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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Alex Kidd e 5 lições pra vida toda


É muito legal a gente se deparar com peças de nossa memória afetiva, a gente acaba juntando as experiências que tivemos desde então e ao mesmo tempo temos uma visão nostálgica e totalmente nova. Quando joguei Alex Kidd in Miracle World pela primeira vez, o personagem era o mascote da Sega (fabricante do jogo e do console), tão popular que vinha na memória do vídeo game, sem precisar de cartucho. Hoje, mais de 20 anos depois – e algumas jogadas igualmente frustradas – rá! – por meio de emuladores – andei refletindo em pensamentos que me vêm quando me deparo com jogos, filmes, HQs, o que for. Sabe quando você fica conversando consigo próprio analisando, tipo ‘olha só, esse bicho tá aqui só pra perturbar, se desviar dele e passar direto é melhor, igual na vida real’. Então, formulei algumas lições que precisamos saber para jogar Alex Kidd, e percebi que são lições que aprendemos com a vida. Na juventude, era só ir jogando e dane-se, depois do lanche era só recomeçar, mas agora, precisamos ponderar o momento de agir e o que vai ser melhor pra depois além do impulso do agora.

Lição Nº1 - Pegue toda grana que puder, porque você vai precisar lá na frente


Esse é um dos jogos onde recolher grana faz mais sentido diretamente na dinâmica. Muito jogo tem disso até hoje, mas sempre chega uma hora que fica mais fácil arrumar dinheiro ou qualquer que seja o material de troca por poderes, benefícios e habilidades. Em Alex Kidd a grana não é muita, você pode perdê-la por besteira e até usando o poder de atirar, pode desaparecer se estiverem duas caixas lado a lado. Até o raro continue do jogo era condicionado a ter uma quantia de reserva. Tenta abrir mão de uma graninha no nosso sistema capitalista pra tu ver se anda pra frente.

Lição Nº 2 - Se não sabe o que tem, esqueça


Se estiver de rolé e por aí e se deparar com uma caixa de conteúdo misterioso, passe direto. Não mexer não vai afetar tanto sua vida quanto mexer e arrumar problemas (a maioria das vezes, no jogo, saía um safado de um reaper/dona morte e te perseguia até você se afastar muito, deixando de explorar o cenário ou te alcançar e você ir pro céu dos Alex’s Kidds). Essa é a vida, se você não sabe no que tá se metendo, grandes chances de se dar mal nesse mundo. Arriscaer e se aventurar é muito lindo na teoria, mas na vida real, há que se avaliar muito os riscos.

Lição Nº 3 - Esforço desproporcional à recompensa


Uma das lições mais importantes pra nós que não nascemos em berço de ouro. Logo me vem à cabeça aquela motoquinha eXXXXperta (acho que o nome é Sukopako). Eu olhava ela naquelas telas de exibição com o jogo em espera e babava... comprei a primeira vez e... ZAZ! Bati numa pedra e perdi, tive que caminhar o resto do percurso, que nem é grande, mas é um saco de obstáculos. Ou seja, armazenei grana a primeira fase inteira e vi meu investimento não render nada em dois segundos. A vida tem dessas coisas, você tem hoje e amanhã, não tem. Tem que se esforçar de novo de modo a perder o couro, pra conquistar um biricutico de recompensa.

Lição Nº 4 - Falta de ética


Ao final de cada fase, geralmente, vinha um chefão. Os outros chefes mais comuns – tipo o javali que só corre em sua direção – até que tinham lá seu desafio, mas era mesmo coisa do jogo. Agora, quando vinha um daqueles caras com cabeça em forma de mãos em posição de jokenpo (o famoso pedra-papel-tesoura), aí dava treta. Os primeiros confrontos até que era só na jogatina, mas depois, quando retornavam em fases mais avançadas, liberavam cabeças voadoras, shurikens (estrelinhas ninja, noob) e outros apetrechos ao serem derrotados na boa. Quem disse que o mundo lá fora vai esperar você ter todo o queixo duro que precisa pra lutar? Que nada, vão tentar passar por cima de você se deixar.

Lição Nº 5 - Fique atento a tudo


Diz uma canção/rap angolana “a vida é uma peça de teatro, mas que não permite ensaios”. Fator comum a jogos das gerações passadas, tudo estava ali pra te gerar desafio e você não podia ir simplesmente no automático com a garantia de infinitos checkpoints e saves a hora que quiser. Perdeu, perdeu, parceiro e, como eu disse, nesse jogo, até o continue era raro. Bobeou, dançou.

 Conclusão


Pois é, é tipo isso. A vida ensina, mas ao contrário dos games, não é sempre que você pode começar tudo de novo e passar usando o que aprendeu antes. Cuidado. Engraçado como eu comecei a divagar sobre este texto de forma irônica, mas acabou me soando meio metalingüístico, sobretudo se pensarmos que pra termos jogado esse jogo na época em que estava na “crista da onda” (veeelho!), estamos hoje em condições desse tipo de reflexão. Nada de nostalgia ou pessimismo de velho arrependido, mas achei legal como esse jogo passou da euforia do vídeo game novo (foi meu substituto imediato pro Atari), abordou meu ódio e frustração (acho que só zerei esse jogo impossível uma vez e foi tão no susto que nem saboreei a vitória) e chegou à meditação de que ele, tal qual a própria vida real, têm tanto em comum, quase como referências ilustrativas.


Percebi só depois que essas lições estão, não necessariamente todas juntas nem na mesma proporção, em todos os jogos antigos, até pela questão de padrões que davam certo e eram ‘imitados’ entre si. E, a saber, foi ali que aprendi o que era jokenpo.  Agora fique com um gameplay que é a mais perfeita ilustração desta ideia do texto:




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