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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Guerra Civil II: O negro é o primeiro a morrer de novo

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Ser preto não é fácil quando a gente olha pras capas de revistas, filmes, novelas, etc... Sempre é uma brancaiada que faz parecer que vivemos na Suécia ou na Holanda, saca, um país de maioria branca com um negro aqui e outro ali. Já falei disso aqui muitas e muitas vezes. Mas agora o enfoque é outro, também já falado aqui, mas tem um gancho diferente, juro.

A questão é que Guerra Civil II vem com uma premissa interessante. Há 10 anos, a Marvel pegou influência no governo Bush - quando determinou o controle de informações pessoais alheias para prevenir o país contra o terrorismo - e colocou os dois pesos pesados dos Vingadores num conflito de ideias - e depois, de sopapos - acerca da liberdade de ser. Você deve se lembrar, ou pelo menos estar acompanhando a boa repercussão da leve adaptação cinematográfica de Guerra Civil: Uma ação descuidada de um grupo de heróis do quinto escalão da editora termina com um terrorista se explodindo numa região escolar, matando muita gente inocente e muitas crianças nesse meio. Rapidamente, Tony Stark reage propondo o cadastramento de todos os heróis para que sejam responsabilizados por seus atos e treinados de acordo com as normas do governo. Basicamente, seriam agentes federais.



Já o Capitas se posicionou contra. Ao contrário do que o senso comum propõe, seu nome e seu uniforme não fazem dele um capanga do governo ufanista, mas um defensor dos ideais que ergueram seu país, ou seja, a liberdade acima de tudo. Então, Capitão América passa a agir de forma clandestina e a antiga divisão de heróis e vilões muda, agora a divisão era pró registro ou contra. Mas no meio da treta toda, aparece um personagem de menor relevância apenas para ser morto por um andróide criado por Stark para simular os poderes de Thor. O sintozóide fica muito louco e lança uma marretada trovejante nos peitos do Golias. A essa altura, lendo minhas edições aqui, eu já tava me perguntando porque um personagem negro, minoria absoluta dentre os personagens de quadrinhos de todos os tempos, tinha que ser exterminado assim, só pra virar muleta dramática de roteiro? Não tinha nenhum outro personagem branco, desses milhares de figurantes de luxo? Fiquei boladaço, mas eu não podia fazer nada.





A Guerra Civil seguiu, o Capitas morreu, Tony Cachaça ganhou, mas saboreou uma vitória amarga e milhares de mega-sagas depois, temos Tony, de novo, contra um capitão... ou melhor, uma Capitã, Capitã Marvel. Agora a treta é outra: Um inumano (espécie de ser poderoso do universo Marvel, mas diferente dos mutantes) é descoberto na Terra e tem o poder de prever o futuro, mas não pode ter a mente lida. Carol Danvers resolve recrutá-lo pra criar uma unidade de prévia ação, evitar que desastres ocorram. Tony Pinga já acha que o garoto pode não ser confiável e lados vão se posicionando. Acontece que no meio do furdunço, morrem a Mulher-Hulk e Jim Rhodes, o Máquina de Combate e amigo de Tony Xiboquinha. Mais uma vez o confronto ideológico de dois heróis se agrava quando um personagem negro é atingido por um adversário muito mais poderoso do qual não fazia ideia de que ia enfrentar. Junte a isso ao que eu só posso achar que é uma menção ao fato, quando Rhodes leva um raio lançado pelo Visão que era pra pegar no Falcão (que desvia). Tipo, ia acertar um negro, então acertou outro por engano. Um ser super poderoso (Thor-Robô/Visão) atinge de forma exagerada um personagem negro desavisado (Golias/Máquina de Combate). A boa notícia é que War Machine não morre na versão cinematográfica.



Tipo, quando é pra matar alguém, eles matam o preto, já entendemos. O que me dá um pouco de revolta é quando as pessoas vêm reclamar de mudança de etnia em personagens antes brancos. Veja bem o que eu já falei antes em outro contexto, chiaram com o Tocha Humano negro no filme mais recente do Quarteto Fantástico, mas sabemos que nada na sinopse do personagem determinava que ele tivesse que ser branco, apenas foi criado assim visando seu público mais comum na década de 1960 nos EUAses. Agora o pessoal tá se rasgando por Tessa Thompson ser a Valquíria no vindouro Thor: Ragnarok. Ela é negra e vai interpretar uma personagem nórdica e a galera veio ao delírio. Eu, porque a mulher é linda e 'eles' porque Valquíria nunca poderia ser negra, sendo uma personagem baseada na mitologia nórdica. Sobre isso eu digo: RI-DI-CU-LO! Sabe porquê? Primeiro que essa coisa de etnia não pode ser levada ao pé da letra e a maioria dos personagens só é criada branca porque a maioria dos seus criadores são brancos, visando um mercado numa sociedade dominada por brancos, onde o branco é maioria.



Veja bem, se a etnia ou nacionalidade de um personagem precisasse ser levada a ferro e fogo, Thor não poderia ser interpretado por um australiano, Loki não poderia ser vivido por um britânico e indo mais longe, a descendente latina Jessica Alba não poderia ser a caucasiana Mulher-Invisível. Mas sobre isso ninguém chora. John Boyega protagonizou um Star Wars? Choradeira racista de fazer gosto. Ou seja, o problema não é mudar a etnia o personagem, é ser preto. A nova Hermione de Harry Potter (na continuação da saga, no teatro) é preta, ninguém deixa mais a mulher em paz mesmo a própria autora tendo vindo a público dizer que adorou a mudança e que ela nunca estabeleceu mesmo que tinha que ser branca. Aconteceu também com uma personagem de Jogos Vorazes. Soube de gente que inclusive tinha lido o livro, com um trecho bem detalhado sobre a cor da pele e textura de cabelos da personagem, ainda assim, se indignando com a atriz negra lá na telona.



Acho que a Marvel poderia usar seu viés mais realista pra aproveitar e usar isso em sua nova Guerra Civil. Mas, antes, poderia dar um jeito nessa contradição de agora Tony big apple ser o cara do contra, coisa que encheu a paciência de Steve Rogers na primeira série tendo até convencido o Homem-Aranha a revelar sua identidade e tals... mas de resto, eles poderiam mesmo usar essas 'coincidências' de roteiros que parece estar em algum manual do roteirismo pra filmes, séries e HQs. Teve até uma reunião de personagens negros meio que pra discutir que parada é essa de só preto morrer na bagaça. Pensa bem, se só aparecem uns 2 negros a cada 20 brancos, como somos tão azarados pra sermos os primeiros a levar o tiro na linha de frente?



Enfim, não vou ler agora, talvez eu acompanhe depois que estiver toda lançada, porque acompanhei a primeira e me ferrei tendo que comprar um monte de revistas periféricas pra saber de tudo que aconteceu na série principal, cujas revistas eram bem fininhas só com a linha principal, com a ação de verdade espalhada por milhares de tie-in's (aquelas continuações paralelas que respingam em outras séries).



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