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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Politicamente correto X Piadas auto-depreciativas

Danilo Gentili, ao contrário da maioria, usou devidamente a
expressão, já que fez um espetáculo em Brasília pra
falar dos políticos. Genial
O politicamente correto é uma realidade das mais bocós já feitas. Você não pode falar nada porque a interpretação das pessoas chega no nível do recalque. Há que se fazer um equilíbrio, pois o politicamente correto soa hipócrita, mas buscar a outra ponta da questão já soa babaca. Aquele que não pensa em ser engraçado, mas em causar constrangimento. Você não ri por que se identificou, você ri de nervoso, ou melhor, de sem jeito, já que a ação rir é um reflexo do sistema nervoso.

Eu não sou totalmente contra, porque quanto mais certinha a sociedade, mais vai atrair os rebeldes (a famigerada teoria do pêndulo que eu sempre uso). Assim é com religião, política, sexualidade, etnia e tals. O problema dessas piadas é que criam uma cultura de que o auto-referente tenha direitos de tratar diferenças nas pessoas como defeito. "Eu sou negro, então eu posso fazer piada de negro". E não é assim, eu sou irônico, falo de questões racistas com sarcasmo, mas nunca ajo como se fosse um defeito que eu evidencio pra ser aceito.

O negócio foi o seguinte: Com o fim da ditadura, acharam
que se podia falar e fazer qualquer coisa. 
Muitos fazem isso. O gordo que faz todas as piadas clichês sobre seu peso e forma, por exemplo, é aquele que usa daquela filosofia "vou me depreciar antes que me depreciem, assim fica engraçado e não bullying". O negro que zoa seu próprio cabelo, seu nariz, seus lábios e tals... Isso mostra o quanto uma auto-estima pode ser ignorada em troca de umas risadas de vergonha alheia.

Então, qual o limite do politicamente (in)correto? Claro que é a noção - ou falta de - por parte de quem faz o comentário, piada e tals, mas não se pode simplesmente atribuir recalque a quem é contra. Não é porque você não vê nada de mais numa piada que as pessoas têm que aceitar numa boa. Aliás, sabe quem é a raça mais sensível neste ponto? O comediante. Você faz uma piada sobre negros, gordos, mulheres, sertanejos, gays, deficientes e qualquer outra camada discriminada da sociedade. O primeiro a reclamar é um recalcado que não entende uma piada. Mas sabe porque ele contesta isso? Porque não aceita que seu trabalho - de ouro, que vale mais que dinheiro - seja contestado.

É o papo do religioso que condena todo mundo ao inferno, mas faz isso justamente contrariando o princípio primordial de não julgar o próximo. É quando as pessoas falam que críticas são por inveja, por burrice do público. Eles brigam entre si, quando acham que o outro roubou a piada (como se algum tema não existisse antes deles falarem). Ou todo mundo combina de aceitar qualquer coisa como piada, ou aprendemos que pessoas diferentes têm pensamentos diferentes. Aquele seu alvo de piada tem uma família, tem gente que vai defendê-lo e você não pode banalizar uma pessoa ou um grupo numa piada. Se você não sabe ser engraçado falando de uma situação, não é atacando um grupo e se sentindo intelectual demais pra ser compreendido que você vai comprovar sua superioridade.

Hipérbole acerca dos estereótipos que eu falei, mas essa
discussão não está longe de se concretizar.
Quando algum tipo de censura ataca a teledramaturgia, por exemplo, eu rio deles (dramaturgos) sabe porquê? O que eles acham que é um exagero é a perpetuação de estereótipos idiotas que, não deveriam - mas acabam fazendo - educar e alienar o público. Você compra esse Brasil branco, rico/emergente e feliz da vida que todas as ditaduras aqui implantadas nos empurraram? Já que não refletem a realidade, tô pouco me lixando se são censurados ou não. Eu não assisto. Mas gosto de acompanhar na internet pra comentar. Afinal, o Brasil que eu vejo da porta da minha casa pra fora não é bem o que eu vejo da porta pra dentro, na TV.

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