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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Quando o futebol mata - 20 anos sem Andrés Escobar

A Copa de 1994 foi um marco na minha vida pessoal. Eu tinha 12 anos (aquela fase escrota em que você não é criança, não é adolescente e não é adulto, mas tem que agir como todos ao mesmo tempo), mas dizem que velho eu já era, em minha mente, mas não há provas. Rá! A verdade é que até aquele ano, eu preferia assistir jogos de copas (de futebol, não de cartas), pois era o momento em que vários talentos famosos se juntavam e não a 'normalidade' de times com algumas estrelas e o resto 'desconhecido'. É, eu aprendia pouco com os álbuns de figurinhas.



Então, em 1990, lembro de momentos legais e tals, mas foi em 1994 que aprendi a entender de futebol, acompanhar tudo desde as eliminatórias, reconhecer jogadores, árbitros e até leis como o impedimento e a vantagem... Bem, isso me traz muitas memórias afetivas de 20 anos atrás, mas também me traz um trauma típico do crianção de 12 anos. Falo isso por causa de um jogador, um fato e uma tragédia: Andrés Escobar. Há exatos 20 anos, o zagueiro colombiano era assassinado na cidade colombiana de Medellín, com 12 tiros.



A história começa em 22 de junho de 1994, a Colômbia pegaria os EUAses depois de uma derrota por 3x1 para a Romênia. Até aí, tudo normal, a Romênia tinha o zagueiro Hagi (herói do futebol de lá, ex-Barcelona e Real Madrid, entre outros) como líder. Agora, o bicho pegou mesmo foi contra os donos da casa. Sabemos que a tradição dos EUAses no futebol é tanta quanto do XV de Jaú nas olimpíadas, então, já começar tomando um gol contra (Escobar, o único daquela Copa) foi um duro golpe numa das melhores representações colombianas no evento.

Escobar e o goleiro Cordoba, caídos num dos momentos mais tristes do futebol (sobretudo pelo que originou fora de campo).

O time acabou derrotado por 2x1 e nem a vitória no último jogo adiantou, contra a Suiça. A geração de Rincón, Asprilla, Escobar e Valderrama se despedia de uma promissora Copa na primeira fase. E é aí que começam as especulações. Oficialmente, não se comprova que foi por causa do gol contra que Escobar fora assassinado, mas seus assassinos trabalharam com chefes do narcotráfico e diversas versões definem o fatídico gol como o motivo da discussão que terminou em morte. Também é importante frisar o cenário social da Colômbia.

Faixa estendida na Copa seguinte, em 1998.

Hoje, o país melhorou muito em questão de educação, economia e segurança, mas na época, o narcotráfico é que era notícia com nomes como o de Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín (e sem parentesco com o jogador). Conta-se que possivelmente apostadores tenham feito muita fé na seleção e tido muito prejuízo, outros dizem que fora uma discussão passional, mas a questão é que esse jogador ficou marcado na história da Colômbia, não só pela morte, mas por ter sido conhecido como "O Cavalheiro do Futebol", dada sua postura profissional, bom temperamento e talento para o esporte.



Curiosamente, na mesma época, o jogo International Superstar Soccer Deluxe (precurssor dos Winning Eleven e PES da vida) trazia suas clássicas semelhanças com a realidade e uma delas era a apresentação de um telão, diante de momentos marcantes do jogo. Por exemplo, um jogador que fizesse 3 gols pedia música no fantástico aparecia em pose triunfal. Outro desses momentos era um jogador deitado no chão após um gol contra. Sempre, entre os amigos da época, concordamos que não era coincidência.



Os assassinos foram condenados a 30 anos, mas saíram depois de 11, por bom comportamento. Por que, você sabe, depois que se mata alguém, você pode amenizar sua pena mostrando o que deveria ter feito desde o início, NÃO matando ninguém. É uma ironia trágica. Veja o momento fatal do triste gol contra da Colômbia.




Curiosidade

Lembrei disso por causa de um fato inusitado - pra um brasileiro - que ocorreu em Seul, capital da Coréia do Sul. A seleção de lá, última colocada no grupo H, foi recebida com um chuva de balas... de caramelo. Sim, jogar doces em outras pessoas, na Coréia do Sul, é um gesto de insulto.

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