Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Trem é um carinho sem pedir

O dia foi hoje, mas não vou dizer que dia é hoje, pois, a despeito da data que vai ficar registrada a postagem, quero que você que está lendo isso agora, sinta-se como se fosse qualquer momento por aí pra quem anda de trem nos horários de maior movimento, ou seja, retorno de trabalho, curso, faculdade, etc.

Quando cheguei, olhei o monitor que indica(ria) a composição, seu destino, a plataforma, linha e o horário. Besteira, porque, agora, o horário não é mais anunciado, talvez, por um receio da própria concessionária não querer cair no perigo de prometer um horário e o trem sair em outro (invariavelmente esse 'outro' horário sempre SEMPRE é pra mais, ou seja, atrasado). Não sei se foi uma medida preventiva, ou se foi alguma reclamação, como aconteceu com o clássico "quer pagar quanto?" de uma famosa rede de lojas.

Pois bem, entrei no trem e me comportei (não esporrei na manivela, como os Raimundos - dos bons tempos fariam) e aguardei o trem sair. Saiu. E só uns 5 minutos na espera, grande evolução, já que no dia anterior a espera foi de meia hora e muita chuva, relâmpagos e sapos do céu pro chão (sim, tinha proporções bíblicas pra quem aguarda um veículo que não sai e só faz encher de chuva e de gente). Como era de se esperar, ele foi enchendo de forma assustadora, coisa de você não conseguir ficar na mesma espremida posição de uma estação pra outra, pois, a cada parada o troço recebia uma ejaculação de gente pra dentro (UIA!), sim, é um ato sexual. Trenssexual. Acabei de inventar e acho apropriado.

Não bastasse o desconforto nosso de cada dia, coisa que estamos acostumados, mas não deixa de ser uma selvageria, ainda tinham braços entrelaçados próximos ao meu negro e injuriado rosto. A situação parecia um pouco mais confortável - pra mim - quando eu olhava uma moça que nem chegava ao meu ombro - tudo bem, tenho quase 2m de altura, aliviemos - e uma outra, ao seu lado (dela, não de você que lê) que mau passava do ombro da colega. As duas pareciam uma pessoa agachada, pois, não se via nem seus ombros, tantos eram os obstáculos de bolsas e mãos emaranhadas.

Haviam umas 10 pessoas só no espaço entre a barra de metal em que eu me espremia e a porta. Pra se ter ideia, era uma área de um metro, um metro e meio, no máximo. Dei muita sorte de ser um trem com ar condicionado, pois, nem todos são assim, e nem todos funcionam o tempo todo de viagem, como aconteceu no dia anterior - e olha que eu só faço uns 20, 25 minutos de viagem. Imagine quem vai da Central a Japeri, Nova Iguaçu ou Santa Cruz? Pra quem não é do Rio de Janeiro, pense num percurso de uma hora, uma hora e meia. Faça esse exercício e sofra com a identificação imediata, ou chore por aqueles que penam aconchegados em desconhecidos suados e de desodorantes vencidos.

Isso tudo, numa NUMA viagem só de volta. Não falei das viagens de ida que já trazem os mesmos dramas, e ainda com um plus, os camelôs informais - não regulamentados pela propaganda da concessionária - e os evangélicos. Sinto muito, não quero parecer preconceituoso, mas não vejo católicos com velas ou espiritualistas com tambores num vagão em décadas de trem na minha vida. Fora que há letreiros bem visíveis pelos vagões alertando que há lei que proíbe QUALQUER manifestação religiosa, pois, quem quiser procurar uma igreja vai procurar, e quem já é de lá, que aproveite e curta seus momentos de comunhão com seus pares. Mas estou divagando.

O negócio é que estamos falando aqui de um meio de transporte que há apenas 10 anos era mais barato que ônibus, isso quando os ônibus mal passavam de 1 UM real, talvez chegando a 2 (quando os aumentos não eram previstos pra fazer as empresas e a prefeitura lucrarem tão descaradamente). Agora a brincadeira passa dos 3 reais e contando. Onde vamos parar?

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