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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Top 5,5: Momentos de Chaves que te dão um nó na garganta

Na verdade, na verdade, eu ia chamar essa lista de ‘momentos em que você engole seco feito Seu Madruga imitando desenho animado’, mas ficaria muito comprido pra um título, não é mesmo? Mas, no frigir dos ovos, é exatamente essa sensação que eu tenho só de lembrar dos momentos que enumero a seguir. Então, no maior clima de ‘Mufasa, levanta, pelamordedeus!’, vamos tecer considerações antes.

Gostaria de dar (UIA!) umas pinceladas (UIA!²) em momentos legais que ficaram de fora – mas não esquecidos), como o episódio da caricatura do Professor Girafales, quando todos (Professor, Dona Florinda e Quico) comem biscoitos deixando Chaves de lado, justamente pra discutir sobre a fome entre as crianças de rua no mundo (situação remediada no final, quando Chaves ganha um pacote de biscoitos inteiro pra ele, ao ser subornado por Quico com um sanduíche de presunto pra assumir a autoria do desenho em seu lugar). Há a clássica viagem a Acapulco, quando todos dão um jeito de ir, menos Chaves, que acaba sendo convidado pelo Sr. Barriga, já que Nhonho estaria com os escoteiros; ou até momentos fofinhos, como a “visita” das crianças à casa da Bruxa Dona Clotilde. Eles nem haviam entrado e já imaginavam um cenário aterrorizante, até serem surpreendidos pela velha senhorita que havia lhes trazido pirulitos. Lembro-me também do Seu Madruga cuidando da sobrinha de Dona Clotilde achando que era uma criança abandonada, ou mesmo o pitoresco aniversário do Seu Madruga... Mas, enfim, vamos ao que interessa. 

0,5- Menção honrosa: Ladrão!
Num mal entendido dos mais bizarros, Chaves leva a culpa, por um ferro de passar roubado, que fora encontrado por Quico em seu barril. Sem falar a verdade e só gesticulando (pra minha angústia até hoje), ele ouve a todo o elenco chamá-lo de “ladrão” (e um “seu ladrãozinho”, que chega a ser até sacanagem de tão humilhante esse diminutivo, hein!). Chaves vai embora da vila de cabeça baixa e com sua trouxinha no ombro. Depois que a raiva coletiva passa, todos o recebem muito bem e ele ainda admite que chegou a se convencer de que era o ladrão “por maiorias de votos”, mas que foi orientado por um padre a voltar com a consciência limpa e que rezasse pela recuperação do verdadeiro ladrão. Então, os objetos vão aparecendo de volta e Chaves ainda ganha um sanduíche de presunto do Sr. Fumado Furtado. 

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5- Chaves ‘rouba’ da festa do Quico para compartilhar com Seu Madruga
Porque está aqui: Mostra que, apesar das brigas, o sentimento geral na vila é de muita amizade, sobretudo entre Seu Madruga e Chaves, que são amigos numa relação quase de pai e filho.

Como foi isso: Chaves é o último a ser convidado para o aniversário do Quico, que, diz ele, precisa que alguém vá pra invejar todos os seus presentes. Rolam brigas e sugestões de brincadeiras – como toda festa de criança – até que Chaves vai pegando e guardando sanduíches e até do bolo não servido ele leva uma pataca. Apesar de sabermos que o menino Del Ocho vive com fome, poderia ser uma conduta desagradável, mas ele tinha uma boa intenção.

 Momento nó na garganta:  Ao fim do episódio, vemos que ele só estava guardando os quitutes para, à noite,  dividir com Seu Madruga, que por sua vez, saca uma garrafa de ‘refresco’ para completar o lanche. A simplicidade e singeleza dessa cena é de dar um aperto no coração.

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4- O Desjejum do Chaves
Porque está aqui: Reafirma que, mesmo sem ter muito, Seu Madruga tem um carinho muito grande por Chaves, a ponto de convidar-lhe para uma refeição que ele mesmo não costuma ter.

Como foi isso: Chaves amanhece dormindo sentado à porta de Seu Madruga. Chiquinha o encontra e acorda o pai para que cumpra a promessa de dar-lhe um café-da-manhã. Não tendo ovos em casa, pois, Chiquinha os havia quebrado para ver se tinha pintinhos (¬¬), Don Ramón encomenda que a filha vá até a venda da esquina e compre novos ovos. Nesse meio tempo, Quico e Nhonho armam uma mesa de ping pong no pátio (você já sabe no que dá essas situações de bolinhas e ovos, né?). Ou seja, Chaves continua sem comer até o dia seguinte, quando repete o gesto de sentar à porta de Seu Madruga.

Momento nó na garganta: Em determinado momento, Chaves apressa o pessoal para que providencie sua refeição e, nervoso, Seu Madruga o repreende por não agüentar esperar só um pouco pelo lanche. Ele retruca, pois já havia anos que estava esperando (seguido do gesto clássico ‘engole seco’ de Seu Madruga).
 
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3- Chaves pede que usem a fonte dos desejos para que tenha comida
Porque está aqui: Mostra como passamos a vida preocupados com nossos próprios problemas e mesquinharias do cotidiano, enquanto gente com problemas mais urgentes estão o tempo todo por aí sem que a gente lembre que existem. Tipo as pessoas do Brejo da Cruz, de Chico Buarque, saca?

Como foi isso: Chiquinha, aquela travessa, conta a Chaves e Quico que a fonte do outro pátio é uma fonte dos desejos (ela só queria catar as moedas pra comprar doces depois). O problema é que a notícia se espalha, e Francisquinha perde o controle do plano. Tudo se complica com Dona Florinda e Seu Madruga entrando no assunto, e, por picuinha, jogam moedas e desejam que tratores e mais tratores venham e atropelem uns aos outros.

Momento nó na garganta: Chaves os interrompe a guerra entre famílias e pede para que deixem de desperdiçar moedas com tantos “atoPRElamentos” e desejem que ele tenha ao menos uma refeição todos os dias. Todos ficam sem graça com suas presepadas e, cada um num momento, vão até a fonte e fazem seus pedidos em silêncio (está nacara que estão pedindo pelo pobre do Chaves). Nó na garganta nível “adeus, Mufasa” é pouco.

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2- Sr Barriga desiste de despejar Seu Madruga e Chiquinha
Porque está aqui: Nos dá conta de que mesmo sendo o grande mártir da série, o personagem que mais apanhou durante toda a duração do programa (sendo 99% desses golpes da vida vindo do Chaves), Sr. Barriga tem um enorme coração (além, é claro, do seu... sobrenome – já reparou que é dos poucos que têm um nome completo? Só perde para Dona Florinda e seu nome quatrocentão).

Como foi isso: Numa das muitas vezes em que Seu Madruga tira o senhorio do sério com tantos meses de aluguel atrasado, o parrudo empresário dá um ultimato à família do 72: Ou paga ou sai. Não tendo jeito de saldar a dívida, Seu Madruga começa a encaixotar suas coisas com a ajuda de Chaves e Quico. Em paralelo, Professor Girafales e Sr. Barriga conversam sobre o acontecido na casa de Dona Florinda. As crianças encontram um álbum de fotos dos tempos em que Meu Sadruga Seu Madruga foi boxeador, além de lembranças de tempos antigos na vila. O sentimento de nostalgia vai dando o clima de despedida.

Momento nó na garganta: Sr. Barriga dá uma olhada no tal álbum e repara que uma das lutas de Seu Madruga o fez ganhar uma aposta (porque havia apostado no adversário, que ganhou). Em agradecimento, Sr. Barriga perdoa a dívida e o deixa ficar na casa. Ao sair, Professor Girafales, que ouviu tudo pela janela (fofoqueiro), cobra explicações, pois, segundo o próprio rico rechonchudo, ele nunca tinha, sequer, assistido a uma luta de boxe na vida. Sr. Barriga confirma que nunca acompanhara lutas de boxe. Diante da expressão confusa do Professor, ele diz: “Se essa gente sair daqui, onde vão viver, hã?” e vai embora sob olhares de admiração do mestre Lingüiça.

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1- Sr Madruga confessa que comeu os churros
Porque está aqui: Só de escrever esta lista eu me peguei emocionado com a sensibilidade de Roberto Gomez Bolaños para criar cenas tão bonitas numa série, aparentemente, tão bobinha (fala sério, onde mais você vê gente de meia idade vestida de criança e acha tão naturalmente engraçado?). Então, a posição de campeã é, de novo, entre Seu Madruga e Chaves e, de novo, em relação aos impulsos gastronômicos do pequeno esfomeado carente. Mas essa tem um peso especial, vem de uma relação que já nos presenteou com máximas como “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” e “As pessoas boas devem amar seus inimigos”. 

Como foi isso: Os tempos estão difíceis, o que leva a uma situação inusitada: Seu Madruga e Dona Florinda se tornam sócios no promissor negócio de fabricação e venda de churros. Afora as confusões de sempre, crianças aprontam, Don Ramonchito apanha da velha coroca Dona Florinda e quaiz, quaiz, quaiz... A banquinha finalmente é instalada à entrada da vila. Em um dado momento, Seu Madruga precisa se retirar para o banheiro e deixa Chaves tomando conta. Ele lhe paga uma moeda pela ajuda. Aí, é quando vem a clássica cena do Chaves se passando por ele mesmo e por Seu Madruga (mudando de um lado para outro na banquinha) para comprar um churro, mais outro, mais outro...

Momento nó na garganta: Quando Seu Madruga retorna, vê que a banca está vazia, parabeniza Chaves pelas ótimas vendas e cobra a féria do dia. Ao notar que Chaves comeu tudo, ele o manda sumir dali pra pensar em como vai encarar a sócia. Pois, Quico passa, vê a banca vazia e conta para a mãe que vai lá conferir e gosta do que vê. Ela cobra sua parte (dela, não de você) ao que Seu Madruga insiste em dizer que ele mesmo comeu tudo (já em posição de defesa, pois sabia que apanharia mais que cavaleiro do zodíaco).


Mas não, Dona Florinda sorri e explica que Chaves já havia confessado tudo para ela lá dentro, mas achou bonita a atitude dele em proteger o menino do Oito. E o enaltece dizendo que dá gosto em ter alguém assim como vizinho “um homem!”. 

Chorei feito um ninja silencioso no escuro.

2 comentários:

Guilherme Madeira disse...

Sou fã de Chaves e Chapolin desde a minha entrada na adolescência, ou seja, há quase 25 anos! Desde a época em que existia o gibi deles, da Editora Globo, o livro ilustrado de figurinhas, e diversos outros produtos da série, incluindo o "óculos-canudo" do Chaves.
Para mim foi impactante a perda de um gênio, um mito do humor na televisão, no México, no Brasil e em todo o mundo! Bolaños sabia fazer uma série de sucesso e sem apelar para cenas ou linguagens vulgares, o que pôde cativar todos os públicos, desde crianças até a terceira idade.
Sobre a tua análise dos episódios que mais te deixaram emocionado, digo que também fiquei "mexido" ao assistir, principalmente o episódio do "ladrão". Ótimo texto!
Guilherme M. - 33 anos - funcionário público e estudante - Porto Alegre/RS.

Anônimo disse...

Deviam colocar um 6 lugar para essa matéria, pois também fiquei com um nó na garganta quando li. :)

Salve turma do Chaves!