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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Valeu, Cleidison! Desculpa, Dioclécio! Porra, Maurício!

Dioclécio Luz


Em fevereiro de 2010, o jornalista Dioclécio Luz fez uma análise um tanto radical sobre a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. Na época, lembro que fiquei um tanto chocado e vi exageros típicos de quem tenta criminalizar a violência pastelão de Chaves ou Pica-Pau. Fiquei com um pé atrás, pois de exageros assim, nascem aberrações como A Sedução do Inocente, o livro de 1954 que associava quadrinhos à delinquência juvenil (e principal força propulsora da associação Batman e Robin como um casal homossexual e pedófilo (essa segunda parte pelo lado do Bátema). É a mesma coisa que dizer que jogos de vídeo game violentos formam psicopatas e não o contrário (psicopatas se identificam com coisas violentas), então, na época o achei um belo de um paranóico. O negócio é que as coisas mudam. Eu não via o todo, não era militante de causas sociais e deixei de observar o que Dioclécio viu, em vez disso, preferi aderir ao deboche do blog que me inspirou o titulo desse texto. Mas Dioclécio tem mais razão do que percebi há 4 anos, a meu ver. E meu argumento pra justificar minha opinião de hoje em dia é justamente o início de seu texto: “Existe uma certa condescendência por parte da imprensa – e mais ainda da crítica – em relação à Turma da Mônica. Muito provavelmente por razões nacionalistas (...)”. Eu acrescentaria aí as razões comerciais e a programação desde a infância. Quem tem coragem de contestar um ícone infantil? Eu!

Porra, Maurício!


O Porra, Maurício foi uma iniciativa das mais criativas e oportunas. Simplesmente pegaram o texto do Dioclécio como uma visão deturpada e deturpadora da obra de Maurício de Souza e entenderam-no como um observador que tira as coisas de contexto para validar seus argumentos. Agora, gente, na boa, Dioclécio poderia deixar tudo no lugar (como eu acho que deixou) e não ia dar pra sair de algumas questões que eu já, já falo. E o Porra, Maurício vai, ironicamente, me ajudar a justificar o Dioclécio e questionar Maurício de Souza quanto à verdadeira representatividade do povo brasileiro em sua obra tão longeva.

Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Cleidison


Bem, esse subtítulo destacou todos TODOS os personagens negros de Maurício de Souza, com exceção de Cleidison, que, graças a Deus, é real. NENHUM mais. E o Cleidison nisso tudo? Porque, por esses dias, um menino da quinta série, o Cleidison, de uma escola em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), pintou com lápis de cor marrom a capa de uma prova, que trazia os principais personagens da Turma da Mônica. “Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim”, disse o aluno para a professora Joice Oliveira Nunes, que já teve sua postagem sobre o ocorrido compartilhada mais de mil e duzentas vezes no Facebook. Como disse a professora: Recado dado.


Fala, Maurício

Aí, não antes e nem depois de aí, surge o autor da turminha da infância de tantas gerações há 50 anos: Maurício de Sousa, o próprio, ou pelo menos,através de sua assessoria se pronuncia por nota à imprensa:

"O menino Cleidison tem razão a partir de sua visão do mundo e do meio.
Por que os personagens das historinhas que ele lê não têm a mesma cor de sua pele?

E corajosamente ele os traz mais para perto de si e dos seus colegas afrodescendentes simplesmente usando lápis de cor.

Saída criativa e carinhosa.

Ele não excluiu os personagens. Ele os trouxe para seu meio.

Sou um dos poucos cartunistas que criou personagens de cor desde o inicio de minha carreira. O Jeremias, que inclusive faz parte de nosso atual show 'Mônica Mundi', junto com Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, foi criado nos anos 60. No show ele mostra as raízes africanas que compõem nossa nação. Depois vieram protagonistas como Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.

Assim como temos a Samira (árabe), Hiro e Neuzinha (japoneses) e tantos outros dos quase 400 que criei nesse universo.

Impossível contar histórias brasileiras sem essa mistura linda de cores e valores.
(Pra mim não há raça branca, negra, amarela... Pra mim existe a raça humana)"

Conclusão: Tem mais dinossauro do que preto nessa foto abaixo.

Não há representatividade para negros ou qualquer outro grupo que não seja o caucasiano médio. Mas negros são mais de 50% da população. Eles não podem ser tão distraídos.

Então, crianças, o que aprendemos? Que um menino na escola, por ser negro e buscar representatividade, foi muito mais afirmativo do que o maior quadrinista brasileiro. Vamos analisar a nota gostosinha de Maurício?

Sim, o menino cleidison tem razão, mas não foi a partir de sua visão do mundo e do meio, negro no Brasil não é um nicho perifericamente localizado, é maioria da população. Na verdade, foi o pai da Mônica que criou seus personagens a partir de sua visão do mundo que o cercava, tanto que seus personagens mais famosos são caricaturas de suas filhas e alguns traços de pessoas próximas ou dele mesmo.

Sim, ele é um dos poucos cartunistas brasileiros a criar personagens ‘de cor’ (e assim mesmo, com a expressão que estigmatiza), pois é o único personagem negro. Os outros três são homenagens a jogadores de futebol, sendo que dois deles, NEM NA VIDA REAL se assumem negros. Neymar come banana quando o chamam de macaco, na campanha do pessoal do marketing e Pelé fala pra apenas sorrirmos e sairmos de cena diante de uma agressão racista. Ou seja, caricaturas, caricaturas. E ele mesmo já dá o tom da pouca representatividade, pois, no país mais negro fora da África, ele tem UM personagem autoral negro e o compara a UMA personagem árabe e DOIS japoneses, pra dizer que preza pela diversidade cultural num universo de 400 personagens.



Pra ele isso é uma linda mistura de cores e pra ele não há raças/etnias e sim uma única raça, a humana. Simplesmente, o pior e mais cara-de-pau dos argumentos-clichê de quem tenta esconder o pouco caso com um assunto tão sério quanto o racismo. Nenhum debate social ou filosófico, como diz Dioclécio, comparando Mônica a Calvin ou Mafalda, que são reflexivos sobre a humanidade e não tanto com seu próprio mundinho, como alguns personagens de Maurício. Com essa nota, ele praticamente fez a Patricia e disse: '''Não sou racista, tenho personagens negros'''. Sim, Dioclécio não estava tão errado. Não é fora de contexto que se deturpa a obra de Maurício, é olhando tanto o todo quanto com uma lupa que a gente nota fácil como ele faz pra manter o negro em seu lugar de exclusão social nas mídias. Claro, o fato de ter trabalhos ligados às organizações Globo, Editora Abril e essas coisas pode ter influenciado suas decisões editoriais, ou foram almas gêmeas que se encontraram. De qualquer forma...

PORRA, MAURÍCIO!!! PORRA CEBOLINHA RACISTA!!! USANDO FOTOGRAFIA PARA HUMILHAR OS NEGROS, QUE COISA MAIS NAZISTA!!!(Imagem via Erickl )

Porra, Maurício, tudo errado! Já não é representativo com a maioria da população e ainda tenta explicar a diversidade de seu trabalho comprovando que não diversificou porra nenhuma? Porra, Maurício!


Recado dado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Boa matéria! Já tinha visto o caso mas não sabia que o Mauricio tinha se pronunciado.

Eu me pergunto o porquê de tão poucos personagens negros na turma da Monica. Sem contar que o único personagem que ele criou de fato, é um personagem que mal aparece.

Não vou negar que o meio pode ter influenciado sim. Querendo ou não, ele parece ter crescido entre muitas pessoas brancas e mais o fato da maioria das pessoas que ele via nas mídias eram pessoas brancas.
Eu mesma como "aspira" a quadrinista e escritora cometi esse erro de pouca representatividade, com o tempo percebi que até os meus 16 anos eu tinha criado muuitos personagens brancos e quase nenhum negro. Mas hoje aos 19 eu problematizo isso e acho monótono não criar personagens com várias tonalidades de pele.

Mas claro, ele forçou muito a barra dizendo que ele dá um enorme representatividade colocando um negro. Ele poderia assumir que foi desleixo ou seja lá qual a real causa.