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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Malandramente, ela não é obrigada a nada, mané!



Malandramente, de Dennis DJ, Nego Bam e Mc Nandinho é um sucesso instantâneo, não há como retrucar. Beleza. Mas se você parar pra analisar a letra (eu sei, parece inútil num hit que só visa o entretenimento imediato), vai notar que há um forte traço cultural do velho costume machista do homem achar que a mulher deve-lhe alguma coisa por ser cortejada, ou mesmo sua mera atenção, qualquer coisa, enfim, e, nesse contexto, a tal coisa seria o sexo em troca da balada bancada pelo machinho de mamãe.

Explico. Quem não conhece - ou não é ele próprio - aquele tipo que acha que a mulher que aceita um convite pra sair, deve retribuir a 'honra' cedendo aos anseios sexuais do dono da carteira? Aliás, eu já conversei com amigas que admitiram não dizer nem sim nem não pra continuarem obtendo regalias, justamente, deixando o bonitão naquela expectativa de que a qualquer momento seria agraciado com um favor sexual. É o machismo fazendo o que faz de melhor: Mostrando que ele se desenvolveu por uma necessidade do homem de se sentir no controle (o que pra mim só prova que o homem é o fraco quando precisa disso).





Vamos analisar a letra?

"Malandramente / A menina inocente / Se envolveu com a gente / Só pra poder curtir "
Acho que ele está sendo irônico nessa parte ou foi mais inocente que menino descobrindo de onde vêm os bebês. Pensa comigo, gafanhoto, ele tava crente que ia se dar e nem cogitou que a mulher pudesse realmente só querer sair. Tá,eu sei que o mais comum é a malícia, mas estamos falando de costume social e não do que a mídia induz.

"Malandramente / Fez cara de carente / Envolvida com a tropa / Começou a seduzir"
Aí, bem possível que tenha acontecido uma deturpação de intenções pela vontade do cara... Fácil deduzir que neste momento foi outra parte do corpo dele que assumiu a atividade primária de pensar (se é que vocês me entendem). Tipo um conhecido meu que, num carnaval perdido em Cabo Frio - RJ, associou o fato de sua namoradinha da época ter aparecido de saia pro encontro, o que pra ele já era a legenda pendurada no pescoço de que estava pronta 'pro abate'. Ele se frustrou muito, mas isso é papo pra outra hora.

Malandramente / Meteu o pé pra casa / Diz que a mãe tá ligando / Nós se vê por aí
A maldade já se alastrou há tanto tempo pelo mundo que sair pra se divertir sem envolver sexo já tá fazendo algumas pessoas parecerem hipócritas (naquela distorção de significado que já escrevi aqui no blog) e até dissimuladas. Tipo, 'não quer dar? Pra que veio, então? Só pra gastar meu dinheiro?'. Vejo muito isso por aí. Tenho amigos homens e nem todos são engajados na missão da igualdade e respeito. Acham que perdendo os privilégios do machismo vão 'dar moral' pra mulher.

Ai Safada! / Na hora de ganhar madeirada / A menina meteu o pé pra casa
E mandou um recadinho pra mim / Nós se vê por aí...
E aí, viemos à cereja do bolo, quando Nego Bam resume (cantando muito bem, diga-se) toda a frustração do taradinho. Quer dizer, o cara gasta uma grana, dá atenção, chama pra sair, ela aceita e não vai dar? Cuma?! Assim não tem machinho que aguente! Fora que pela expressão popular, ele já associou que sua 'madeira' é uma dádiva concedida às sortudas que ele convida pra sair, já que ela ia 'GANHAR' a tal madeirada. Desfeita tamanha que não teve outro jeito se não xingar a 'SAFADA'.



Tem homem que é carente, tão carente, que precisa de uma afirmação feminina pra se sentir menos carente... aí, finge que se acha, porque não pode parecer que dependeu de uma mulher pra se sentir bem. 

Por falar na personagem, obrigado, meninos, por trazerem para a produção bailarina Pamella Gomes.




Peraê, só mais um pouco de Pamella Gomes...



Tá, já podemos prosseguir...

Esse texto é uma brincadeira? É. Porém, vale a análise, pois a gente acha que música é mero entretenimento, mas suas letras são retratos fiéis de nossos hábitos, culturas e da nossa sociedade em si. Quer mais fiel retrato de um tempo do que aquilo que é feito enquanto ele acontece?

Fica o alerta duplo: Primeiramente, crie o hábito de prestar atenção numa letra de música - seja qual for, sem preconceito - enquanto texto, enquanto a mensagem que é e não só um pretexto pra ter batida e instrumentos tocando. Se possível, repasse a letra falada, sem a divisão melódica... melhor ainda se for lida como um texto. Assim a gente pode perceber esses detalhes de conteúdo ou mesmo os reflexos de nossos costumes sociais. Por exemplo, tem letra que traz mensagens mais complexas em suas entrelinhas, como Vinícius de Moraes em Canto de Ossanha: "O homem que diz sou, não é, porque, quem é mesmo, é não sou" . Captou o tanto de conteúdo que o poetinha deixou numa frase aparentemente redundante e prolixa? Percebeu que se ele fosse esmiuçar esse trecho dentro da letra, ficaria um verdadeiro testamento? Uma bíblia!

Segundamente, não é porque a mulher dá atenção pra um homem que ela tem a obrigação de dar algo mais em retribuição a qualquer convite. Dá se quiser. Faz se quiser, faz o que quiser. Não, não sou um homem desertor, traidor da espécie. É que não gosto de sistemas de opressão, muito menos os que naturalizados a se passarem por obra da natureza. Além de ter sido criado essencialmente por mulheres, o que me faria muito mal pensar que estou tratando a 'espécie' que me criou como seres inferiores, meras reprodutoras. E tem muita jovenzinha com quem convivo, né? Mais do que motivo pra ter responsabilidade de ensiná-las que não é obedecendo vontades machistas que vão ser valorizadas... é bem o contrário. 

Malandramente, vamos desconstruir esses hábitos boçais de escala de valores sociais diferentes entre piupius e pepekas. A mulher não obrigada a servir aos anseios masculinos pra mostrarem valor ou parecerem descoladas. Se quiserem, fiquem à vontade pra escolher isso por sua própria vontade. Aliás, é outro problema do machismo: Negar à mulher o direito natural de sentir desejo, tesão sem aquele costume religioso de apenas aceitar o sexo para reproduzir depois do casamento pré-programado desde o nascimento. Enfim, vamos lá que o jogo segue e a coisa não pode terminar em pizza... ou pode?.

Bom mesmo é pedir pizza malandramente. Rá!





Admito que a música é divertida e depois da décima nona vez que você ouve ela na festinha fica contagiante (e a cachaça ajuda), mas... Ela tem todo direito de ir embora sem "ganhar" "madeirada", ok?

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