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sábado, 4 de novembro de 2017

A Cabana do Pai Tomás e as relações de racismo "amistoso" no Brasil



A Cabana do Pai Tomás foi uma novela global que passou entre 1969 e 1970. O casal protagonista lutava contra a tirania dos senhores de escravos em prol da liberdade. Bunitim, né? Não, pois começam os problemas já na escalação do casal negro.

Sérgio Cardoso era branco e por indicação do patrocinador (Colgate-Palmolive) foi pintado de preto pra representar o personagem-título. A esposa, vivida pela maravilhosa Ruth de Souza (negra), teve seu nome passado pra trás nos créditos de abertura porque atrizes brancas do elenco não aceitavam ter uma negra 'acima' delas. A emissora compactuou com tudo isso.

Então, vamos às conclusões: Numa novela que retrata a escravidão, os coadjuvantes eram negros, mas o protagonista era branco de blackface. Sério que ele não levantou a voz pra defender os 'amigos'? Não me convenceria nenhuma interpretação por liberdade de quem aceita passar os colegas negros pra trás.

Daí, vemos o retrato do Brasil racista. O branco sabe o privilégio que tem e mesmo que não levante discurso racista, está ok com a condição do negro, desde que se mantenha acima. Não quer justiça, quer o negro bem, mas quer a si mesmo acima dele, no seu ideal de normalidade. E é daí que surge aquela insistência do branco fugir do assunto racismo, dizer que é um assunto apenas do negro e que o racismo nem existe, em alguns casos.

É não querer entrar em conflito porque não é atingido diretamente. Claro que não é todo branco que vive assim, vendo o irmão apanhar e ficando quieto apenas pra não se indispor com ninguém. Mas os que são assim, a gente percebe de longe, igual perfume barato ou cheiro de sapato de quem pisou na bosta.

Como seria se naquela época, os brancos se levantassem e dissessem 'ei, negros é que devem interpretar personagens negros'? Como seria se os negros falassem 'ei, se é assim, prefiro juntar a negada em outro canto pra gente fazer nossos próprios trabalhos'. Nos EUAses funcionou, há décadas que eles fazem séries, filmes e demais programas de TV com elencos inteiramente negros.

Isso não é só uma questão de 'mimimi', é geração de auto-estima, emprego e representatividade pra uma camada enorme da sociedade. Não queremos roubar o espaço de ninguém, só queremos o nosso próprio espaço autônomo e não migalhas que eles dão pra manter essa relação de dependência, pois temem que nos tornemos mais proeminentes nas áreas onde estão acomodados, vivendo de inércia.

Casa Grande-Senzala é o C... Como diriam Cidinho e Doca: "Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui".

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