Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

X-Men e as causas sociais


Não é de hoje que cito HQs em meus artigos ou postagens e você já percebeu isso se deu uma olhadela no histórico dos lugares onde publico textos. Ao longo dos tempos, me tornei um decenauta em questão de quantidade de material da DC Comics, mas tudo começou mesmo com a Marvel, quando eu acumulava bonequinhos figuras de ação de Homem de Ferro, Capitão América (e ainda achava que o personagem era um lacaio patriótico estadunidense) e meu preferido sempre sempre: Homem-Aranha. Num determinado ano, comecei a comprar regularmente as revistas do meu favorito, naquele formatinho da editora Abril, típico dos anos ‘90s, mas logo fui apresentado a X-Men, uma equipe esquisita, pois brigavam entre si, tinha confusão e poderes bizarros. Era o clássico desenho de 1990 ou 1992, algo assim. Claro, quando o interesse me levou aos gibis, me deparei com histórias e equipes bem diferentes, personagens que não existiam em um lado e foram criados no outro, histórias adaptadas e essas coisas que os nerds mais novos só se chocam agora quando mudam das Hqs pro cinema.
 
O caso é que X-Men sempre foi uma série muito didática. Existe a história de que quando Stan Lee participou da criação do conceito dos heróis (junto a desenhistas que concebiam os visuais), ele quis algo diferente do que já havia feito. Enquanto o contexto político apontava para a Guerra Fria e aquela tensão de ataque nuclear, todas as formas de radiação geravam poderes. Radiação em aranha, vira homem-aranha, radiação gama, vira o Hulk, radiação Vita com potencialização gama, vira o supersoldado (que de soldado já nasceu como capitão América), radiação cósmica vira quarteto fantástico e por aí vai... Só que com essa nova leva, eles queriam algo mais dinâmico, sem muita explicação, então, nasceram os filhos do átomo, os X-men, aqueles que quase que inexplicavelmente já nasciam com a fonte de seus poderes. Havia um contexto preparado de que indiretamente os mutantes absorviam alguma radiação, talvez em nível genético, de pais expostos a alguma radiação (olha ela aí de novo), como é o Professor X, por exemplo. Mas a característica que origina este texto é a forma como se desenvolvem os poderes.

Tá, a coisa tá lá e não precisa explicar muito, mas como eles conseguem lidar com isso? O Cíclope não nasceu atirando rajadas ópticas de plasma, nem Wolverine praticou cesária na sua mãe de dentro pra fora com suas garrinhas, né, não? Então, a semente dos poderes causou uma mutação em uma parcela da população e seus descendentes representariam uma espécie de salto na evolução, quase que uma nova espécie de ser humano surgindo, assim como o homo sapiens substituiu o homo erectus, estaria agora sendo substituído pelo homo superior (nome original, hein?). Manifestando-se, geralmente, na adolescência, dada a ebulição de hormônios e mudanças no corpo, o gene X fazia com que as crianças desenvolvessem seus dons com a naturalidade e espontaneidade que hormônios fazer crescer pelos, espinhas, seios, quadris e tals... Vamos às abordagens sociais a partir dessas mudanças? Vamos.

Adolescência


Essa é a mais óbvia, numa fase em que você além de descobrir seu próprio corpo, descobre pra que servem certas partes e precisa lidar com isso. Eu, por exemplo, fiquei muito alto e desengonçado ainda com 13, 14 anos. Foi uma lástima passar por isso. Imagina se você descobre que um beijo pode deixar alguém em coma ou que você pode arrancar a cabeça da professora numa olhada? Barra... amigxs, barra.

Racismo


Enquanto Xavier tem o sonho de que humanos e mutantes convivam em paz, Magneto não confia na humanidade pela parte que os persegue por serem diferentes e prega o separatismo, que mutantes tenham seu próprio lugar à parte dos humanos que os odeia e querem destruí-los. Além disso, tem o Stryker que defende o extermínio dos mutantes em nome da pureza da humanidade “normal”. Isso nada mais é do que Martin Luther King Jr (Xavier) em conflito ideológico com Malcolm X (Magneto) e os dois na mira da Ku Klux Klan (Stryker e seu grupo ‘purificador’). Luther King tinha um sonho de paz, X já tinha visto a solução em conflito armado (Black Panther) e ambos queriam, em suas próprias visões, a paz e segurança para seu povo: Negros (mutantes).


Antissemitismo  


O próprio Magneto vai exemplificar esse aqui, de novo, com Stryker. Magneto é judeu e vítima do holocausto, sobrevivente da segunda guerra. Seus poderes se desenvolveram depois de adulto quando já tinha constituído família num momento de fúria por ter perdido uma filha, o que fez sua esposa fugir (grávida, dando à luz depois aos gêmeos Pietro e Wanda, mas esse é outro assunto). Magnus, ironicamente, por horror ao holocausto, defende que os mutantes, sendo uma raça diferente, viva em um lugar só dele, ao passo que Stryker traz o terror da ilha Genosha onde mutantes são marcados e aprisionados para controle e extermínio, como um campo de concentração.

Homofobia


Usei de forma improvisada o termo homo no sentido do que não é hétero, ok? Mas estão englobados trans, bi, lesbo, etc, só pro subtítulo não ficar muito extenso. Mas voltando, um caso que exemplifica perfeitamente a comparação de mutantes a gays é uma cena de X2 (X-Men 2), quando, fugindo de Stryker (de novo ele), Wolverine, Pyro, Vampira e Homem de Gelo vão até a casa deste último para esperar a poeira baixar. Enquanto esfriam a cabeça, os pais de Bobby retornam com seu irmão e é hora de ele admitir que é um mutante. Na verdade, ele “sai do armário” com direito a choque da família e sua mãe dizendo que a culpa é dela, perguntando se não tem como ele deixar de ser mutante (“filho, já tentou... não ser assim?”). E fica aquele jogo do pai que não aceita o filho como é, o irmão o denuncia como fugitivo e é mais um gay mutante expulso de casa por não ter apoio da família na hora que mais precisava, tendo que encarar o mundo e sua violência sozinho. Ah, e tem o vírus Legado, uma doença própria pra quem tem o gene mutante, mas que afeta seres humanos também, numa escala diferente. Faz lembrar a monstruosa fofoca que tomou o mundo alegando que AIDS era doença de gay, de grupos de risco como prostitutas, gays e drogados com injetáveis.



Comunismo


As várias vezes que o projeto do Senador Kelly veio à baila para registrar mutantes junto ao governo pra manter controle sobre eles e poder prevenir uma possível ameaça mutante é a mesma coisa que um projeto estadunidense para rechaçar a ‘ameaça vermelha’ que nada mais era além do comunismo, que sempre pareceu uma ameaça aos reis do capitalismo. Pra quê a ideia de o trabalhador ter o controle dos rumos da sociedade e tirar da mão do pequeno grupo que os mantém sob coleiras? Pois é, seres humanos não gostavam da ideia de um cara que pode dobrar uma tampa de bueiro com um pensamento andando por aí. Vai que ele cisma de andar pelado só de capinha e você não pode reclamar pra não ter o ferro do organismo concentrado e enfiado no umbigo? Vai vendo...


Subcultura e deficiência


Os Morlocks receberam esse nome sob influência das criaturas de H.G Wells, em sua obra A Máquina do Tempo, porque eram criaturas estranhas que causavam medo e viviam no subsolo. Na verdade, os Morlocks da Marvel são mutantes como qualquer outro, mas com uma característica os diferencia: São considerados deformados demais pra viverem entre os humanos como se fossem eles. Tipo, ninguém questiona o Ciclope por estar sempre de óculos, mas seria esquisito não reparar naquela moça que é fina igual papel ou no jovem com aparência de borracha. Isso nos remete diretamente aos excluídos da subcultura com seus visuais alternativos, piercings, tatuagens e demais body art, mas também lembra das pessoas com necessidades especiais, pois perceba que muita gente não diz, mas adoraria que cadeirantes e demais deficientes ficassem em suas casas pra não ter que se deparar com alguém que precisa de mais ajuda do que eles em várias oportunidades.


Religião


Há o aspecto religioso também. Ao passo que vários mutantes possuem diferentes religiões entre si, a igreja purificadora de Stryker (putz, o cara é pior que o Magneto) considera que mutantes são obras do capiroto, portanto, não podem ter religião, já que não são seres humanos de verdade. Igualzinho a uma galera mala falha por aí que acha que só eles é que são os certos e o resto está fadado ao inferno. Aliás, na mitologia deles, o inimigo é personagem da religião dos outros. Como é?! Sim, já que estamos falando de quadrinhos aqui, seria como dizer que todo mundo no universo X da Marvel é bonzinho, o inimigo mesmo é o Bátema, porque ele se veste de maneira diferente da dos X-Men e tem um jeito de se comportar diferente. Não que possam haver diferentes maneiras de combater a maldade, eles precisam apontar alguém pra odiar. Assim a humanidade faz com os mutantes, assim a humanidade faz com a humanidade e assim eu termino meu parecer sobre uma das séries que marcou minha adolescência e que adoro reler o que tenho de tempos em tempos.      

          


P.S: Agora eu sou esquerdopata gayzista feminazi bolivariano vitimista e MUTUNISTA. Rá!

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