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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Cleidison e a representatividade afirmativa da negritude

Não demorou nada para aparecer Cleidison, o menino de 10 anos, aluno de quinta série, que coloriu de marrom personagens da Turma da Mônica que ilustravam a capa de uma prova aplicada pela profesora Joice Oliveira Nunes.

Cleidison afirmou que estava cansado de só ver personagens brancos por aí, passou a mão no lápis de cor e “resolveu o assunto” (Rá!). Ele ainda afirmou que não foi a primeira vez que fez isso:

Já fiz isso algumas vezes, mas nunca na escola, muito menos numa prova. Mas estou cansado de só ver personagens brancos. Sou muito orgulhoso de ser negro — disse Cleidison ao jornal Extra.

A mãe, Maria Inês Sena, é só orgulho pela atitude do filho. E não é pra menos, se já é lindo que alguém tenha uma atitude positiva, afirmativa e ousada como essa, é ainda mais gratificante ver um garoto de 10 anos com tamanha noção de sociedade.

É aquele negócio, todo negro sabe que é negro, por mais óbvio que possa parecer, não importa se classe média, classe média baixa, pobre ou favelado. Só que a grande mídia e até veículos acadêmicos, como escolas, tendem a te fazer introjetar o preconceito como natural. Aprendemos nas escolas que o negro “veio” pra cá pra ser escravo, aprendemos que o índio só “perdeu a vaga de escravo” porque era preguiçoso e interesseiro e o branco apenas veio aqui descobrir novas terras e nos dar um nome... ah, e libertar o negro dele mesmo e o índio de sua ganância desmatadora. Em momento algum nos é oferecida uma visão crítica de como nossa sociedade se formou. Então, o branco aceita sua “superioridade” (“eu não tenho culpa de ser branco”) e passa a se incomodar com o negro, falando em racismo, quando a natureza já determinou o lugar de cada um.

Isso, ainda bem, está mudando, com medidas para levar ensinamentos sobre a cultura africana, tão discriminada por questões interesseiras de alguns segmentos religiosos e sociais há séculos. Por exemplo, eu tive Moral & Cívica e achava interessante, mas descobri há pouco tempo, que não passou de uma manobra dos governos da ditadura para levar ufanismo ao cidadão desde a mais tenra idade, nos passando essas baboseiras de que o branco foi o bonzinho e o índio foi o mau selvagem, o negro, o rebelde bandido e essas coisas. Cleidison representou muito bem a negritude e o ato simbólico de colorir um dos ícones da infância de muitas gerações há 50 anos e, sei lá porque, ninguém – ou quase – tem coragem de contestar.

Canso de falar aqui sobre as sucessivas – e cansativas – novelas televisivas e seus elencos de 90 brancos com 5 negros pelos cantos, cozinhas, senzalas e sarjetas. Já não assisto TV aberta – em casa – há alguns anos e não me faz a menor falta. Procuro meus conteúdos na internet e, no momento de relaxar, assisto a algum filme ou série, mas aí, já saciei minha vontade de ver pessoas parecidas comigo na tela. Em todo caso, já tive a mesma atitude de Cleidison na adolescência, desenhei personagens próprios, criei histórias próprias, mas nem as minhas foram tão engajadas, fui mais pro lado farofa dos quadrinhos. Cleidison tem meu respeito e admiração.

Comentaristas de ocasião, infelizmente a democracia da inclusão digital dá voz a esses boçais, afirmaram bizarrices como ‘isso é preconceito contra brancos, queria ver se pintassem um personagem negro de branco’. Eu falei isso há alguns meses, seria muito preconceituoso ver um grupo que já é pouco representado, mesmo sendo maioria da população ser pintado de outra cor, mas essa gente não consegue perceber isso, porque não estuda. Só quer se defender. Ô, racista, se você não chorou pelos 4 personagens negros em meio a 400 brancos/dinossauros/vampiros e sei lá mais o quê, não tenta dar uma de luz da razão agora, ok?

Ah, e tem aquele povo que diz que a Mônica foi baseada na filha de Maurício de Sousa, logo, não é racismo... sim, benhê, mas e os outros 400 personagens? Tudo filho do Maurício? Porra, chuchu!

O negro é tão mal representado que até nos EUAses, onde há muito mais espaço para a negritude, apesar de lá ser minoria, há essa priorização caucasiana. Por exemplo, você já deve ter notado qeu a maioria dos poucos personagens negros tem os tais 'traços finos', não é? Então, veja só que o colorista recebeu uma página da revista do Flash e, sem conhecer a personagem, tascou-lhe a branquitude, mas ela é NEGRA! Repare à sua direita.


Escrevi aqui, recentemente, sobre as implicações do novo Quarteto Fantástico no cinema, com um Tocha humana negro e esses comentários babacas que sempre se repetem, mas falsos poetas à parte, estamos aqui pra louvar a atitude muito lúcida e bela de um garoto que representou mais os nossos num desenho do que toda a grande mídia em 150 anos. Exagero? Não, ninguém levanta esse debate por lá. Lembrei de menina Gabriela, filha da atriz Kenia Maria e entiada do ator Érico Brás, que levou questionamentos étnicos para casa e, dali, surgiu o canal 'Tá Bom Pra Você?', pra questionar o posicionamento do negro na TV e na sociedade.


No mais, é isso aí, Cleidison, se todo militante diz que o importante é orientar os nossos a se conscientizarem desde cedo para buscarmos representatividade e respeito, você já tem isso em tão pouca idade. Continue assim! Tamo junto!

2 comentários:

Anônimo disse...

eu amo á cor branca,sendo assim vou começar á desistir dela

Anônimo disse...

parece que á bandeira do brasil só tem cor branca e só existe á cor branca,branca no cinema,branca na televisão,no jornal,no teatro,assim me á fogo na grande quantidade de cor branca,eu cansei.