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quarta-feira, 9 de abril de 2014

A Grande Pensadora Valesca Popozuda e o Preconceito Social

Num futuro fascista (não, não é hoje, ainda!) a sociedade é programada a se comportar do mesmo modo monótono e produtivo que deixa a camada dominante da sociedade tranqüila e despreocupada. Esse é o cenário de Equilibrium (2002), filme que traz o ‘Bátema’, Christian Bale, como John Preston, um policial do sistema que se rebela e vai tirar satisfações com o líder (uma espécie de Hitler), que é inacessível e só aparece fazendo longos discursos de obrigações sociais por telões nas ruas. A verdade é que o líder já morreu há tempos e um membro do governo mantém as aparências pra que a sociedade não mude.

 

Assim é a nossa sociedade, não é? Qualquer manifestação que fuja ao que a elite determinou como certo é rechaçada e criticada com eufemismos ofensivos como ‘coisa de pobre’, ‘favelado’, entre outros. O Funk está nesse grupo. Já reparou que se falar em Funk, as pessoas já torcem a cara e não enxergam nada de bom? Pois é, ignoram que se as pessoas falam errado ou citam realidades de violência e alienação sexual é porque ali o Estado não chegou, ou seja, a conclusão óbvia é que a exclusão daquela camada da população por parte do governo gera esse tipo de manifestação. Você não veria nem uma Anitta da vida cantando Funk (e depois renegando até o Mc do nome artístico) se não fosse a grana que isso dá. Até porque a menina má parece ser aquele tipo de pobre que odeia pobreza e despreza o passado no apagar das câmeras.


Mas o papo aqui não é Anitta, é Valesca, essa sim, uma autêntica funkeira e assunto na internet recentemente, mas não só pelo Beijinho no Ombro, ou melhor, também por isso. É que Popozuda foi citada numa questão de prova como ‘grande pensadora contemporânea’. Antes, eu friso, pra mim, pareceu mais um deboche do que uma homenagem daquele professor de filosofia da rede pública no Distrito Federal (barbas de molho MODO ON), mas a questão toda é a repercussão nas redes sociais. Aliás, esse é o grande mérito do professor, conseguiu levantar o debate (sendo deboche ou não) e não entrou em didatismos. Apenas jogou o assunto na berlinda. 

Todo mundo se escandalizando com a diva funk na prova e eu injuriado que escreveram seu nome com W e não V.
Como era de se esperar, todo mundo adora criticar o Funk associando-o à evasão escolar, gravidez na adolescência, violência e causa da IV Grande Guerra (aquela que virá em 2056 e que unirá a antiga União Soviética a Marte). E, além do preconceito social inerente, pessoas acham impensável que um artista do Funk seja considerado pra uma questão de prova – e que não é como exemplo negativo a NÃO ser seguido. Pois bem, Valesca pode não ser a mais poética das cantoras e a questão nem pareceu ter um propósito, estando mais para modelo ‘receita de miojo no ENEM’ do que uma bola levantada para reflexões existenciais, mas o que é gritante é a necessidade de se esculachar o Funk, a ‘coisa de pobre’.


Por exemplo, Gilberto Gil e Caetano Veloso, dois dos maiores nomes de nossa música, já admitiram que ouvem Funk, que gostam de elementos ali presentes. Tom Zé, já fez até análise de estrutura métrica de um funk e também são contemporâneos de muita gente da ‘boa música’, argumento dos intelectualóides que separam gosto musical por classe social de origem. Provavelmente apoiados por aqueles que ouvem todas as mazelas gramáticas, mentais e sociais em outros idiomas e acham que porque não entendem o que estão cantando e ouvindo, estão isentos de críticas.



Isso nos faz voltar ao início do texto, quando esperamos John Preston (Bale) aparecer pra destronar esse líder morto que deixou um legado de comportamento mental que não nos pertence, apenas foi imposto de maneira sutil pelos meios de comunicação em massa, como se fosse nossa vontade, mas é a deles. Identificação com um gênero musical ou outro é uma coisa, agora, cagar regra para o que é certo ou errado na música, só vale se você for corrigir um cara que promete tango e toca valsa, ok? Certo e errado na construção de gosto não cabe, pois é como dizem: Gosto é como umbigo, cada um tem o seu.

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