ter trabalhos ligados às organizações Globo, Editora Abril e essas coisas pode ter influenciado suas decisões editoriais, ou foram almas gêmeas que se encontraram. De qualquer forma...

PORRA, MAURÍCIO!!! PORRA CEBOLINHA RACISTA!!! USANDO FOTOGRAFIA PARA HUMILHAR OS NEGROS, QUE COISA MAIS NAZISTA!!!(Imagem via Erickl )

Porra, Maurício, tudo errado! Já não é representativo com a maioria da população e ainda tenta explicar a diversidade de seu trabalho comprovando que não diversificou porra nenhuma? Porra, Maurício!


Recado dado.
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