Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Para respeitar o próximo é preciso se colocar no lugar dele...



... e parar com a palhaçada do "se eu fiz ou deixei de fazer, eles têm que agir igual". Empatia é o contrário de egocentrismo. Se colocar no lugar do próximo é muito importante pra que o respeito seja legítimo. Respeito não é entender o outro como você se entende (se é que se entende) e você não precisa estar nos sapatos do outro pra saber o que ele passa. Quer um exemplo? Eu não sou gay, mas enquanto negro, sei bem o que é ser discriminado por algo que sou, sem ao menos ter feito mal a alguém. Mas, num tropeço, num espirro, estou lá com um alvo na testa para os discursos "não sou preconceituoso, mas tinha que ser *insira aqui qualquer grupo discriminado hipócrita e descaradamente*".

Porque eu falo isso? Bem, por que tenho ouvido demais essas frases que se fingem condescendentes e terminam despejando racismo, homofobia, machismo, xenofobia e demais preconceitos. E é absurdo quando isso vem de gente que deveria saber o que é ser discriminado e não fazer o que não gosta que façam consigo. Um internauta comentou isso num texto meu lá no Raiz do Samba em Foco. Ele se disse branco e gay, mas declarou ali uma empatia com a causa negra por saber que enquanto a sociedade tiver qualquer preconceito, ninguém terá paz e não seremos um grupo social justo. Idealista demais? Sim, mas não poderia aceitar como lei do universo uma sociedade que me trata como bandido por causa da minha cor ou do meu cabelo. Pro inferno com injustiças sociais.



O que acontece é que muita gente não sabe que união é melhor do que diferença, ou melhor, só aceita a ideia de união se for no seu clubinho, igreja, casa, quintal e essas coisas. Um complexo de inferioridade que tenta se compensar diminuindo o outro. O racismo é assim. Você acha que realmente o racista acredita na não humanidade do negro ou do índio? Bullshit! É a mesma lógica da inquisição espanhola (hmm, espanhola, UIA!). Você não acredita realmente, mas precisa oprimir alguém pra saber que você está no controle. A escravidão foi isso, suas sequelas sociais são isso. Repare que enquanto o negro, mesmo que por feridas e vioolência, foi empurrado para um senso de grupo muito forte. Não nascemos aqui, fomos roubados pra cá pra trabalhos forçados e acabamos erguendo esse país no braço. Para o caucasiano euro sobrou o quê? Ser um grupo normal, dominante e com o poder de ir a qualquer lugar sem precisar fazer cara de bonzinho ou se calar pra não incomodar os outros com suas lamúrias seculares.

A normalidade deixou muita gente cega para sua própria identidade, o que, não deveria necessariamente, mas acontece, faz muita gente ressentida com a identidade do negro. Por exemplo, muita gente adora cuspir o 'se eu usar uma camisa 100% branco...' ou 'ninguém é 100% negro...'. A questão é essa, não falamos só de biologia, mas de ideologia, coisa que uma pessoa "de fora" só poderia saber tendo convívio. Mas convívio de verdade, não um ou dois diferentes no meio da casa grande, porque aí, é muito fácil falar que seus amigos diferentes de estimação são bem resolvidos, como o marido satisfeito que não dá prazer à mulher, mas pelo silêncio dela, acha que arrebenta na cama, saca?



Volto ao exemplo dos gays. Tenho pessoas próximas muito queridas que são gays e quando tive convívio social, aquelas piadas distantes e estereotipadas já não fizeram tanto sentido pra mim. Foi como assistir a um stand up do Chris Rock e depois pegar uma sessão de Zorra Total. Tipo... não é nada disso. Estereotipar quando você conhece, fica muito difícil, se você tem algum cérebro e um pouco de coração. Lembrei agora da história de um juiz que era contra cotas raciais até que se viu participando de um pré-vestibular em comunidade carente e mudou de ideia. Disse ele que aprendeu na faculdade que era preciso passar uma noite na cadeia pra condenar alguém (ou algo assim) e é por aí mesmo que eu penso. Vejo muita gente apenas julgando, e achando que sua opinião é algo tão válido que brota da cabeça e vai direto pra internet sem passar as vistas num livro ou num artigo. Muita gente ignorante em tempos que você digita meia palavra e o Google busca um mundo pra você.

Um grande mal na humanidade é achar que ela é humana à beça e não enxergar que essa humanidade, no sentido restrito, é que é o problema. Ser racional demais deixou a humanidade burra e viciada nas verdades que ela mesma criou. Contestar faz parte do aprendizado e ficar na adivinhação é meio que burrice demais pra quem tem instrumentos de comunicação nas mãos. É um bebê com uma metralhadora. Às vezes não acontece nada, mas pode causar um prejuízo enorme e nem ter noção disso. Mais respeito e mais gentileza com o coleguinha. Tá carente, tá se sentindo uma bosta? Vai fazer análise, vai beber, vai pro raio que o parta, mas deixa as pessoas que já têm seus próprios problemas na vida seguirem em frente. Se não vem pra somar, Não enche.

Nenhum comentário: