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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Linda, Lizzie e o preconceito travestido de piada

Se você tem que explicar que não é preconceito, é porque sabe que é.
Sempre que alguém precisa avisar que seu comentário preconceituoso é “só uma piada”, é nítido sinal de que É preconceito puro e sintoma de que a pessoa sabe disso. Do contrário, não haveria necessidade de explicar, ou, melhor ainda, não haveria a tentativa cara-de-pau de tentar se redimir com esse fraco argumento. Exposto o cânone da faceta cruel da humanidade cínica, vamos aos fatos.

Pegando carona no autismo da personagem Linda – da novela Amor à Vida – e na folclórica obsessão do senso comum em estar em um relacionamento afetivo, uma página que se diz de humor publicou uma “piada” fazendo referência à dificuldade de socialização do autista (Linda) e seu êxito em encontrar alguém que a ame, contra todas as probabilidades, e até lógica, segundo alguns especialistas.

Comportamento violento ou discurso de violência e sexo. Afinal,
para o Facebook, nada mais é demonstração de preconceito.
Apoiadores do discurso "é só uma piada".
O preconceito e a necessidade de se usar qualquer coisa no desespero de arrancar algumas risadas nervosas de uma plateia “oba, que bom que não sou eu na berlinda” estão em toda parte. Hoje em dia, a diferença, é que as pessoas estão mais conscientes dessas demonstrações de desrespeito. Chamam de patrulha, politicamente correto e outras baboseiras pra desqualificar a argumentação dos observadores, mas liberdade de expressão não deixa ninguém acima do bem e do mal, ao contrário, traz a pessoa para a possibilidade do direito de resposta e , se for o caso, penalização. Interessante é que o Facebook não considera preconceito como motivo de denúncia, pois, exibe opções redundantes sobre ódio e violência, mas não fala sobre preconceito sutil. ou seja, parte do pressuposto que preconceito só pode ser por meio de agressão ou não está nem aí pra isso mesmo? 

Pois bem, quando a pessoa explica que é pra levar na esportiva, é como quem é pego fazendo m*erda e apela “não conta pra ninguém que eu to fazendo m*erda”, ou seja, demonstra preconceito, falta de consideração ao próximo e a falha de caráter em se preocupar se vai ser julgado, mais do que se vai ofender. Em tempo, sei que Linda é só uma personagem, mas o autismo não é ficção. Aliás, tremenda babaquice essa de querer escalonar quem merece mais estar namorando ou casando, já que o que importa na hora H não é beleza, peso, condição física ou fisionomia. Não existe isso de ‘bonito demais pra estar solteiro’ ou ‘feio demais pra estar namorando’, e nem suas variantes ‘feia demais para namorar aquela pessoa bonita’ ou ‘merecia coisa melhor fisicamente’.

Isso nos leva ao próximo tópico: As ‘piadas’ irresponsáveis quanto a fotos alheias. Já falei várias vezes por aqui que uma piada, como qualquer peça de comunicação do ser humano com a sociedade, já nasce carregado de ideologia. Querer empurrar essa falácia de “é só pra rir” é muita ignorância ou um cinismo nível ninja silencioso no escuro. Dito isso, pense que aquela pessoa gorda de biquíni poderia ser uma parente ou um amigo seu. Por hora, tente fazer esse exercício de usar a mente e veja, em vez de uma pessoa ridícula, apenas um ser humano que cometeu o “pecado” de publicar fotos próprias, como todo mundo faz, mas não teve a decência de pedir a SUA opinião, se poderia expor tamanha cara-de-pau de querer agir feito gente normal.

Já pensou? Já tentou ver essas pessoas gordas, desdentadas, magricelas, cabeludas, mal vestidas, etc, como conhecidas suas? Você gostaria disso? Você acharia legal meio mundo distribuindo essas imagens para que a outra metade apontasse apenas pra se sentir superior rindo de que meles fora programados a acharem ridículos? Isso me faz lembrar de outra “piada” (calma, uso aspas porque ainda não encontrei a palavra certa pra essa aberração), dessa vez, sobre Lizzie Velásquez, a “mulher mais feia do mundo”. Frequentemente, há anos, vejo fotos dela sendo espalhadas internet afora co o único intuito de ilustrar piadas sobre feiúra.

Isso aí acima é uma piada? Eu acho uma babaquice.
Ela é uma pessoa, não um instrumento ou um desenho
animado pra fazerem piadas.
Na boa? Ela, após ter imagens suas publicadas, já leu receitas de como se matar, de como poupar as pessoas de se cegarem ao ter uma visão de sua esquisitice e perguntas sobre os motivos de os pais dela não terem abortado. Pareceu piada ainda? Sentiu necessidade de explicar que você só reproduziu um pensamento comum da sociedade como se fosse sua opinião e defendendo como certo por maioria de votos? Bem, Lizzie tem, hoje, 25 anos, nasceu seis semanas antes do previsto e com uma síndrome genética rara. Contra todas as previsões pessimistas dos médicos, ela vingou, se formou em Comunicação (sim, ela é colega minha, Rá! CHUPA!) e já vai para seu terceiro livro, além de palestras motivacionais.

No frigir dos ovos? Piadas que usem pessoas inocentes como ferramenta pra arrancar risos de vergonha alheia são babaquice, na minha inútil opinião, e se as pessoas se colocassem mais no lugar do próximo, muitos metidos a comediantes já teriam achado um talento verdadeiro pra fazer rir ou, no mínimo, teriam admitido que não têm graça nenhuma se não podem ofender. Aliás, ofender e, como todo preconceito, deixando informações de lado que poderiam mudar o rumo da “piada”. É como se você visse seu irmão sendo alvo de piadas por alguma coisa que você sabe que lhe dói e tentasse explicar aos outros, que não sabem disso, apenas querem alguém pra descarregar suas frustrações.

Fique com uma declaração de Lizzie e – por tabela – um resumo do que eu penso sobre essa cagação de regra do que é bonito, feio, normal, marciano e social:

Woman That Cant Grow Fat Lizzie Velasquez 02 Aprendendo com Lizzie Velasquez, a mulher mais feia do mundo"Vocês querem saber? Eu tive uma vida realmente muito difícil. As coisas foram assustadoras, foram pesadas. Mas minha vida está nas minhas mãos. Eu posso escolher fazer disso algo muito ruim ou algo muito bom. Eu decidi ser orgulhosa da pessoa que sou, de estar na pele em que estou. Me sinto especial. Posso não enxergar de um olho, mas enxergo do outro. Posso ser magra demais, mas meu cabelo é ótimo. E pode ser que eu não pareça com a Kim Kardashian ou todas essas pessoas nas revistas ou as estrelas de cinema. Realmente não me vejo assim. Mas não me importa. Ninguém tem que parecer como uma esplendorosa celebridade. Seja quem é e sinta orgulho disso. A melhor forma de se vingar daqueles que julgam e te menosprezam é contra-atacar com seus méritos e conquistas".

Depois disso, querer escolher onde é o lugar de gente bonita e feia fica meio ridículo, não é? E se você continua a se prender a conceitos que ninguém se enquadra, faça análise, o mundo é muito grande e você se impressiona por uma minoria absoluta na TV, na capa de revista e na internet. Ah, cresça desse pântano de amargura.




Fonte: OBVIOUS.

Um comentário:

Karla Magalhães disse...

Sou mãe de autista e não aceita nenhuma piada com autistas! Nenhuma!
E a Linda não poderia se casar porquê?? Não quero saber se é página de humor! Não aceito e pronto!!!