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quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Boticário e a diversidade que não é tão diversificada assim


O Boticário lançou uma campanha para o comercializado dia dos namorados. O comercial gerou um burburinho – pra não dizer estardalhaço – por parte da família tradicional brasileira (quê?!?!?). Sim, defensores da ‘moral e dos bons costumes’ (aquela gente hipócrita que acha que vive numa série suburbana estadunidense antiga) vieram a público e, diretamente, se reportaram à empresa repudiando a iniciativa de mostrar casais gays sob o fundo musical ‘Toda forma de amor’. Sempre vou achar muito revoltante que, segundo a lógica retrógrada conservadora, um comercial com gay vai te tornar gay, mas um amigo próximo bom em matemática, não passe o dom das exatas por osmose... Enfim, vai entender... acho que é muito medo de soltar a tarraqueta e ter que explicar a seus amigos igualmente conservadores, igualmente encubados. Quanto a isso, já me manifestei bastante sobre essa promessa de boicote pobre de espírito, mas o contexto aqui é outro, pois sobre respeitarmos e aceitarmos as pessoas como são, como sabemos, não é favor, é direito de cada um (claro, não estou falando em aceitar um psicopata, você me entendeu, né?).

Como puderam pensar em diversidade e não ter negros? Parece que alguém chegou e falou 'vamos mostrar grupos discriminados... vai põe gay aí que dá ibope'.

A coisa aqui passa por uma linha tênue entre a polêmica e a ironia trágica da exclusão. Enquanto todos estão ocupados brigando entre si sobre mostrar casais gays, acabar com a família tradicional brasileira e o mundo virar gay porque existem gays nele, muita gente tá deixando passar a exclusão do negro. E o negro? E, neste contexto, mais especificamente, e o gay negro? Oras, como em tudo que tem apelo popular, se somos mais de 50% da população, como que não conseguiram pensar em um casal afrocentrado? Lógico, a resposta óbvia seria ‘porque eles provavelmente não convivem com negros’, o que seria a mesma resposta para nossa ausência em lugares diversos em novelas (que não apenas cozinhas de ricos e favelas), comerciais, capas de revistas e por aí vai.

Campanha Make B, onde, segundo a descrição, seria pra mostrar a beleza da mulher brasileira. Talvez, as nascidas na Áustria, né?

Lembraram que há gays no dia dos namorados, então, por associação, sinto que vamos ser representados numa campanha lá pra novembro, já que fomos contemplados no mês passado com a campanha de dia das mães, por dedução minha, ser uma data que sempre cai próxima ao 13 de maio. Enfim, essa é um sarcasmo da minha parte, porque o fato é que não há negros na campanha e eu não posso aplaudir a diversidade se ela não me contempla, mas veja bem... Não é porque não ME contemple pessoalmente, mas por que me exclui enquanto grupo social. Oras, eu e minha mulher somos negros, usamos perfumes, mas na hora da empresa mostrar que sabe disso, ela não bota nossa cara lá? Assim, penso, seriamente, se essa diversidade toda do comercial não é uma muleta pra chamar atenção, uma média pra gerar o barulho e atrair olhares para a marca. Sacou? Criar a guerra “homofobia x gays e o restante de gente legal que só de sacanagem vai apoiar a empresa”.

Campanha de dia das mães este ano. Lembro que achei muito legal a inclusão... mas já voltaram ao 'normal'.

Imagino que poderá haver uma adesão gay significativa, sobretudo quando líderes político-religiosos se metem pra criticar, aproveitarem seus 15 minutos de fama pra incitar aqueles que não pensam como eles. Mas, como expliquei pra Sra. Sagatiba – que não vive na net como eu: NÃO ME VEJO NÃO COMPRO. Então, gente, não há gays negros? Não há um casalzinho só pelo país inteiro que não gostaria de se ver ali e pensar ‘taí, eles sabem que eu existo, essa marca é legal’? Jura? Por enquanto, tenho as barbas de molho, vou me manter nessa de oportunismo sobre diversidade porque não é só fazer um agrado e ogar um biscoito que se ganha confiança, muito menos com uma mancada dessa de que TODA forma de amor não contempla a maior parte da população (negra) pra figurar na telinha.



Palmas para campanha que mostrou diversidade.
Vaias para a campanha que falhou em mostrar diversidade.

Segue UM dos comentários que fiz lá no facebook d’O Boticário:


Desde o fatídico Make B que eu falo, aquela resposta genérica que alguns receberam, no melhor estilo 'recebemos sua mensagem, valeu, mas vamos fazer do nosso jeito' nunca foi engolida. Espero que ouçam a voz do retorno imediato à campanha, pois, em vez de diversidade, isso vai acabar ficando com cara de muleta pra chamar à atenção. Aí, vai acabar gerando divulgação negativa. Repito, muito legal o 'toda forma de amor', mas ver que TODA forma de amor não inclui negros no país com mais negros fora da África é, no mínimo, miopia social. Racismo não precisa vir dando porrada, a exclusão também é violência.

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