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quarta-feira, 27 de maio de 2015

E se o Super Choque fosse branco seria "racismo invertido"?



Não ia ter Super Choque, assim como não existe racismo invertido. Racismo é sistema social de dominação, onde um grupo domina o outro. Estude história de verdade e perceba qual grupo invadiu qual país e qual grupo até hoje é minoria rica e qual é maioria pobre. Acabou a conversa.

Brinks!!!

Na verdade, vou falar sobre essa futilidade de colorismos mil. O que constrói um personagem não é um traço só. Até na famigerada Turma da Mônica, os personagens demonstram características a mais do que aquelas que são mais conhecidas. Logo, um super herói não é feito apenas por seus poderes. Eles possuem camadas. Então, voltamos ao assunto 'Tocha Humana negro'. Seu amiguinho vem lá do caixa-prego (de onde ninguém o chamou) e diz:

"Ain, se o Super Choque fosse feito por um ator branco, vocês iam dizer que é racismo".

Vamos nós de novo: Super Choque é um garoto negro de uma vizinhança predominantemente negra/latina nos EUAses, o que, no geral, representa uns 20% da população daquele país. Ele começou como um herói de gueto nos quadrinhos e virou uma versão do Homem-Aranha, no desenho famoso (pra amenizar o contexto de violência urbana que ele vivia nas HQs).

Virgil Hawkins, o Super Choque (Static Shock), foi criado pelo finado produtor Dwayne MacDuff JUSTAMENTE pra representar essa parcela que sempre foi excluída da mídia. Ele foi um pioneiro em perceber - e se mexer - a respeito de representatividade, uma tal que hoje em dia é possível, diferente da década de 1960, quando a maioria dos heróis populares de hoje foi criada (Homem-Aranha, Thor, Homem de Ferro, X-Men, Quarteto Fantástico, etc...).

Super Choque já se encontrou com Anansi, o Homem-Aranha (escancarada alusão ao personagem mitológico de mesmo nome da cultura ashanti - África) enquanto esteve numa viagem ao continente-mãe, já se deparou com heróis de sua comunidade de décadas passadas como Soul Power tanto nessas quanto em outras ocasiões, o fato de ser negro foi fundamental, diferente do Tocha Humana que é e sempre foi apenas um garotão gente boa curtidor da vida, em nada sendo preponderante sua etnia.

No referido episódio da viagem à África, Virgil liga para seu melhor amigo, Richie, e eles têm um diálogo tipo isso:

- Eu tô adorando isso aqui, porque aqui eu não sou "o garoto negro", eu sou só mais um. Todo mundo aqui é como eu. Acho que é assim que você se sente aí, né?

- Er... que bom que você tá gostando, cara.

Nitidamente, seu melhor amigo branco não compreende a necessidade do jovem negro marginalizado de seu subúrbio em se sentir realmente um cidadão normal e não um estigmatizado. Tem até outro episódio em que descobrimos que o pai de Richie é racista, há um embate dos pais dos dois garotos, mas isso é papo pra outro texto. Por hora, fica o exemplo de o quanto ser negro é importante pro Super Choque, assim como pro Pantera Negra, assim como é pro Luke Cage, Tempestade e tantos outros, mas repare. Assim como em nossa cultura midiática aberta em geral, um personagem só sai das características 'básicas' (dos brancos) na hora de mostrar seu contexto próprio.

Exemplo: O próprio Tocha não tem contexto social algum, foi só um personagem criado pra ter poderes. Super Choque não, esse já foi criado pra mostrar um universo que a maioria estadunidense não conhece, mas é real e tem gente lá que adoraria se ver representado. O Homem-Aranha original é só um garoto classe média vivendo com a tia, já Miles Morales, o Homem-Aranha do universo ultimate é inserido no mesmo contexto que Super Choque. Tempestade nasceu no Quênia e vivia como trombadinha até mudar de vida, Luke Cage foi criado pra ser um herói de aluguel dos guetos, etc...



Poucos personagens negros. criados como tal, fariam sentido apenas mudando sua etnia. Justamente por não ser o estereótipo primordial, esses personagens são criados pra serem de outras etnias e condições sociais. Apenas achar que é uma birra dos grandes estúdios de cinema por mudança de cor de pele é superficial e infantil. É aquela conversa que eu mandei no outro texto sobre o Tocha, mania de acomodado que não quer ver seu mundinho mudar, achava que dominava um conhecimento e se vê "obrigado" a sair da zona de conforto.



Obrigado entre aspas porque seu personagem vai continuar lá, na mídia original dele, sem sofrer qualquer abuso e se mudar lá, faça como eu, pare de ler. Muita coisa hoje em dia já não é feita pra nerds velhões como nós. Um exemplo, a última saga que comprei foi chamada Crise Infinita (DC Comics) e tem uns 10 anos isso. Uma decisão editorial bizarra, na minha opinião, foram vários personagens da famosa fase cômica da Liga da Justiça serem exterminados. Besouro Azul (Ted Kord), Sue Dibny, Maxuell Lord e outros, todos mortos de formas brutais durante aquela fase. Eu ignoro isso, prefiro reler as histórias que tenho da reunião do grupo numa série de ação e comédia do jeito que eu gostava.



Os tempos são outros e pensar tá sendo necessidade. Imagina quantas crianças negras - e até adultos - não podiam se fantasiar de quase nada ou se fantasiassem, tinham que ouvir 'mas esse personagem não é preto' ou o pior - ouvi muito - 'é o personagem tal depois do incêndio' e outras alusões à minha cor de pele como se fosse um defeito, queimadura, sujeira, tintura, etc. Já falei isso no meu teto sobre a reatividade em relação ao Capitão América negro, falei de novo sobre o Tocha Humana negro, agora respondi (sei lá a quem) sobre Super Choque ter necessidade de ser negro pra fazer sentido.



Cansa um pouco, mas é uma missão, sempre deixar um registro de resposta porque "eles" sempre vêm com os mesmos clichês, então é bom termos as mesmas respostas, mas de diferentes pontos de vista, porque ou a gente enfia algum conhecimento na cabeça deles, ou eles se mandam por cansaço.

2 comentários:

Bia disse...

Representatividade é mais que preciso!

Bia disse...

Representatividade é mais que preciso!