Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Aranhas, Macacos e racistas sem perdão

Grêmio excluído da Copa do Brasil. Cabe recurso. Árbitros suspensos e multados por não terem anotado nada sobre o episódio. Razoável. Vários torcedores gremistas suspensos do estádio. Pouco. Já é um começo e que sirva de exemplo, mas não é disso que vim falar. Volto ao problema maior: A negação do racismo. Patrícia Racista gritou ‘ma-ca-co’ para Aranha. Ponto. Todo mundo achou uma pena e um exagero que ela tenha sido demitida, tenha tido sua casa apedrejada, recebido ofensas e ameaças via internet e sua família tendo que se esconder. O argumento é que foi um momento de emoção de jogo. Como se estádios fossem locais de santificação do pior do ser humano. 400 jovens negros morrem todos os dias num mês e ninguém chora na mídia. Uma racista fdp sofre retaliação por um ato de responsabilidade apenas dela mesma e chovem defensores da não-violência. Quem vive pela espada, jovens...

1reproducaolance Aranha decidiu que não vai perdoar Patricia, a gremista racista que o chamou de macaco. Ele não a quer ver nunca mais em um estádio. Frustrou a TV Globo, mas faz um bem para a sociedade brasileira...

Aí, veio outro argumento furado: Talvez ela nem seja racista, foi só um xingamento, se chamasse ele de viado não ia ser homofobia. Claro que não, jovem. Primeiro, xingar um negro de macaco é racismo sim, depois, é tão escancarado que você não vê um jogador branco ser alvo de sons simiescos e receber bananas em sua direção. Então, paremos de tapar o sol com a peneira, ok? Que aqui não tem achismo nem achômetro, tem quem sofre isso na pele desde sempre. Outra, se Aranha fosse abertamente gay, xingá-lo de viado seria mesmo homofobia, porque atribuiria juízo de valor sobre a sexualidade da pessoa. Como ele não é, seria o mesmo que chamá-lo de velho, apesar da intenção ser ofender, ele não é, então não implica juízo de valor. Agora, comparar um negro a um bicho legal, mas que não é gente de verdade, ah, isso sempre foi e sempre será racismo. Como diminuir uma mulher em sua feminilidade ou um idoso por sua avançada idade, sacou? Não foi aleatório, é como aquele outro discurso besta de ‘piada pode tudo, é só uma piada’. Não, nem líder político está acima do bem e do mal, porque um espaço de entretenimento seria palco sem lei? Vá te catar.

Aí, Aranha dá uma entrevista e diz que não perdoará a jovem que o ofendeu. Pobre racista, ofendeu e nem pra ser perdoada? Que peninha, Globo, não vai ter final de novela com abraço e beijo de perdão. Vamos a algumas considerações do goleiro? Bem:

"Eu sei que muitas vezes eu não sou aceito, eu sou tolerado. Porque sou o goleiro do Santos, bicampeão mundial. E porque eu tenho um carro bonito, porque eu compro isso, eu compro aquilo. Então muitas vezes eu sou tolerado, não sou aceito. Eu já morei em prédios, minha família está de testemunha, que não me davam nem bom dia."

Nessa aí, já morre aquela lenda decorada de que o problema do Brasil é só a pobreza. Acabando a pobreza, ainda tem racismo, tá?

"Essa mocinha aí nunca mais deve pisar num estádio. As pessoas que vão assistir aos jogos têm que se comportar, a principal punição tem que ser nunca mais pisar em estádio."

Estádios não podem ser mais paraísos para racistas. Chega dessa palhaçada de que se for num momento de emoção, você pode extravasar por meio de racismo. Que paguem e paguem caro.

"Eu tenho dó dela. Como ser humano e pelas consequências. Se ela for presa, não vai ter o tratamento que eu acredito que tenha fora da cadeia. Porque o sistema é pesado e cruel. E, mesmo no crime, tem certas regras e atitudes condenáveis."

Isso, pra lembrar que o Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo e, adivinha a etnia predominante, sendo o país que se estruturou no racismo até hoje? Siiim, mais de 60% de nossos presos são negros. Isso serviria de lição, não é? Nhá... Olha o que a torcida do Grêmio canta para seus adversários, neste caso, contra o Bahia depois do episódio citado:

"Somos campeões do Mundo
E da Libertadores também
Chora macaco imundo
Que nunca ganhou de ninguém

Somos a banda mais louca
A banda louca da Geral
A banda que corre
Os macacos do Internacional"

Fofo, não? Engraçado, depois de episódios como o de Aranha, o normal seria uma faixa enorme repudiando o racismo, mas enquanto o Grêmio tenta engendrar recurso pra se desvincular de seus torcedores babacas, uma facção inteira o contradiz em alto e bom som. Isso por quê? Novamente, racismo, puro e simples.

De onde vem essa história?

1reproducaointer Aranha decidiu que não vai perdoar Patricia, a gremista racista que o chamou de macaco. Ele não a quer ver nunca mais em um estádio. Frustrou a TV Globo, mas faz um bem para a sociedade brasileira...

A exemplo de outros clubes, como Vasco e Fluminense, o Internacional – principal rival porto-alegrense do Grêmio, já tinha negros em suas fileiras, quando não era comum, e ganhava adoidado, ao passo que o Grêmio não admitia negros por ordens do grupo de alemães que doou seu primeiro estádio. Ou seja, “Colorado, time dos macacos”. Seguiu-se desde a década de 1930 com o Inter solapando a tricolorzada por uns 20 anos até que o Grêmio passou a aceitar negros, por pura necessidade de se equiparar na força e habilidades atribuídas ao negro como naturais aptidões. Mas, claro, com a maquiagem da diversidade. Não vou entrar, dessa vez, no mérito racista que isso engloba, como a coisa de ‘ferramenta pra entreter branco’, mas fica a informação, foi como adotar um galo mais nervoso para a rinha. Mas o ranço ficou até hoje.

Conclusão


Pense que a Lei Áurea tem apenas 126, dos quais, apenas os últimos 62 tiveram participação negra no Grêmio. Pouco, né? E ainda tem gente que acha que o racismo ficou no passado. Ainda hoje muitos lugares vêem o negro como exótico estrangeiro folclórico. Um bicho. Uma coisa. Acham que na pele negra não dói tanto, nos ouvidos negros não ofendem tanto... Então eu digo, pra quem tem peninha de patrícia: adote um racista e leve pra casa Na hora de julgar se ela merece mesmo tanta retaliação, olhe bem pro semblante de Aranha ao denunciar ao árbitro o racismo que lhe agredia em seu local de trabalho e me reflita: Aquilo é a cara de quem tinha o combinado social de ser ofendido e levar numa boa? Aquela é a cara de quem não tem uma família que vai se ofender junto? Aquela é uma cara de quem é raro no Brasil, não se estendendo a ofensa a todo negro com alguma consciência social?



Fonte: Cosme Rímoli.

2 comentários:

Monteiro2007 disse...

Estou adorando as reflexões aqui postadas acerca do maldito racismo. Parabéns. Mirian.

Fernando Garcia, Sagatiba disse...

Obrigado! Infelizmente esse é um assunto que ainda vai dar muito pano pra manga e, como um inquieto convicto, sempre vou falar disso (até porque vivo isso desde sempre, né?). Mais uma vez, obrigado pela visita e volte sempre que quiser. abçs