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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mês da História Negra dos EUA



Nos EUAses, há um grupo abertamente racista, outro, abertamente neonazista e essas coisas. O país é sempre citado quando se quer falar no racismo aberto que lá ocorre, normalmente querendo negar que aqui a situação seja grave, mas lá, com tudo isso, uma família inteira - diversas vezes - pode ser retratada em seu cotidiano, sendo negra, e isso não é ofensivo. Aliás, porque tanta gente adora as séries das imagens acima, e outras, mas quando se fala em ausência negra na TV brasileira, estamos vendo chifres em cabeças de cavalo? Lá que o negro é minoria é natural estarem presentes na TV e qaui não?

No Brasil, nada é declarado e o que é apontado como racista, tentam maquiar de opinião, liberdade de expressão ou piada. Aqui, por um ou dois dias que se tira pra falar sobre a situação do negro, somos chamados de racistas... porque denunciamos o racismo (?!). Claro, isso é uma tentativa boçal de deslegitimar o reconhecimento do racismo dessa mesma gente que quer ser, mas não quer se assumir (lembrando que eu não acredito mais em desinformação, dado o advento da internet e as pesquisas sobre o assunto estarem disponíveis por toda a rede a um clique ou dedada – UIA! – no celular).

Morgan Freeman

Pois bem, falemos sobre Morgan Freeman. O talentoso ator negro estadunidense, todo ano, desde 2009, vem sendo sistematicamente usado tanto pra um racista dizer que ele é um “negro consciente”, quanto para que o próprio negro seja convencido “por um dos seus” comprando aquele discurso “vamos parar de falar em racismo, que ele some”. Primeiro, devo explicar que ele falou sobre o MÊS DA HISTÓRIA NEGRA estadunidense e não do nosso 20 de novembro, DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA do Brasil , ok? A entrevista que editaram tendenciosamente é sobre o fato de ele não querer que a história do negro seja destacada da história do país de um modo geral. Como eu já escrevi ao site Mundo Negro, é compreensível, visto que o negro ergueu o país lá, como fez aqui, logo, não faz sentido celebrar em um único mês a participação da parte afro da população, mas é um pouco mais complexo.

Entendo que Freeman (interessantemente, ‘homem livre’, em tradução livre) não queira ser relegado a um mês, o menor do ano, para falar de uma história que é a própria história de seu país, mas datas assim precisam ser estabelecidas, enquanto existirem pessoas capazes de discriminar alguém tão cinicamente a ponto de achar que é engraçado ou natural. Não é apenas constatação histórica, é conscientização. E é aí que nossa luta se assemelha à deles, mas aqui, existe um só dia para a conscientização e não celebração, aliás, confusão particular nossa, quando tentam fazer tudo parecer uma festa, sobretudo a mídia. Seria um tremendo barato ter o ano inteiro pra se discutir abertamente as origens do racismo e a aplicação naturalizada dele na sociedade, chegaríamos muito mais facilmente a soluções, só que infelizmente, isso não está sendo possível. Então, um dia, um mês já é um começo.

Mas de onde veio essa história de mês da história negra estadunidense?


A data – também celebrada no Canadá – tem dois pontos de partida: Abraham Lincoln (sim, o 16º presidente estadunidense e caçador de vampiros) e Frederick Douglass, um ex-escravo que se tornou estadista e escritor.

Abraham Lincoln
Lincoln(12/02/1809 – 15/04/1865) – que tinha ascendência indígena, mas uma preocupação maior em uma União fortalecida entre os estados - foi o presidente dos EUAses durante a Guerra da Secessão, resumidamente, o conflito entre os estados do norte (abolicionistas) e os do sul (escravocratas). Quando os sulistas resolveram romper com o norte e fundar uma espécie de país dentro do país, o norte entrou em guerra com eles pela preservação da União e desenvolvimento industrial, econômico e tudo mais. Pra isso, teriam que banir a escravidão, coisa que os sulistas não queriam. Deu-se a guerra, o norte ganhou e Lincoln promoveu a passagem da escravidão à ilegalidade até ser banida. Brilhou.

Frederick Douglass
Já, Douglass (14/02/1818 – 20/02/1895) nasceu, vítima do regime de escravidão e, depois de diversas situações de enfrentamento de senhores, alfabetização clandestina e trabalhos forçados, conseguiu fugir, constituiu família, escreveu livros autobiográficos até ser reconhecido como um grande abolicionista. Cristão, chegando a romper com algumas igrejas por excluírem-no de sacramentos por ser negro, ele alegava que só poderia haver plena justiça com todos libertos na fé em Cristo e não com diversos religiosos endossando argumentos bíblicos que justificariam a escravidão. Também foi tabelião e fiel conselheiro de Abraham Lincoln.

Carter G. Woodson

O principal nome da referida data é Carter Godwin Woodson (19/12/1875 – 03/04/1950), primeiro a levantar a necessidade de haver um evento que conscientizasse e reconhecesse o negro como parte integrante e fundamental da história dos EUAses.

Carter Woodson
Filho de africanos escravizados, seu pai lutou na Guerra Civil (Secessão) e mudou-se com a família para onde havia uma escola para negros. Mesmo não podendo frequentar, por ser muito pobre, Carter estudou por conta própria e foi evoluindo até se tornar professor e diretor do Douglass High School. Já como professor universitário, ele publicou livros sobre a história do afroestadunidense enquanto alertava à sociedade sobre a ausência e/ou pouca representação nas escolas. É tido, aliás, como o primeiro acadêmico a, de fato, estudar e propor a – inicialmente – semana da história negra de lá.

Essa semana seria a segunda de fevereiro, pois, como você deve ter reparado, tanto Lincoln quanto Douglass nasceram em dias muito próximos do mês. Isso começou em 1926, tendo se tornado o mês inteiro a partir de 1976. No Reino Unido – onde Douglass esteve fugindo de possíveis ataques de seu antigo senhor (exposto como tal em um de seus livros) – o mês é outubro.

É isso, essa é a história daquele vídeo editado e maldosamente transcrito como se Morgan Freeman falasse de lá e aqui fosse a mesma coisa. Racismo não é fada ou gnomo, não existe apenas se você acreditar. É como uma fratura exposta, nem que você vire a cara, só colocando um band-aid não vai curar, nem limpar sua consciência em relação ao que você pensa, mas sabe que pega mal, por isso, prefere se mascarar de opinião ou piada. No mais, o mês da história negra estadunidense, a marcha pelos direitos civis e os Panteras Negras, isso tudo, além de Mandela, por exemplo, são grandes exemplos de como confrontar o racismo ao invés de ‘mudar esse assunto chato’. O país tão criticado por seu patriotismo exacerbado, desejo bélico e ganância econômica, além da necessidade imperialista de se impor seu modo de vida idealizado aos outros é, justamente, onde há uma das histórias mais aguerridas contra o racismo fora da África.


Já aqui no Brasil, onde todos somos humanos e tenta-se tirar a identidade do negro dizendo não haver negros, um bando de medíocre fica achando que a piada, a opinião, o discurso, a proibição de acesso, são apenas coincidências do espaço-tempo, que cada um já nasceu ocupando seus devidos lugares de privilégios e desvantagens. 

O cinismo está se arregaçando, cada vez que falamos no assunto, vemos que ele não é inexistente, apenas estava escondido e confortável. 

A gente aponta e o racista dá triplos carpados pra trás soltando fumaça como vampiros borrifados por água benta.

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