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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Black-Ish e a tradução mais bizarra de todas


Sabe quando um pequeno detalhe tira todo o peso do sentido de algo? Tipo, uma vírgula que muda uma frase ou um penteado que muda o rosto de alguém? Pois bem, isso acontece com uma série em específico muito legal e eu vou explicar qual é o problema.

Entendendo a série

Black-ish é uma série daquelas típicas ‘sitcom’, mas – graças a Olodum – não tem risadinhas forçadas, muito menos as piadinhas forçadas que as estimulam na edição. É a história de uma família negra de classe média alta e seu ‘líder’ tentando passar para seus filhos a cultura de negro do subúrbio que ele viveu, mas não seus filhos, dada a condição financeira/social a que ele pode lhes proporcionar.

Tudo é interessante ali, porque a esposa de Dre (o pai da família), Bow, é filha de uma mulher negra com um homem branco, então também entra a questão multirracial (que aqui no Brasil é mais tipicamente miscigenada), o que também gera situações interessantes para ela mesma e para seus filhos (sério, assista ao episódio em que ela se vê em crise de identidade por ver seu filho namorar uma branca e a explicação animada de como a negritude mestiça é vista/se vê socialmente lá). Também tem a questão do consumismo e poder aquisitivo de todos e o modo como é mostrado que negros que ascendem socialmente tendem a se esquecer de suas raízes passando a conviver com mais brancos e com melhor situação financeira.


Mas então qual o problema, Saga?

Oras, gafas (diminutivo carinhoso para gafanhoto), o problema é que no Brasil, não temos uma cultura de mídia voltada para o negro como existe nos EUAses. Lá, mesmo que a maioria raspe a cabeça, estique os fios ou mesmo use perucas de cabelo lisos, ainda há uma forte noção enquanto grupo sociocultural com identidade e público próprios. Lembremos que lá teve uma guerra civil e conflitos urbanos por direitos civis dos negros. Aliás, lá, negros são minoria, não só em representação social e política, mas também em quantidade populacional (pouco mais de 10%, até a última vez que li sobre o assunto), então, lá, o branco é o público ‘top of mind’, aquele principal que a mídia se interessa.

Sendo assim, a série, enquanto produto comercial, é feito para negros, em primeiro lugar, e demais raças que se interessem pelo assunto. Ao contrário daqui, não existe segmentação, o branco sempre é o priorizado, apesar de o público que assiste aquie é negro/pardo e é mais de 50% da população. Então, ocorreu um problema na tradução que, acho eu, na minha inútil opinião, tenha a ver com tudo isso: A falta de representatividade significativa, falta de conscientização dos responsáveis e traduções ruins.

A tradução não é lá essas coisas

Sempre falo, e já escrevi neste blog, mais de uma dúzia de vezes, que a sociedade – aqui, nos EUAses e em todo o mundo – o público privilegiado sempre é o branco. Logo, o branco é o ‘normal’, enquanto nós, negros deste exemplo, somos o ‘exótico’, aquele que é visto como um brasileiro com ressalvas (lembro logo que racistas me mandam ‘voltar pra África’, mas não pensam em ‘voltar pra Europa’). Enfim, sendo assim, a série ganhou uma tradução, no mínimo, preguiçosa, de tão  genérica.

Eu falo, porque, o branco sendo o público-alvo da mídia brasileira, seria normal não quererem abordar o tema ‘negro’ no título nacional, afinal, infelizmente, muito negro aqui ainda acha que deve viver à sombra do branco, e as emissoras são comandadas por brancos ricos que não se interessam (lembra do horrível Sexo e as Nega?). Só o dia em que o negro abrir a boca pra gritar, todos ao mesmo tempo, que queremos nos ver mais representados. Aí, vão se ligar que somos maioria dos consumidores do país, mas estou divagando. Colocaram o nome, em português, de ‘Família Desajustada’.


Mas o que tem a tradução, afinal, Saga?

É o seguinte, se você traduzir 12 years a Slave como ‘Um tempão ralando’, daria a noção de que o protagonista passou 12 anos escravizado? Então, não seria uma boa maneira de traduzir o emblemático  12 Anos de Escravidão, né? Ou Amistad. Imagina se traduzem o filme como ‘Um navio muito louco’. Não fala que se tratou de um navio negreiro, saca?

Pois bem, Black-ish traz a temática no nome, que tem até uma definição do dicionário na abertura dos episódios. Trata-se de algo que poderia ser traduzido no sentido de ser um assunto relacionado à negritude, assuntos de uma família negra, sacou? Quando chama de Família Desajustada, eles podem estar descrevendo qualquer família, porque toda família é, em algum nível, desajustada.

Como eu falei aqui no blog, se você põe um ator branco pra interpretar o Super Choque, por exemplo, você descaracteriza o personagem, pois, ele foi criado negro, justamente, pra ser a representação dos negros de subúrbio. Um cara branco, além de ser minoria nos guetos, não passaria pelas mesmas situações e não alcançaria o público negro da mesma forma. A tradução de Black-ish tem esse efeito. Era pra já trazer no carta ode visita que é uma temática negra, e se perdeu no título em português.

Família desajustada pode se aplicar a negros, brancos, chineses, nativos americanos, mas Black-ish é um nome que evoca a série de corpo e alma. Existem os casos de traduções literais (A Anatomia de Grey/Grey’s Anatomy) e existem as adaptações fiéis (Era Uma Vez/Once Upon a Time), mas essa, de Família Desajustada, trabalha ao contrário, dando uma ideia de que o a temática é de uma família problemática e não de uma família negra aprendendo a conviver com os tempos diferentes em que a ascensão social melhorou para alguns.



Enfim, muito besta essa tradução, seria como traduzir Titanic como ‘Um navio que afunda’, matando o assunto diretamente tratado no título. Já dá até pra imaginar a descrição do locutor se Black-ish passasse na globo: Esse tremendo malandrão vai comandar as maiores confusões dessa família no maior clima de loucuras da pesada. Dá pra imaginar que o público vai assistir achando que é um pastelão rasgado e não uma discussão bem humorada, porém direta, sobre a vida de uma família negra e sua localização de identidade social.

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