Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Porque me tornei um 'chato'...


Chato, esquerdopata, feminazi, comunista negro vitimista, querendo transformar o Brasil em Cuba... Bem, muita coisa aconteceu no meu conhecimento empírico, muita coisa eu vivi na pele e tentei por anos fingir que nada acontecia, que era só uma maneira de olhar e que tudo não passava de questão de opinião. Vou pular os ‘early days’ e vou direto ao ponto da história onde minha militância, se não acordou, pelo menos, foi cutucada (UIA!), tipo quando passamos uma linha qualquer no rosto de um amigo dormindo pra ele se estapear achando que é um mosquito. E se a mão tiver farinha de trigou o creme de barbear pra ele se lambuzar, melhor... ah, vocês nunca fizeram isso em viagem de casa de praia e essas coisas? Aff... bem, voltando ao assunto. Eu, assim como todo negro, já tinha percebido que era diferente, ou melhor, que era tratado de forma diferente (e nunca é, reparem, de uma maneira positiva).

Até que cheguei aos dois últimos anos do segundo grau (no meu tempo se falava assim ainda) quando tive um colega – que se tornou meu amigo até hoje – que tomou uma atitude, até então, pra mim, inusitada. Um professor nos passou exercícios de um colégio-curso onde também lecionava, usando-os como referência para preparação para nossos possíveis vestibulares. Daí, esse amigo, me grita assim: “NÃO, PORQUE NO PH NÃO TEM NEGRO!”. Ninguém entendeu nada, mas, por aquele meio segundo de silêncio antes das habituais zoações de uma turma de eletrônica com 20 adolescentes marmanjos, com maior número de calçado do que de Q.I, eu refleti e entendi: Àquela altura, o referido colégio mantinha uma campanha de matrículas abertas na TV onde a turma inteira era composta de alunos brancos, boa parte loira, vários de olhos claros... nenhum negro. Nenhum mesmo, nem aqueles que se aplica colorismo de ‘moreno’.


Comecei a reparar nisso tudo. Saca, Neo quando ressuscita na Matrix e já consegue enxergar aqueles códigos de modo a ver o sentido da coisa? Pois é, naquele momento eu percebi que havia uma outra maneira de lidar com o racismo que não se fazendo de piada pra parecer que a porrada da discriminação dói menos. Ainda não seria, nem de perto, o momento que eu acordaria de vez, ainda passaria muitos anos com medo de ser tachado de chato, deixando pra desabafar apenas com as poucas pessoas que tinham coragem de falar no assunto ou nos meus escritos (músicas, redações, poesias...). Nada perto de realmente acordar, repito, pois, minha opinião contra cotas pode ser vista até hoje aqui mesmo no blog (mantenho todo o histórico como um mural do orgulho de ver o quanto mudei e pra mostrar que é possível acordar, sempre há um momento pra cada um sair da Matrix).


Bem, então porque eu não acordei se eu tinha uma influência tão positiva, mais do que isso, afirmativa ao lado? Simples, ele passou a ser chamado de ‘o neurótico’ e eu não queria esse rótulo pra mim. Então, conversávamos entre nós, mas como a maioria da turma não era negra – olha o colorismo de um colégio particular de subúrbio – era mais fácil falarmos de música e futebol (ainda mais num ano de Copa, como foi aquele fatídico 1998). E foi assim que evitei, neguei meu simbólico Cristo preto por mais de três vezes, sempre ali, mas nunca expondo e, quer saber? Foi melhor assim, pois se eu acatava o senso comum de que cotas eram favorecimento e assistencialismo, o que eu traria pra militância que não fosse uma bosta pegajosa e fumegante? Nos tempos de hoje eu poderia ter tirado fotos comendo bananas e dizendo pra negada parar de se fazer de vítima contra a liberdade de expressão alheia. Caras... que bom que fui ignorante em tempos pré-internet. Antes calar-se e deixar as pessoas pensando que você é um idiota do que abrir a boca e deixá-las com a certeza, não é isso? Rá! Enfim...

Foi assim que segui uma sequência de muita procedência reparando o racismo muito mais perto do que nos documentários sobre o assunto ou a programação da TV e capas de revista. A púnica hora que tínhamos mais que 5 representantes numa novela era em novela de época onde se ambientava a escravidão, quando acontecia, porque depois, talvez por defasar o tema e não ter mais desculpa pra chicotear mais os dorsos negros, a TV passou a ambientar novelas de época no pós-escravidão, assim, você tinha negros jogados pelos cantos sem ter que mostrá-los por mais de 5 minutos. Foi nessa época que conheci – de fato – Racionais Mc’s (quase fundei um grupo musical com mistura de rap e outros ritmos, um quase farofa carioca, do, hoje, pelezado, Seu Jorge). Depois, vim aprendendo outras coisa.


Por exemplo, foi dali até uns 3 ou 4 anos depois que me tornei um suspeito, a ponto de perguntar – lá pela 17ª vez que fui parado pela polícia indo pro trabalho, pro lazer ou apenas descendo do trem na saída da estação: “Aconteceu alguma coisa, policial?” só pra ser respondido “temos ordem de parar jovens negros de 17 a 23 anos”. Se todo camburão tem um pouco de navio negreiro, toda ‘dura’ tem MUITO de leilão escravo do Valongo. Só não tentaram abrir minha boca pra mostrar meus dentes, mas olhar meu rosto de vários ângulos, perguntar de onde vem, onde mora, pra onde vai e pedir identidade, tudo foi feito. Inclusive, numa dessas, chegaram a mandar eu abrir as calças e tirar os sapatos, só porque mostrei meu descontentamento numa revista ilegal, mas que ninguém tem coragem de falar. Não tinha.

Dali pra cá, fui lendo, aprendendo a argumentar, confrontar (vê se alguém me manda meme de ‘nego isso ou aquilo’ ou se fala do meu cabelo com desprezo por perto?) e o mundo mudou pra mim. Não era mais aquele lugar opressor onde coleguinhas da escola tinham nojo de pegar na minha mão na brincadeira de roda com medo de se sujar, onde me viam sem camisa brincando e me comparavam a um menino de rua – só porque era preto, porque os coleguinhas brancos nunca ouviam – e não tinha que ouvir em toda brincadeira: “Você vai ser o filho do Mussum/Tião Macalé/Jorge Lafond”, os únicos negros em alguma evidência pop na minha infância e, reparem, todos, de alguma forma, caricatos. Sim, amigo saganauta (hein?!) faltam representantes ‘normais’ pra nós. Isso ou ouvir algum adjetivo referente à nossa pele pra ‘desculpar’ o uso de um personagem branco pra nós. Sempre o ‘superman depois do incêndio’ e essas coisas, como se nossa cor não viesse de dentro, mas brancos afetados por algum ‘acidente’ como tinta, queimadura e outros artifícios incluindo a bizarra associação à noite ou bebidas de cor similar, tipo ‘ele nasceu de noite’ ou ‘bebia muito café’. Sério, caras? Sério.


Então, por isso me tornei um adulto chato em militância chata, esquerdopata, comunista negro vitimista feminazi e outros apelidos imputados por quem prefere o status quo da sociedade sob hegemonia branca, rica, hétero e essas coisas. Sempre fui o que fazia amizade com o colega novo – quando este não enveredava pro lado babaca da turma me usando como primeiro alvo – e até hoje sou assim. Não sou muito de ser ‘o melhor amigo’ de alguém por isso, detesto panelas e essas experiência me enriqueceram em compreensão do outro, além da minha fé que tem por doutrina básica prestar a caridade e amar ao próximo sem desculpas. Pra mim, enquanto tiver gente morando na rua, não tem país rico. Tem gente rica dentro do país. E isso só interessa ao próprio rico. O que me importa isso? Tem gente pobre que acha normal defender isso, mas eles não pensam, então, não se culpa um ignorante por sê-lo. É como culpar um pombo por cagar no seu carro.


Sou um chato, sou aquele que chega e causa olhares constrangedores e falas de canto de boca, que obriga preconceituosos a reverem suas falas e mastiga com gosto todo reaça que tenta lançar algum papo senso comum na inocência de que eu não vá ter um parecer altamente sociológico pra rebater e esmagar feito barata.  E sabe porque eu gosto de ser? Porque nunca tive uma orientação em casa ou na escola sobre como lidar com isso, no maior estilo ‘lei pelé’, de deixar o assunto pra lá, ser um ‘bom crioulo’ sob carinhos do racista e não assumir-se negro. Mas tenho parentes e amigos, amigo, gente que ainda em idade curta já ouve as bizarrices que eu ouvia, mas hoje, temos condições de denunciar, de botar a boca no mundo, não depende só da mídia convencional, o que a Globo ou o SBT omitem na Tv, na internet vira um tsunami e eles mostram, ou ficam respirando fundo esperando passar. Não passarão!

Um comentário:

Liziane Guedes disse...

Muito bom!!
Me representa com os teus escritos!
Militantes chatos, alguém precisa sê-lo!
#Ubuntu